Gaudete in Domino
(“Alegrai-vos no Senhor”)
e Evangelii Nuntiandi
(“Anunciar o Evangelho”)
Paulus
152 páginas
A exortação apostólica “Evangelii Gaudium” (“A Alegria do Evangelho”), do Papa Francisco, datada de 23 de novembro de 2013 (o Ano da Fé terminava no dia seguinte), levou muita gente a pensar em dois documentos de Paulo VI que agora a editora Paulus decidiu publicar num único volume.
“Gaudete in Domino” (“Alegrai-vos no Senhor”) é uma exortação apostólica sobre a alegria. Foi publicada em 1975, em pleno Ano Santo (ou Jubileu). Desde o século XV que a Igreja tem celebrado anos jubilares de 25 em 25 anos. Para ficarmos com alguns exemplos, 1725 foi Ano Santo do resgate dos escravos; 1925 foi o Ano Santo da Pacificação e da Paz; 1950 foi jubileu do grande perdão, quando a Europa ainda estava em escombros devido a II Guerra Mundial, tendo sido proclamado o dogma da Assunção de Nossa Senhora.
O Ano Santo de 1975 foi o primeiro depois do II Concílio do Vaticano. Para alguns, a proclamação de um Ano Santo, com as peregrinações a Roma e incluindo o rito de abrir e fechar a Porta Santa, parecia algo de medieval, sem sentido. O Papa Paulo VI apostou na continuação desta tradição, tal como a seguir João Paulo II, com o Ano Santo da Redenção (1983) e o Grande Jubileu de 2000, e deixou-nos esta exortação sobre a alegria, a renovação interior e a reconciliação.
Depois de abordar o tema da alegria “no coração de todos os homens, no Antigo Testamento, no Novo, “no coração dos santos”, para todo o povo, e “no coração dos jovens” (capítulos I a VI – que muito ganhamos em ler ou reler), Paulo VI termina com apelos à união sob a autoridade que Pedro e os sucessores recebem de Cristo (cap. VII). Pede uma sintonia “com a autêntica tradição conservada em Roma”, porque a “alegria comum, verdadeiramente sobrenatural, dom do Espírito de unidade e de amor”, “só é possível na verdade, onde a pregação da fé for acolhida integralmente, segundo a norma apostólica”. Paulo VI receava justamente a barafunda – pastoral, litúrgica, e até dogmática – que se seguiu ao Concílio em alguns países e comunidades.
A “Evangelii Nuntiandi” (“Anunciar o Evangelho”), também uma exortação apostólica (ou seja, um apelo a valores e vivências por parte de um Papa num documento menos solene que a encíclica), será um documento mais conhecido. Continua a ser a grande referência para a evangelização. Muitos já terão lido ou ouvido pelo menos aquela frase sobre as testemunhas e os mestres (que D. António Marcelino tanto gostava de citar): “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (n.º 41).
A evangelização não é uma ciência exata, mas nesta exortação de 8 de dezembro de 1975, no décimo ano do encerramento do Concílio, o Papa Montini deixa o que mais se assemelha a uma explanação metódica do evangelizar. Assuntos deste manual da evangelização: De Cristo evangelizador a uma Igreja evangelizadora; O que é evangelizar?; O conteúdo da evangelização; As vias da evangelização; Os destinatários da evangelização; Os obreiros da evangelização; O espírito da evangelização.
A “Evangelii Nuntiandi” sucedeu ao sínodo dos bispos de 1974, que teve como tema “a evangelização no mundo moderno”.
Estas dois documentos de Paulo VI ajudam a contextualizar e a fundamentar a “Evangelli Gaudium”, do Papa Francisco, a qual, sucedendo ao sínodo de 2012, sobre a nova evangelização, é a formulação franciscana, pessoalíssima, das preocupações manifestadas na aula sinodal.
Os dois documentos de Paulo VI estão no tecido da primeira e até agora única exortação do papa argentino. “Gaudete in Domino” é o primeiro documento citado por Francisco em “A alegria do Evangelho”, já a “Evangelii Nuntiandi” é o mais citado dos documentos dos papas: uma dúzia de vezes.
J.P.F.

