Descoberta diária da palavra de Deus

Enzo Bianchi, um crente e mestre espiritual experiente, diz que uma das mais fecundas consequências do Vaticano II foi “o descobrimento da Palavra de Deus, por parte dos crentes católicos, que, desde há séculos, não conheciam nem praticavam já o contacto direto com as Escrituras e nem sequer tinham ocasião de dar valor à palavra de Deus na sua vida de fé”. Ele mesmo assinala que “com o Vaticano II a hierarquia passou do temor intenso em deixar a Bíblia nas mãos dos fiéis, à viva recomendação do seu valor”. De facto, como diz a Constituição que agora comento: “É necessário que os fiéis tenham amplo e fácil acesso à Sagrada Escritura” (DV, n.º 22).

Marca-se, neste sentido, a importância central da Bíblia na vida cristã das pessoas e das comunidades, como se sente a sua importância fundamental na liturgia e no ministério da Palavra. A orientação é de que em todos os atos litúrgicos se proclame a Palavra de Deus, e de que toda a catequese e pregação a tenham como fonte inspiradora. Faz sentido, deste modo, a recomendação conciliar de que padres, diáconos e catequistas “leiam e estudem assiduamente a Escritura” (25).

Esta orientação é tanto mais pertinente quando se verifica que houve gerações de padres cuja formação bíblica foi deficiente, ficando, assim, uma porta aberta para a conhecida pobreza das pregações, em que o mais importante eram as exigências da oratória sagrada. Também pertinente para vencer a rotina das celebrações eucarísticas, feitas em língua desconhecida e para um povo pouco ou nada esclarecido na Palavra de Deus. Foi a fé dos simples que aguentou, em grande parte, o sentido de Deus e o respeito para com a Igreja.

Sempre na Eucaristia houve leituras da Palavra de Deus. Nunca poderia faltar o Evangelho. Mas, o pouco valor dado às mesmas leituras fazia com que a obrigação pré-conciliar de “ouvir missa” começasse apenas a partir do ofertório, ou seja, quando tinham terminado já a proclamação da Palavra. Sem que o cristianismo volte a ser, como nas comunidades apostólicas, a religião da Palavra de Deus, jamais se logrará qualquer renovação na Igreja e na vida cristã das pessoas e das comunidades.

Deixo aqui o testemunho eloquente de um grande crente, um homem que todos conhecemos e admiramos, o Padre Américo. Encontrei há dias uma página do livro “Obra da Rua” (5.ª edição) que me tocou muito lá no fundo e me deixou a meditar. Escrevia ele da inauguração da capela, a sua capela, em Paço de Sousa. E diz assim: “Antes de narrar, quero dizer que não é meu costume escrever para o público. Como também não era falar aos auditórios, quando, dantes, era pregador. Escrevo para mim. Falava para mim. Tomava uma lição do Evangelho. Metia-me dentro dela. Refletia. Ruminava. Quando subia ao púlpito, ia a ferver. Havia grande ansiedade de dizer e sentia na alma do povo a ânsia de escutar. Tudo e todos vibravam. A nota era só uma – Jesus crucificado. Deixo a norma aqui para outros missionários. Nunca fiz exame de pregador. Ficaria reprovado se lá fosse. Faltam-me os princípios da clássica oratória sagrada. Pois muito bem. O GAIATO é o meu público. Os leitores, o auditório. Escrevo para mim. Deleito-me. Choro. Rio. A nota é só uma – a paixão da Obra da Rua por amor dos que nela se abrigam”.

Escreveu ou disse, há pouco tempo, o arcebispo que preside ao Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, que um padre que não prepara bem a sua homilia dominical, nem respeita a Palavra de Deus, não se respeita a si próprio, nem respeita o povo cristão ao qual se dirige.