Questões Sociais 1. As Conferências Vicentinas são grupos de voluntariado social profundamente enraizado na sociedade portuguesa desde meados do século XIX. E a Sociedade de S. Vicente de Paulo (SSVP), em que elas se integram, constitui uma das maiores organizações de voluntariado social, tanto no nosso país como à escala mundial.
Uma parte da opinião pública dominante olha para as Conferências Vicentinas com certa sobranceria, desde longa data: entende que os seus membros são, fundamentalmente, pessoas idosas, tradicionalistas, que praticam assistencialismo social ultrapassado e imbuído de pietismo de sacristia.
2. Ao contrário, porém, desta imagem deturpada, a SSVP foi marcada, no seu início, por jovens progressistas. O seu fundador — Frederico Ozanam, já beatificado — era professor universitário de Direito, e as suas ideias sociais apelavam à transfor-mação política em profundidade a favor da justiça social.
A SSVP foi concebida como associação particular de fiéis, com uma “regra” própria na qual se previa a eleição dos seus dirigentes. Mais de um século antes do Concílio Vaticano II, F. Ozanam intuiu e praticou uma concepção de laicado que, ainda hoje, está na dianteira das organizações de leigos.
3. Naturalmente, aconteceu o fenómeno do envelhecimento, acompanhado, em maior ou menor grau, pelo rejuvenescimento possível. E, também naturalmente, acabou por prevalecer a acção assistencial na prática diária das Conferências Vicentinas.
Mas, por outro lado, a prática assistencial só é negativa quando constitui obstáculo à promoção humana e ao desenvolvimento social. E tanto a promoção como o desenvolvimento exigem condições que ultrapassam de longe os meios de acção da SSVP, bem como de qualquer outra instituição particular; eles requerem a participação de toda a sociedade civil e do Estado.
Bem vistas as coisas, pode afirmar-se que a acção social da SSVP é predominantemente assistencial, não porque ela o deseje, mas porque é forçada a isso devido à falta de condições para ir mais longe. E a sociedade civil envolvente, que a acusa de assistencialista, é precisamente a mesma que (directamente ou através do Estado) não cria condições para que tudo seja diferente.
4. Entretanto, a assistência social inclui dimensões positivas que são necessárias em qualquer contexto, qualquer que seja o grau e o tipo de promoção humana e de desenvolvimento social. Por exemplo: a assistência social entendida como acompanhamento de outrem e como prestação de ajuda imediata, enquanto não surgem soluções mais consistentes, nunca poderá ser dispensada enquanto a humanidade for… humana.
É neste domínio que as Conferências Vicentinas têm um longo e fecundo historial, exemplar em muitos casos.
