“Devemos ser pessoas de relação”

Correio do Vouga – Foi ordenado diácono em Janeiro. É importante ser diácono, ou trata-se de uma quase mera formalidade a caminho do presbiterado?

João Alves – Para mim foi importante ser diácono, mas quase como estágio de uma forma de ser e estar, diferente de quando se está num seminário. No entanto, acho que é uma etapa desnecessária, talvez por isso mesmo, porque a Igreja ainda coloca muito como etapa. Não existe permanência no ministério e, no meu entender, existe ainda muita confusão no exercício do ministério de diácono e no ministério do presbítero. A Igreja não perdia nada em entender os graus no sacramento da ordem de forma diferente, não como etapas que se sucedem, mas como ministérios diferentes unidos ao bispo.

Está na paróquia de Ílhavo. Qual tem sido o seu trabalho?

O trabalho tem sido diverso: tenho estado mais ligado ao sector da adolescência e da juventude, acompanho a equipa redactorial do jornal Família Paroquial, iniciei dois grupos de formação cristã básica, tenho animado algumas ditas Celebrações da Palavra e também presido a algumas celebrações de matrimónio e funerais.

Em seu entender, qual deve ser a área de trabalho pastoral que deve receber mais tempo e mais esforço de um padre?

Não consigo dizer qual área. Acho que depende muito da paróquia ou do serviço em que se está, das necessidades e oportunidades. Considero, no entanto, que se deve privilegiar o contacto e a relação com as pessoas. Olho à minha volta e vejo os padres muito fechados nas suas casas e nos seus afazeres… e também vou sentindo isso. Às vezes temos medo da relação, do contacto e do tacto. Sinto que devemos ser pessoas de relação, estar no mundo para servir o mundo, sempre no esforço da transformação; isso não se faz apenas atrás da secretária nem atrás do ambão!

Fala-se, por vezes, que o cristianismo perde significado na vida das pessoas. Tem notado isso no seu trabalho?

Tenho notado que as pessoas, na sua maioria, ainda são cristãs e católicas de baptismo. O cristianismo, e tudo o que ele encerra desde a doutrina, à moral e à pastoral, muitas vezes é visto como uma ideologia ou uma atitude perante a vida. Parece-me que a maioria não está convertida a Cristo, talvez a duas ou três ideias que Ele ensinou, mas não à pessoa viva de Jesus Cristo. Isto para já não falar da Igreja, que muitas vezes se transforma como que num ‘shopping’, que as pessoas exigem que esteja sempre aberto, para comprar o que querem e quando querem. Sinto que já não vamos por tradicionalismos legalistas, mas às vezes nem com ideias de vanguarda e criatividades esporádicas… talvez nos faltem testemunhas vivas e palpáveis de pessoas convertidas a Jesus Cristo.

Nestes dez meses de diácono, que acontecimentos pessoais o marcaram mais?

A minha experiência de voluntariado missionário em Moçambique. Foi uma boa oportunidade de ver uma cultura diferente, de experimentar a universalidade e a simplicidade da Igreja.

Concluiu recentemente a licenciatura em Teologia. Quer resumir em três ou quatro frases o seu trabalho?

Procurei ter dois pontos de partida: um livro apaixonante como o Apocalipse e a experiência pessoal de contacto com pessoas deficientes e com o mundo do sofrimento. Procurei olhar para o Mistério Pascal como sinal de Vitória, que também ilumina a existência humana.

Ser padre é o resultado de uma adesão profunda a Jesus Cristo. Se alguém lhe perguntar “como fazer essa adesão?”, o que lhe responde?

Talvez respondesse como Jesus: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres”, isto é, não fiques aqui parado, se já acreditas n’Ele agora ‘vai’ e dá-te, entrega-te. Paulo VI rezava assim “Dá-me, Senhor, um coração capaz de amar a todos, servir a todos, sofrer por todos”.

Lembra-se do primeiro dia em que desejou ser padre?

Acho que não. Lembro-me que era criança e andava na primária, quando comecei a dizer que queria ser padre.

J.P.F.

Dar sentido ao sofrimento

“A nossa vitória na vitória de Cristo” é o título da tese defendida por João Alves no Instituto Superior de Estudos Teológicos, em Coimbra, e que lhe concedeu o grau de licenciatura em Teologia. O trabalho consiste na análise de um texto bíblico, do Livro do Apocalipse (Ap 11,17-18; 12,10b-12), que fala da vitória “por causa do sangue do cordeiro e por causa da palavra do seu testemunho”. “Agora chegou a salvação e o poder e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo” (10b).

A vitória do fiel com Cristo – é um dos sentidos da tese – nasce da aceitação de que Deus sofre com o seu Filho e, por extensão, com a humanidade. Diz o autor: “Em vez da concepção grega de um Deus essencialmente a-pathico, isto é, sem dor e sofrimento, temos agora o sofrimento de um Deus apaixonado, que se volta para a sua criação e quer construir um sentido novo desde dentro, da sua realidade mais contraditória e sem-sentido, que é o sofrimento e a morte”.

O trabalho explora os vários sentidos da morte de Jesus Cristo (como sacrifício expiatório; como redenção-resgate; e como satisfação substitutiva) e dá pistas para entender o sofrimento. Uma das vias é a “participação nos sofrimentos de Cristo” (mistérios pascais). O sofrimento, em vez de absurdo, pode ser oblação, provação, conversão ou Esperança.

Seria interessante que, excluindo a parte mais exegética (análise técnica do texto), fosse tornada pública (com algumas alterações e mais elementos) esta iluminação cristã sobre o sofrimento. Por vezes, esquecemo-nos que Cristo nos precedeu e que com Ele também podemos vencer o sofrimento.