Atualidade de uma questão encerrada

Fragilidade do político, Força do religioso
Piaget
223 páginas
16 euros

 

Paul Valadier, jesuíta e filósofo, regressa a um tema que lhe é caro: a relação entre político e religioso. Uma leitura apressada fará supor que afasta a velha separação dos “dois gládios”; bem pelo contrário. O autor recorre à expressão “político-teológico”, aparentemente, por preterir a eufonia ao valor simbólico da justaposição: “a resposta à “questão encerrada” é dada pelo hífen”, signo desse espaço de síntese da tensão dialética entre os dois elementos; se quisermos, o reino de Atenas e Jerusalém.

Empenhado em analisar a história de como se pensou esta relação, Valadier parece também interessado em propor uma “teologia política”. Os riscos da empreitada são conhecidos: ou acabar inadvertidamente por legitimar uma forma especial de autorictas (como fez Schmitt); ou cair num espécie de arqueologia dos conceitos que não passa de turismo intelectual (como faz Agamben); ou, o mais frequente, acabar por apresentar um livro de reclamações, merecedor do magnífico título de Grozs: “Um pequeno sim e um grande não”. No caso, o autor aproxima-se do último cenário quando se afasta mais da sua área de conforto (Nietzsche e modernidade) ficando ainda assim, uma lição magistral com momentos de uma lucidez e uma erudição impressionantes.

Comecemos pelo desconforto. O percurso pela história do pensamento político (sobre o religioso, e depois vista pelo religioso) começa precisamente com uma breve genealogia da tentativa de resolver a questão, negando-a: a sociedade política livre de quaisquer referências externas de Espinoza; a conceção do Estado como última ratio do poder em Hobbes; a defesa radical da liberdade de consciência em Bayle. Em todos os casos, apenas declarado em Bayle, há uma categoria ou um conceito que cumpre uma função de hipostasia ou “ersatz” (substituto) do religioso, quando não do divino. Para prevenir abusos (eventuais) da esfera religiosa, legitima-se um abuso (certo) da esfera política.

Os capítulos seguintes levam-nos por uma série de teses políticas ou filosóficas sobre a religião, a que Valadier junta a sua crítica. Nalguns casos, como no fragmento sobre o “fracasso do cosmopolitismo”, o alvo parece definido em termos convenientemente caricaturais, como “strawman”. A crítica é inegavelmente justa, mas é difícil encontrar quem defenda mesmo o que é criticado. Assim, por exemplo, as ambições do federalismo europeu cabem na mesma categoria sem distinção que o internacionalismo de Kant, a esquerda francesa ou, de modo geral, o “otimismo”. Na mesma linha segue a denúncia do “endeusamento do Estado”, pela qual ficamos a saber coisas de que nunca suspeitámos menos, ditas com a clareza de quem expõe factos conhecidos e nunca negados. O depoimento é notável sobretudo pela omissão de qualquer referência ao movimento de crescente debilidade das estruturas políticas de carácter gregário.

Chegado aos temas do Mal contra a ingenuidade histérica do pós-11 de setembro, responde com a riqueza da tradição filosófica e religiosa do ocidente. Mas é no diálogo com o nosso tempo que Valadier nos oferece as suas melhores páginas. Num estilo a lembrar Barthes, lança-se ao mito prosaico do “debate público” (por norma “alargado”) que traz implícita a ideia de que não existem incompatibilidades irredutíveis, e leva a uma de duas tomadas de posição sobre o problema do mal: ou ver, com Habermas, na racionalidade “dialógica” a profilaxia de todo o mal ou, com Jullien recusar, por influência new age da filosofia chinesa, a distinção entre bem e mal, sob o pretexto da funcionalidade.

O acrescento cristão seria outro: abstenção de denúncia do mal em geral, ou como coisa exterior, seguida de constante vigilância. A consciência do mal, do carácter benéfico de uma distinção entre bem e mal faz sair da ilusão de um mundo inocente ou puramente funcional; não faz do mal uma obsessão – só o denuncia “sob os auspícios da salvação”, em função de um Bem e evita uma conceção da vida como “via dolorosa”.

Desta e doutras formas, se vai demonstrando como a velha questão permanece aberta. Se, a uma certa inflexibilidade dogmática e autossuficiência do laicismo republicano, responde uma teologia autolimitada pela insistência de alguns no carácter não apreensível do Reino sobre a História, todos perdemos. E não será por falta de aviso.

António Ramos Pereira