Bispo de Aveiro denuncia mentiras com aparência de verdade

Na Missa de Ano Novo “Muitos não querem uma verdade objectiva, porque isso perturba os seus interesses, e defendem a verdade como aquilo que a cada um convém em cada momento. Assim, podem ser verdade a injustiça e a mentira”, disse D. António Marcelino na missa da Ano Novo, no domingo à tarde, na Sé de Aveiro.

Aproximando à realidade portuguesa e aveirense a mensagem de Bento XVI para o dia 1 de Janeiro de 2006, “Na verdade, a Paz” (ver Correio do Vouga de 21 de Dezembro de 2005), o Bispo de Aveiro denunciou “a mentira nas relações de todos os dias”, que “torna insuportável a vida em comum” e “a mentira da sociedade”, que “entra nas famílias, nos lugares de trabalho, nas relações dos políticos, na convivência das pessoas”. “Ninguém que preze a sua dignidade se pode dobrar perante a mentira que se dissemina disfarçada de liberdade, de afirmação pessoal, de direito conquistado”, disse.

As palavras foram dirigidas, é claro, a todos os “cristãos conscientes”, que “não podem pactuar com a mentira que destrói a vida de tanta gente, mas têm de se empenhar, com outros de igual ideal, para defender a verdade que gera a paz”, mas visaram várias vezes a classe política. O Bispo de Aveiro referiu-se à “presente campanha eleitoral” e aos “acontecimentos políticos e sociais que se vão sucedendo cada dia”, e que abalam a “convivência democrática, respeitosa e sadia”, e, no momento da “oração dos fiéis”, lembrou os políticos, para que atendam ao bem comum de todos os cidadãos e não apenas a interesses particulares, pedindo ainda a bênção de Maria, Mãe de Deus, para que “Portugal não se desvie da sua tradição cristã”. No final da celebração, D. António Marcelino insistiu ainda na presença dos valores de Deus na sociedade humana, “porque são para bem de todos”, e criticou os cristãos que de alguma forma preferem ficar calados a denunciar o apagamento dos valores cristãos.

“A paz há-de encontrar-se na verdade das nossas vidas, dos nossos planos, da realização dos objectivos que nos são comuns… Verdade das pessoas, das instituições, das famílias, dos contratos de trabalho, da vida política, da convivência diária…

A verdade é a forma interior que liberta de interesses que provêm de injustiças ou a elas conduzem, de preconceitos que se traduzem por cegueira voluntária, de conflitos constantes entre pessoas e grupos que não reconhecem aos outros os mesmos direitos que defendem para si próprios.

A verdade é a luz da inteligência que leva esta à procura do bem e nesse sentido orienta e impulsiona a vontade humana.

A verdade é dom de Deus para quem n’Ele crê e beneficia, por isso, do amor que gera a justiça e solidariedade, paz e fraternidade humana”.

D. António Marcelino, na Sé de Aveiro, no dia 1 de Janeiro de 2006