Cristãos não testemunham a sua fé na vida económica, social e política

Comissão Nacional Justiça e Paz denuncia desigualdades e exclusão social, enquanto defende um mundo mais justo e solidário

É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais”, denuncia a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), em Carta dirigida aos cristãos e tornada pública na semana passada. Nela, convida-nos a lançar “Um outro olhar sobre as desigualdades e a exclusão social” e propõe-nos que aceitemos “Um outro compromisso com um mundo mais justo e solidário”.

O documento denuncia, com oportunidade e com firmeza, que “há cristãos em todos os sectores da vida económica, social e política sem que se observem sinais que testemunhem as suas referências cristãs”, ao mesmo tempo que nas nossas co-munidades poucas interpelações há “em ordem à construção da justiça e da paz”.

No entanto, as suas denúncias não se ficam por aqui e continuam a respeito dos mais diversificados sectores da vida, sempre na defesa dos mais desprotegidos da nossa sociedade. Diz que os níveis de salário mínimo e de pensão mínima estão, o primeiro, “muito próximo do limiar da pobreza” e, o segundo, “Abaixo desse limiar”, o que não permite aos pensionistas fazer face a despesas avultadas com a saúde.

A CNJP diz que é preocupante o aumento do desemprego, que afecta mais de 400 mil pessoas, “das quais boa parte [está] sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar emprego, a curto e a médio prazo”, e afiança que as exigências profissionais, cada vez mais absorventes, geram “situações stressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar”.

Por outro lado, aquela organização ligada à Igreja Católica lembra que os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação e de saúde, entre outros, “longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos”. E isto, com o agravante de se alegar falta de recursos do Estado, enquanto têm sido feitos investimentos públicos “em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população”.

“É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza”, refere a CNJP, para logo frisar que há em Portugal “falta de alimento e de habitação condigna, dificuldades no acesso à educação e à saúde, insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna”.

Aquela organização critica o processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, “designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação”, e alerta para a hipótese de tudo isto poder configurar cenários “de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos”.

Ao ler a realidade segundo o olhar de Jesus Cristo, a CNJP salienta que existe na população portuguesa uma fraca sensibilização à pobreza, à desigualdade e à exclusão, “ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidadãos” e aceites como “uma espécie de marca de destino”, pelo que é tempo de insistir junto dos portugueses, e dos cristãos em particular, sobre a necessidade que todos temos de “um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes”. A não ser assim, fica comprometida a coesão social, havendo uma ameaça à paz, acrescenta.

Por outro lado, está preocupada com a gestão danosa das empresas, não sancionadas, por vezes, “a par de elevados proveitos dos seus gestores”, e denuncia o encerramento das mesmas, “à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos”.

A Carta da CNJP aconselha os cristãos a serem “sal da terra e luz do mundo”, não se conformando com situações de injustiça “que contradizem os critérios e os valores do Evangelho”.

F.M.