Na cozinha com os santos. Receitas do Céu e da Terra
Andre Ciucci e Paolo Sartor
Paulus
160 páginas
16,90
A gastronomia está na moda. São vários os concursos de televisão sobre culinária. São muitos os programas que ensinam novas receitas. E há até uns poucos canais que emitem 24 horas por dia sobre comida. E no Facebook, já se sabe, são imensos os que de vez em quando põem uma fotografia do que vão comer. Faltava, no entanto, um livro que dissesse o que os santos gostam de comer.
Os autores deste livro observam que “a mesa dos santos está muitas vezes marcada por corajosas experiências de sobriedade e de jejum”, não porque o “alimento seja um mal que se deva evitar”, mas porque não é um bem supremo. Mas, em abono da comida, podemos realçar que o cristianismo é a única religião sem proibições alimentares. E, por outro lado, o fundador da nossa fé comia com todos, mesmo com algumas pessoas tidas por pouco recomendáveis. A partilha da mesa tornou-se sinal do acolhimento divino e da fraternidade humana. Para cúmulo, Jesus quis que uma refeição fosse o gesto da sua presença na humanidade. Desde então, para os crentes, a mais simples das refeições pode remeter sempre para o maior dos banquetes, aquele a que o próprio Jesus preside.
“Comer” não é apenas um ato biológico. É um ato cultural, económico, social (convivial) e até teológico.
E de que gostam ao santos, afinal? Santa Maria Goretti gostava de esparguete de alho e cebola. José Maria Escrivá apreciava espinafres fritos com ovo. São Columbano deliciava-se com fogaça de alcaparras e cebolas. São Bernardo, vegetariano, comia sopa com folhas de faia. Santa Hildegarda, na Idade Média, aconselhava biscoitos de amêndoa para aclamar “a amargura do teu coração e dos teus pensamentos” e louvava o creme de urtigas. “Às vezes o que pica pode ser bom e salutar”, escrevem os autores. Deve ser isto o “comer como uma abadessa”. Francisco de Assis “adorava” quiche de camarão e caretos de jacopa (uma espécie de biscoitos). Não vem neste livro, mas consta que o santo que deu o nome ao atual Papa, certa noite, acordou toda a sua comunidade e mandou os frades fazerem um banquete. É que um deles queixava-se que não aguentava tanta fome. Comendo a comunidade toda, o mais frágil já não se sentia indigno. São Domingos lambia os lábios por umas enguias na grelha. E São Filipe de Neri não resistia a almôndegas de ovos e queijo. A lista poderia continuar.
Em cada par de páginas temos a receita da comida preferida do santo (ou antes, referenciada em algum dos seus escritos), uma breve biografia, uma ou outra frase do próprio santo e, por vezes, uma nota sobre os seus hábitos alimentares. Hábitos nem sempre aconselháveis à luz da medicina, embora se fale cada vez mais das vantagens do jejum e da abstinência para a saúde, em certos contextos. O beato Serafim de Morazzone, “como exercício de mortificação, punha cinzas em vez de sal [na carne]”. E o Cura d’Ars cozia um pote de batatas para toda a semana. Quando num dia comia a terceira, já se sentia a ceder à tentação.
J.P.F.

