“Com 15 dias de meditação, a nossa vida muda”

Assembleia atentíssima ao padre espanhol
Assembleia atentíssima ao padre espanhol

Pablo d’Ors, padre e escritor, criador da rede de meditadores “Amigos del Desierto”, falou de silêncio e meditação. A rede poderá em breve estender-se a Aveiro.

 

“Desde que escrevi o livro sobre o silêncio, nunca mais parei de falar”, afirmou Pablo d’Ors no início da palestra que em Aveiro, na noite de 26 de outubro, provocando uma gargalhada nas duas centenas de pessoas que foram ao Seminário de Santa Joana para ouvir as suas reflexões e experiências sobre silêncio e meditação. O padre e escritor espanhol esteve em Aveiro para dar a palestra (em espanhol) e orientar, na manhã de 27 de outubro, um workshop – “un taller” – para cerca de quatro dezenas de pessoas. Poderá voltar dentro de meses, de acordo com o P.e João Alves, que promoveu as iniciativas, para orientar um retiro de fim de semana, algo mais exigente e profundo, como faz em Espanha com os “Amigos del desierto”.
Na palestra, respondeu a três questões: Para quê meditar? Como meditar? O que sucede quando medito? Antes, esclareceu que silêncio e palavra não se opõem. “São duas caras da mesma moeda”. O oposto do silêncio não é a palavra, que, “tem mais sentido quando precedida e sucedida pelo silêncio”. O contrário do silêncio é o ruído. E o ruído pode chegar de muitas formas. Quando a certa altura se ouviu um toque de telemóvel no meio da audiência, explicou que nos seus retiros há quatro regras para fazer silêncio e nem todas são “estar calado”. Aliás, só a primeira é: “Não falar”. As outras podem não ter som, mas não deixam fazer silêncio: “«Não gesticular»; «não ler», mesmo se alguns identificam vida interior com leitura; e «ter o telemóvel desligado», porque há pessoas que estão permanentemente ligadas ao que está fora”, mesmo que não atendam o telemóvel. Há sms, redes sociais, mails… E tudo corrói o silêncio.

Eu-outros-Deus
Para quê meditar, então? Em primeiro lugar, “para nos conhecermos a nós mesmos”. A meditação é a “maneira mais direta, radical, salutar de cada um se conhecer a si mesmo”, disse. Na meditação, “cai o espelho [em que nos refletimos] e aparece a janela para descobrirmos a verdadeira identidade”. Mas não se fica por aí. O descobrimento da identidade leva ao amor a si mesmo. E, finalmente, “quando nos amamos, podemos amar aos outros”. Este amor aos outros passa também pelo reconhecimento da dependência, pelo deixar-se amar. “O mais duro da doença não é a dor, é sentir-se dependente dos outros. Isto é o que nos custa mais porque somos educados para sermos independentes. Daí que deixar-se amar é deixar que os outros sejam dom”. Meditar é “saber voltar a casa”. E medita-se “para viver”. “Não meditamos para sermos melhores, meditamos para sermos nós mesmos, para sentir algo do mistério”. Quando a meditação acontece, “intuímos algo do mistério da vida, algo a que os crentes chamam Deus”. Mas “Deus” não pode estar distante da vida. Não é uma ideia. “Qualquer afirmação de Deus que não parte da vida é ideologia. Não alimenta a alma. Pode alimentar a cabeça. Mas estamos fartos de pessoas com a cabeça grande. Precisamos de que nos dê vida. Pessoa culta é quem dá culto à vida. Se nos damos ao outros, cultivamo-nos”, afirmou.
No “como” da meditação entra o silêncio. Há muitas maneiras de fazer silêncio interior, algumas do extremo oriente (zen, yoga), outras orientais (ortodoxas, Padres do Deserto) e ocidentais (tradição monástica beneditina, carmelita, cartuxa…), ambas cristãs. Pablo d’Ors recupera a tradição dos “padres e madres do deserto”, dos cristãos que viveram no século II, III e IV, nos desertos do Médio Oriente. “Temos [na tradição cristã] recursos mais do que suficientes”, realçou.

Como ser infeliz
Para meditar, depois do silêncio exterior, são precisas três condições: respiração consciente, sentir o coração (o que pode acontecer na palmas das mãos postas na posição tradicional de oração ao nível do coração) e uso de uma palavra, mantra ou jaculatória. Com as mãos postas, “o que procuramos é unificar. O corpo indica à alma o que fazer”, referiu. O mantra é um instrumento para trabalhar a mente, “uma palavra que atua como vassoura, que varre todas as outras”. E sugeriu dois exercícios que todos podem fazer com mantras. “Experimentem dizer trezentas vezes por dia «sou um desgraçado» [“desgraciado” também se pode traduzir por “infeliz”]”. A assembleia percebeu que ninguém ficará lá muito bem ao fim de um dia a repetir tal expressão. “Mas experimentem dizer trezentas vezes por dia «sou uma pessoa maravilhosa». Sorrisos na assembleia. E Pablo d’Ors concluiu: “Significa que somos responsáveis pelo nosso bem-estar emocional numa medida maior do que pensamos”. Daí que, no confessionário, o padre possa sugerir a algumas pessoas, como penitência, que digam uma centena de vezes: “Sou uma maravilhosa”.
Nas suas sessões, Pablo d’Ors usa, como revelou, três jaculatórias: “Sim”, “Marana tá [expressão hebraica para “Vem, Senhor”] e “Cristo Jesus”, esta última dita ao ritmo dos movimentos respiratórios.
E o que acontece quando se medita? “Com 15 dias de meditação, a nossa vida muda”, assegurou. “Se não for assim, chamem-me e eu devolvo o dinheiro”, gracejou, porque “a meditação interior tem de ser grátis. Se não for [e há quem pague bem para ter cursos de meditação], não é eficaz.
Interrogado sobre as dificuldades de quem já tentou meditar e não conseguiu, Pablo d’Ors deixou dois conselhos para que os resultados apareçam: Constância, isto é, esforço diário de 15 minutos; e “humildade para seguir o método proposto”, o que é o mesmo que dizer “não inventar”.

Jorge Pires Ferreira

 

“Uma biografia do silêncio”
Entre romances e ensaios, Pablo d’Ors é autor de “Uma biografia do silêncio” (publicado em Portugal pela editora Paulinas), livro que em Espanha já vendeu mais de cem mil exemplares e veio mostrar que há pessoas sedentas de silêncio, meditação, profundidade, quietude, contra o ruído, a pressa, o excesso de comunicação sem valor, a dispersão interior e exterior. O livro é composto por pequenos textos que mostram como o padre que já foi missionário e capelão hospitalar fez um caminho de busca interior, de “silenciamento interior”. “Por ser tão íntimo e tão pessoal, muitas pessoas reveem-se nele”, disse ao Correio do Vouga numa entrevista que será publicada na próxima semana. “Tornou-se universal por sem tão íntimo e pessoal. Todos somos diferentes, mas temos uma base comum”, disse.

 

Doença do ativismo
Respondendo a uma pergunta da assembleia, onde estava o Bispo de Aveiro, Pablo d’Ors deixou algumas observações que podem constituir crítica ao agir da Igreja. “Se não vivermos interioridade, dificilmente os jovens virão [à igreja]. As pessoas querem luz e calor. Se estamos iluminados, elas virão. Não interessa que as pessoas venham à igreja, mas que sejam felizes”, disse, alertando para o “mito da ação”, que consiste em fazer muitas coisas para transformar o mundo, quando o que movia Jesus Cristo “não era a ação, mas a paixão”. O ativismo pode ser “uma doença”.