É melhor prevenir!

Fiquei em sobressalto. É que fiz, nos tempos de aluno, a dolorosa experiência de aulas em latim, as de filosofia e outras. E, apesar dos oito anos de estudo dessa língua – que muito prezo, aliás -, não era fácil responder, “corrente calamu”, a um exercício escrito de literatura latina com a língua de Cícero.

Até porque a língua bíblica original não foi o latim, nem sequer a inicial língua litúrgica. E se, durante séculos, uma parte grande do mundo ocidental conheceu e dominou um certo linguajar latino, vão longe esses tempos. Mais ainda: o mundo falante e pensante tomou as dimensões da própria Terra, com uma babélica diversidade de idiomas, pontificando alguns, que não o latim, como forma de aproximação de grupos de povos, essencialmente na sequência das presenças colonizadoras.

Depois, a Tradição não é a repetição mecânica do passado. É, antes, o acolhimento fiel do passado dinâmico – da doutrina, da vida, das instituições, da liturgia… da Igreja -, o seu aprofundamento face às novas realidades aparecidas, sob a moção do mesmo Espírito, que garante a fidelidade à Igreja Apostólica, para tornar a Mensagem, única, expressão autêntica da fé de cada tempo e lugar, legando às gerações vindouras o enriquecimento que o Espírito concedeu às Igrejas.

É certo que, em celebrações internacionais, algumas fórmulas conhecidas por todos são uma expressão de unidade e de submissão ao mesmo Espírito. Vantajosa, sem dúvida! Em muitas circunstâncias, toca mesmo as cordas do íntimo essa possibilidade de raças, falas, culturas e cores tão diversas louvarem em uníssono o mesmo Deus Altíssimo.

O que parece acontecer é que algum saudosismo se entranha no tecido das comunidades eclesiais, procurando, subrepticiamente, confundir fidelidade com imobilismo. E ganha força esta perspectiva, na medida em que muitos de nós fazemos insensatas “adaptações” e improvisações. Em vez de conferirmos densidade às propostas que os livros litúrgicos hoje nos oferecem de celebrar e viver uma liturgia participada, a qual nos introduza progressivamente no mistério de Cristo na Eucaristia, devassamo-lO com uma falsa oferta de proximidade e compreensão.

Aos sem escrúpulos, que desdenham de uma liturgia marcada pelo sagrado, mas densa de humanidade – Ele fez-Se Homem, é verdade! -, poderemos estar a dar azo que se contraponham outros sem escrúpulos, que entrem em “levitação litúrgica”, deixando os pobres mortais de rastos, por não serem capazes de subir às alturas desse clima reservado a iniciados. Bem sei que não será obrigatória a liturgia em latim, segundo o missal anterior… Mas vale mais prevenir que remediar.