No dia 29 de Novembro faleceu Daniel Rodrigues, o primeiro jornalista profissional em Aveiro e o primeiro a abrir uma delegação de um jornal diário, de âmbito nacional, na cidade, “O Comércio do Porto”. Daniel Rodrigues dirigiu-a até 1999.
Natural de Ariz (1931), no concelho de Moimenta da Beira, conterrâneo de Aquilino Ribeiro, escritor por quem nutria uma grande admiração e que imortalizou as “Terras do Demo” das serranias da Lapa, de que ambos foram “embaixadores”. Tal como o rio Vouga, que nasce no alto da Lapa, e que depois de várias peripécias desagua em Aveiro, também Daniel Rodrigues veio da Lapa, passou por várias localidades, de Beja a S. João da Madeira, mas foi na cidade de Aveiro que desaguou toda a sua torrente de jornalista empenhado em grandes causas… que muitas vezes eram o sem abrigo ou o cigano anónimo.
O percurso que levaria Daniel Rodrigues até Aveiro começou aos 23 anos de idade, quando cumpriu serviço militar em Lisboa, ingressando depois no Seminário de Beja, que deixou para iniciar uma carreira na área da Justiça, como funcionário judicial em S. João da Madeira e depois em Aveiro, cidade onde fixou residência e constituiu família. Tornou-se incondicional defensor da cidade da Ria.
Até 1969, ano em que abriu a delegação de Aveiro de “O Comércio do Porto”, Daniel Rodrigues colaborou com outros jornais, nomeadamente o “Diário de Coimbra”, do qual foi o primeiro correspondente na cidade, e o “Século”. Ainda na imprensa de âmbito nacional, deixou escritos em vários diários, com destaque para o “Diário Popular”, que chegou a ter delegação em Aveiro, e a “Capital”. A imprensa regional mereceu-lhe sempre um enorme respeito, tendo colaborado em diversos jornais, como O Correio do Vouga, de que foi director-adjunto entre 1993 e 2004.
Nas três décadas em que dirigiu os destinos de “O Comércio do Porto” em Aveiro, Daniel Rodrigues foi um legítimo par de José Estevão e de Homem Cristo na defesa do aveirismo, estando presente em todos os grandes acontecimentos ocorridos na cidade, no concelho e no distrito, tendo aberto as portas do “seu” jornal a Mário Sacramento e outros aveirenses pouco tolerados pelo regime do Estado Novo. Nos anos conturbados do pós-25 de Abril, esteve na primeira linha da frente na defesa das liberdades.
Carta de João Paulo II
Nos finais do século XX, apesar da vida agitada que a carreira jornalística impunha, Daniel Rodrigues ainda ganhou tempo para retomar o sonho iniciado no Seminário de Beja, sendo um dos primeiros diáconos permanentes da Diocese de Aveiro, tornando-se um “jornalista apóstolo” na defesa dos mais carenciados e dos “sem voz”, como os presos, os ciganos e os sem-abrigo, ao mesmo tempo que fez reportagem em grandes eventos religiosos, de Roma a Cuba, o que lhe valeu receber uma carta pessoal do Papa João Paulo II.
Cardoso Ferreira
“Mestre” da reportagem
Na década de 1980, as reportagens de Daniel Rodrigues em “O Comércio do Porto”, sobretudo as realizadas na Serra da Freita, abriram a minha curiosidade para a reportagem jornalística, o mais nobre género do jornalismo e do qual é a sua própria essência.
Por isso, foi com um misto de orgulho e receio que aceitei o convite que Daniel Rodrigues me lançou, em 1990, para trabalhar aos fins-de-semana na Delegação de Aveiro de “O Comércio do Porto”. Mais do que qualquer universidade ou curso superior poderia ensinar sobre como fazer (verdadeira) reportagem no terreno, foi com o “mestre” Daniel Rodrigues que aprendi a ir ao local, falar “olhos nos olhos”com os intervenientes, não levar ideias preconcebidas… porque a realidade pode ser outra bem diferente daquela que os estudos prévios preconizam.
C. F.
