Por opção, foram sem-abrigo durante vários anos em grandes cidades francesas e belgas Michel Collard e Colette Gam-biez vão estar no Centro Universitário Fé e Cultura, amanhã, 2 de Março, às 21h30, para falar da sua experiência com os sem-abrigo. Num encontro aberto a todos os interessados, o casal francês partilhará a experiência de vários anos a viver com os sem-abrigo de grandes cidades francesas e belgas como Paris, Bruxelas, Lille, Rouen, Liège e Amiens.
Michel Collard, desde 1983 que se dedica aos sem-abrigo, primeiro dentro da Ordem Franciscana e depois, a partir de 1992, com a en-fermeira Colette Gambiez, que entretanto se tornou sua mulher. As vivências do casal francês estão parcialmente relatadas no livro “Quando o excluído se torna o eleito. Vida partilhada com os sem-abrigo”, originalmente publicado em 1998 e traduzido em português em 2005 (o Correio do Vouga apresentou este livro na edição de 2 de Novembro do ano passado).
Um caminho de humanidade
A leitura de “Quando o excluído…” não deixa ninguém insensível, embora não seja uma reportagem jornalística com a pretensão de abanar com o leitor. Um jornalista que tivesse passado pelos ambientes e situações que o casal enfrentou teria feito um super-sucesso. Ora, em Collard e Gambiez nota-se uma certa contenção. Com o seu relato não pretendem chocar. Pretendem transformar. Ou, se calhar, nem isso. Pretendem mudar a nossa visão dos sem-abrigo, aqueles que ocupam o último patamar da escala social, porque tudo falhou: a família, o Estado, a comunidade, enfim, o próprio.
O casal juntou-se aos sem-abrigo não para os ajudar, como é costume fazer, mas para ser como eles, fazer com eles um caminho de humanidade – e impossível é não ver neste gesto uma imitação da encarnação de Deus na humanidade. E assim viveu o casal, de prédio em prédio abandonado, de asilo em asilo, de cidade em cidade, de estação em estação, à chuva e ao frio, a comer restos de restaurantes ou de caixotes do lixo, travando conhecimentos com sem-abrigo que – não adianta idealizar – são sujos (“dá mais resultado a pedir esmola”), cheiram mal, têm doenças, são desconfiados e ainda são capazes de dizer ao casal que “vocês andam limpos”, logo não são verdadeiros sem-abrigo.
Michel Collard e Colette Gambiez estão em Portugal há uma semana e visitaram as dioceses de Lisboa, Setúbal e Porto. Em Aveiro, antes do encontro da noite de quinta-feira, são recebidos pelo Diác. José Alves, presidente da Cáritas Diocesana, e pelo Pe João Gonçalves, vigário da Pastoral Social; e têm um encontro programado com o vereador da Acção Social da Câmara Municipal de Aveiro, Capão Filipe. Na cidade dos canais, o casal visitará os locais mais frequentados pelos sem-abrigo e jantará com sem-abrigo no Centro de Alojamento Temporário da Cáritas Diocesana.
“Prelúdio da condição humana liberta de todos os entraves”
O problema dos sem-abrigo talvez não seja uma questão de generosidade individual. Há “estruturas de pecado”, como disse João Paulo II. Há uma sociedade que não evita que algumas pessoas se afundem na miséria. Por isso, a aproximação voluntária do casal, que não exclui ou nega outras formas de caridade, não é, nem pretende ser, solução para o problema. O que é, então? Para quê ouvir o casal, amanhã, no Centro Universitário? Numa das últimas páginas do livro, surge o que poderá ser uma resposta, o sentido desta experiência singular: “Há várias formas de viver o encontro com o pobre e de o tratar com fraternidade. A nossa consiste actualmente em partilhar a vida com os sofredores da rua, colocando-nos ao nível dos mais pobres. Surgem então deslumbramentos de grande ternura, momentos de uma densidade humana comovedora, como se o sofrimento, pelo despojamento que provoca, nos transportasse para lá de tudo o que é humano, fazendo-nos entrar numa espécie de transfiguração e de beatificação, prelúdio da condição humana liberta de todos os entraves”.
