
D. Filipe Ximenes Belo lança no dia 14 de março o primeiro volume da obra “História da Igreja em Timor-Leste – 450 Anos de Evangelização (1562-2012)”. A sessão de lançamento tem lugar na Fundação Eng. António de Almeida (Rua Tenente Valadim, n.º 325), no Porto, pelas 16h, sendo presidida por Jorge Sampaio. A apresentação do livro estará a cargo de Manuel Braga da Cruz e Luís Filipe Thomaz. Por correio eletrónico, D. Ximenes Belo respondeu a algumas perguntas do Correio do Vouga.
Correio do Vouga – De que consta este primeiro volume da “História da Igreja em Timor-Leste”?
D. Carlos Ximenes Belo – Antes de responder às perguntas do CV, gostaria de saudar os senhores diretores do jornal e todos os seus leitores que seguem com carinho a situação em Timor-Leste.
Este primeiro volume (1562-1940) consta, essencialmente, de duas partes: I Parte: História civil (breve) e II Parte: História religiosa. Esta II Parte cobre o tempo de missionação que vai do século XVII (1562), até século XX (1940). Abrange quatro períodos: I Período: O período dos Dominicanos no Arquipélago das Flores (Indonésia); II Período: A Missionação na Ilha de Timor (1590-1834); III-Período: As Missões de Timor sob a jurisdição da Arquidiocese de Goa (1834-1875); IV – Período- A Restauração das Missões (1875-1940).
Para quando prevê a publicação dos restantes?
O segundo volume (1940 a 2012), possivelmente, sairá no próximo ano, isto é, em 2015, quando a Diocese de Díli celebrar os 75 anos da sua ereção canónica. Os outros dois volumes estão na fase de “escritura”.

No seu trabalho, julgamos, tudo é novo – ou já havia investigações sobre a Evangelização de Timor-Leste?
Nem tudo é novo. No século XX, houve historiadores que se debruçaram sobre Timor. Cito alguns nomes: Padre Artur Basílio de Sá, que publicou 5 volumes da obra “Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente-Insulindia (1954-1958); Padre Manuel Teixeira, autor do “Macau e a sua Diocese, X Volume, História das Missões de Timor” (1974); Padre Cândido da Silva Teixeira; autor do “O Colégio das Missões Ultramarinas”, Cernache do Bonjardim (1905); Comandante Humberto Leitão: “Vinte e Oito Anos de Historia de Timor” (1952); Alberto Faria de Morais, “Subsídio para a História de Timor” (1934). Mas nunca se escreveu um livro unitário e sistemático sobre a obra da missionação naquele território. Este meu livro,”História da Igreja em Timor-Leste”, posso considerá-lo como uma primeira tentativa de uma “narração cronológica, sistemática e fidedigna”.
Qual a maior descoberta que fez?
Foi uma novidade agradável descobrir a ação de dois aveirenses notáveis: Dom Frei Jorge de Santa Luzia, Bispo de Malaca e Dom frei Miguel Rangel, mais tarde, Bispo de Cochim; a outra diz respeitos à missionação desenvolvida pelos dominicanos na segunda metade do século XVII.
E qual a maior dificuldade com que se deparou ou depara?
Foram muitas as dificuldades. Desde logo, as viagens a Roma, a Macau, a Lisboa, para consultar os arquivos e ver os manuscritos ou obras originais. Em Roma, da Casa generalícia dos Padre Dominicanos, voltei com a mão vazia. Não havia nenhum documento sobre a presença dos dominicanos em Goa, Macau e Timor, nos séculos XVI; XVII e XVIII. Apenas um pequeno episódio de outro tipo de dificuldades: só comecei a aprender a escrever no computador em 2006. E quando comecei a escrever os primeiros capítulos, um dia, aconteceu que apertando num botão, desapareceram 180 páginas. Chamaram-se os técnicos e não houve maneira de recuperar. Tiver de recorrer à minha fraca memória e tornar a escrever.
Recorrendo ao livros do Padre Manuel Teixeira, historiador de Macau, muitas vezes era difícil confirmar os factos ou os nomes, porque ele raras vezes citava as fontes. Outra dificuldade foi ler os documentos no “Português antigo”…
Como começou a evangelização de Timor-Leste? Quais foram os primeiros passos?
Começou como começou a obra da evangelização naquela parte do mundo. Imagino que foi difícil a ação dos primeiros missionários: a distância entre Portugal e Timor; viagens que duravam meses, de Goa a Macau e, de Macau a Timor. Os missionários viviam em palhotas, viajavam a pé, ou de cavalo ou nas barcaças. Geralmente, quando chegavam a um reino, começavam por converter os chefes indígenas (régulos) e depois convertiam o povo. Depois de ter obtido a autorização do régulo, levantavam a capela ou igreja (de bambu e colmo), a escola, e ensinavam a doutrina ao povo.
Pensando mais nos tempos atuais: A Igreja tem falado da nova evangelização. Por vezes pensamos que se aplica principalmente nos países da velha cristandade. Aplica-se igualmente a Timor-Leste?
A obra da evangelização nunca é uma obra acabada. É preciso recomeçar, renovar e inventar novos métodos e novos modelos. Por isso, na Diocese de Díli, e nas outras duas, Baucau e Maliana, também se fala da “reevangelização” das famílias, dos jovens e dos leigos.
