Daniel Faria

Dias Positivos Amo-te como um planeta em rotação difusa/ E quero parar como o servo colado ao chão./ Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito/ Vasilha que ergues em tua mão de oleiro/ Cálice que não pudeste afastar de ti.

Daniel Faria, in Do inesgotável

Primeiro foram uns versos dispersos, citados num jornal. A seguir, uma partilha de amigos: “Posso ler-te este poema?” Depois, a procura de mais poemas, de livros e da biografia do poeta. E eis a surpresa: um novo autor, com uma obra extraordinária, luminosa e completa. Completa porque o autor morreu em 1999, com apenas 28 anos.

O meu projecto de morrer é o meu ofício/ Esperar é um modo de chegares/ Em modo de te amar dentro do tempo.

in Do inexplicável

Daniel Faria nasceu em Baltar, Paredes, em 1971. Desde pequeno desejou ser padre e frequentou os seminário do Porto, para ser padre diocesano. No entanto, em 1997 decidiu seguir a vida monástica, sendo postulante no Mosteiro Beneditino de S. Bento da Vitória e noviço no Mosteiro de Singeverga. Morreu no dia 9 de Junho de 1999, na sequência de uma queda no mosteiro. Dizem os que com ele privaram que passava o tempo a ler e a escrever, o que explica a obra longa na vida breve. Daniel Faria é considerado um dos maiores poetas portugueses do final do século.

Homens que são como lugares mal situados/ Homens que são como casas saqueadas/ Que são como sítios fora dos mapas/ Como pedras fora do chão/ Como crianças órfãs/ Homens agitados sem bússola onde repousem

In Homens que são somo lugares mal situados

Embora muitos outros aspectos da sua poesia possam ser sublinhados, destaco a religiosidade (carácter místico?), ora explícita, ora discreta, mas sempre profunda, sem nunca cair em banalidades ou lugares comuns – o que é a maior tentação quando falamos do Absoluto. Alguns episódios da Bíblia são por ele iluminados de uma forma sublime, como neste poema sobre Zaqueu:

A árvore foi a forma de te ver/ E desci para abrir a casa./ De me teres visitado e avistado/ Entre os ramos/ Fizeste-me passagem/ Da folha ao voo do pássaro/ Do sol à doçura do fruto./ Para me encontrares me deste/ A pequenez.

In Se fores pelo centro de ti mesmo

A obra de Daniel Faria, anteriormente dispersa, está publicada nas edições Quasi. Para conhecer melhor o autor, pode-se consultar o site www.danielfaria.org

Para terminar, e numa estranha coincidência que me faz escrever este texto no dia da morte de Sophia de Mello Breyner Andresen (2 de Julho de 2004), deixo as palavras que a grande poetisa escreveu sobre o jovem poeta:

“Agora está morto e relembro claramente o corte da dor que me anunciou a sua morte. Era um poeta muito mais novo do que eu por isso muitas vezes fala uma linguagem desconhecida, mas a densidade dos seus poemas como uma aparição súbita mostra aqueles fragmentos que a nossa alma relembrará” (in Legenda para uma casa habitada).