Deficiências

Desigualdades A harmonia das aquisições gestuais nem sempre ocorre como esperamos.

A perturbação na aquisição das praxias*, ou seja a dispraxia, surge frequentemente associada a outros défices cognitivos – perturbações da percepção visuo-espacial, perturbações da percepção táctil e da percepção temporal…

Não é possível associar à dispraxia a localização de uma lesão cerebral, mas uma história neonatal de prematuridade pode ser apontada como importante factor de risco.

A aquisição da motricidade global é por vezes próxima da normalidade, embora geralmente mais tardia. Mas a motricidade fina, requerendo coordenação, torna-se um enorme obstáculo…

Cada novo gesto, do mais simples ao mais complexo, mesmo que fazendo parte do quotidiano, exige um gigantesco esforço, muitas vezes infrutífero, resultando em gestos desarmoniosos.

Actividades como abotoar o vestuário, calçar-se, apertar os atacadores dos sapatos, desenhar, pintar e escrever tornam-se penosas, desarmoniosas, difíceis…

Sendo embora crianças inteligentes, muitas vezes a dispraxia origina dificuldades escolares graves.

Os primeiros sinais desta perturbação aparecem geralmente em idade pré-escolar, onde se identifica um atraso a nível grafomotor. O desenvolvimento do grafismo aparece perturbado – a reprodução de figuras geométricas, o desenho e a escrita do nome não acontecem na altura esperada nem de forma adequada. A utilização da borracha, da régua, da tesoura, as colagens, os cubos, os jogos de construção, os “puzzles” apresentam graus de dificuldade que estas crianças têm dificuldade em ultrapassar. Os pais são por vezes alertados pelas educadoras, ao surgirem estes sinais.

É essencial o diagnóstico, tão precoce e correcto quanto possível, já que nem toda a perturbação motora é devida a dispraxia e a intervenção precoce é fundamental para ultrapassar as dificuldades e permitir à criança realizar uma escolaridade normal.

Após a realização do diagnóstico, trata-se de avaliar e planificar as estratégias mais eficazes para cada caso. Será necessário ter em conta estratégias de reeducação, estratégias para contornar as dificuldades e suporte psicológico, no sentido de aumentar o autoconceito e a auto-estima, muitas vezes afectados. Tratando-se de crianças inteligentes, a consciência das suas dificuldades conduz muitas vezes a uma baixa auto-estima, ao isolamento e a dificuldades nas relações sociais.

A nível escolar, esta perturbação origina dificuldades específicas de aprendizagem ao nível da escrita e ainda ao nível da matemática (por exemplo, pelo errado alinhamento dos dígitos). Na escrita, a utilização de um computador, para processamento de texto, vai ser fundamental. Na matemática, é útil o recurso à calculadora.

O bom nível de expressão verbal destas crianças e a actual facilidade na utilização de meios informáticos beneficia a sua integração, mas esta deve ser atentamente cuidada pela equipa educativa e pela família.

* Praxia: Função que permite a adaptação dos gestos aos objectivos visados