Poço de Jacob – 96 Aquela canção, “Fica sempre, um pouco de perfume, nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas”, é de uma beleza encantadora. Ouvi-a pela primeira vez nas Vitorianas em Coimbra e nunca mais me esqueci da música, letra e convite ao gesto de dar rosas.
No nosso Centro Social de Moita, Anadia, começamos, há anos, a oferecer a cada funcionária um ramo de flores no seu aniversário. Vi, quando era seminarista, que um empresário de moda, em Toledo, Espanha, oferecia aos seus funcionários, nas suas lojas espalhadas pelo país, uma peça de roupa das suas lojas por ocasião de alguma celebração. Nunca empobreceu por isso e o interesse pelo trabalho aumentou por causa deste e de outros incentivos que ele, como bom cristão de missa diária, sabia comunicar.
Hoje faltam incentivos aos nossos trabalhadores, que veem os seus direitos cada vez mais usurpados pelas coisas que sabemos, deste nosso tempo tão confuso. Vejo professores com depressões e tanta gente sem gosto no trabalho. A vida torna-se uma carga muito pesada. Sem incentivos, ninguém caminha em coisa nenhuma, nem na religião nem na educação. Daí que, entre outras coisas que vamos oferecendo aos nossos funcionários e que eles sabem, as flores ficam sempre bem nesse dia.
Vejo tanta gente oferecer montanhas de flores nos funerais… que apodrecem nas campas. Lembro-me de uma paroquiana que pegou nessas flores todas e, nesse fim de semana, pediu licença para enfeitar toda a igreja com elas, em nome do seu parente defunto. A igreja estava deslumbrante. Ou a médica amiga, falecida há dias, que pediu que o dinheiro das flores fosse colocado numa caixinha junto do seu caixão e orientado para um obra de apoio às crianças que havia na sua cidade. Rendeu tanto dinheiro que ficamos admirados… E as crianças agradeceram.
Ora, um dia, vi uma funcionária de certa idade a chorar e a dizer-me que nunca na vida ninguém lhe tinha dado flores. Penso que já falei disso no “Poço de Jacob”. Tantos anos casada e tantos de viúva, com filhos e netos, e nunca ninguém se lembrou de lhe dar flores… E assim andam as pessoas, muito mal amadas neste mundo. Pergunto-me, então, se a manifestação exterior da nossa fé, além de tudo o que a religião nos pede, não poderia ser cuidada na prática corrente e espontânea de queremos fazer as pessoas sorrir, chorar de alegria. Levar a felicidade ao coração do irmão. Saber que hoje fiz uma pessoa ficar feliz! Não deveria ser esta uma preocupação quando saímos de casa para o nosso serviço?
Quem crê em Deus deveria ocupar-se com a felicidade dos outros, pois o que fazemos aos outros é ao Senhor que o fazemos. Já ouvi gente argumentar que não se preocupa com isso pois ninguém se preocupa com ela. Mas a alegria está mais em dar do que em receber. Ou será isso teoria? Na prática, não devemos procurar ser felizes apenas, mas fazer os outros serem felizes, pois o que nos enriquece é o que damos e não o que recebemos. E a vida e Deus encarregar-se-ão de colocar no nosso caminho quem nos faça felizes também, pois todos queremos sorrir e gostar de viver, ser amados e correspondidos, claro.
Ouvi numa conferência sobre o matrimónio que um dos problemas de fundo de tanta crise está em que hoje nos casamos, ou nos empregamos, para sermos felizes e isto é uma maneira contrária de colocar a questão. Deveríamos partir para as opções fundamentais querendo dar felicidade ao cônjuge, à paróquia, ao cliente, ao aluno, ao filho e saber que quem dá recebe, já dizia o Evangelho, cem vezes mais.
Quando sabemos que vamos ter um trabalho que nos colocará diante de pessoas que nos solicitarão muito, respiramos fundo, deixamos as mágoas e revoltas do lado de fora e damo-nos. Veremos muitas vezes que, quando a tarefa terminar, o problema sumiu. O irmão ficou contente e servido, o meu coração mais leve, e Deus glorificado.
Vitor Espadilha
