
Em 2007 concluíram os cursos na Universidade de Aveiro (UA), o Pedro Barros em Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e o João Santos em Engenharia do Ambiente. Oito anos depois, no último mês de julho, na Sé de Aveiro, abraçaram o sacerdócio. De Aveiro, o Pedro, e de Santa Maria da Feira, o João, chegaram à academia longe de imaginarem que alguma vez seriam padres. O Pedro apostava num futuro profissional que envolvesse a economia e as TIC e o João queria ser engenheiro do ambiente. A semente da fé, que já há muito florescia neles, acabou por moldar e dar cor ao sentido e às opções que entretanto tomaram.
Se o Padre Pedro, hoje com 29 anos, saiu da UA em direção ao Seminário de Leiria, depois ao Seminário de Coimbra e à Universidade Católica Portuguesa de Lisboa para tirar o Mestrado Integrado em Teologia, o Padre João, que tem 34 anos, ainda colaborou com o Instituto de Ambiente e Desenvolvimento, fez formação profissional na área da Higiene e Saúde no Trabalho e integrou o grupo Grupo de Emissões, Modelação e Alterações Climáticas da academia de Aveiro. Só em 2007, depois de concluir o mestrado em Engenharia do Ambiente, frequentou os seminários de Leiria, Coimbra e Lisboa. E à semelhança do Pedro, foi na capital que fez o Mestrado em Teologia, em 2014. Entrevista conduzida por Pedro Farias (UAonline).
Porque decidiram estudar na UA?
Pedro Barros (PB) – A decisão de estudar na UA foi, primeiramente, por uma questão de proximidade da família. E depois, por uma questão financeira. Na verdade, pesou igualmente ter membros da família e amigos que estudavam e lecionavam na mesma Universidade. Por fim, por sentir que era uma universidade jovem e de olhos no futuro, aberta à criatividade. Inicialmente, nem era para entrar em Tecnologias de Informação e Comunicação, mas Gestão ou Economia, mas não se proporcionou pela média e pelos requisitos de acesso. Assim, entre o que gostava e apreciava na altura, o curso de Tecnologias de Informação e Comunicação fazia uma síntese entre o mundo da gestão/economia e das TIC, que muito me agradava e fascinava.
João Santos (JS) – Escolhi a UA pela convicção e pelos ecos comuns de que curso de Engenharia do Ambiente em Aveiro era muito bom. Foi por isso a minha primeira opção.
Nessa altura já sabiam que seguiriam uma carreira diferente da dos vossos colegas da academia?
PB – Não. Quando entrei na UA nem tinha sequer no horizonte ir para padre. Tudo aconteceu depois da primeira experiência de voluntariado em Moçambique, em Pemba, no final do primeiro ano do curso da UA. Quando regressei dessa experiência de voluntariado, realizado nas férias de agosto, algo me começou a inquietar. Mas, na verdade, tentei não dar muita importância, até porque gosto de ir à descoberta, aventurar-me… e daí que tenha ido em Erasmus, logo no segundo ano da Universidade. Mas foi depois, no final do 2.º ano da Universidade, que ao realizar outra experiência de voluntariado, as coisas se foram tornando mais claras, e fui procurar acompanhamento no CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura), junto do Padre Georgino, que depois me encaminhou para o Seminário de Aveiro. A partir daí, fiz uma caminhada de Pré-Seminário, em alguns fins de semana ao longo do ano… que me foram ajudando a perceber que sinais eram estes.
De qualquer maneira, foi-me sendo sugerido que terminasse o curso antes de entrar no Seminário. Assim fiz.
JS – Não. Eu fiz o meu percurso de Engenharia do Ambiente para trabalhar como engenheiro, como qualquer outro aluno do meu curso. A pergunta pelo sacerdócio existia, aumentando a sua pertinência com o passar do tempo.
Quando e como tiveram a certeza de que um dia subiriam ao altar para serem ordenados sacerdotes?
PB – Creio que isto é tudo fruto de um acompanhamento que foi acontecendo ao longo destes sete anos de seminário. Sempre confiante em que não fosse a minha vontade a prevalecer, mas a de Deus, pela escuta, pelo silêncio, pela oração, pela caridade… e isso foi sendo a procura constante de quem, como eu, não via senão esta grande vontade de servir a Deus, à Igreja e a todos… e assim o sinto hoje, porque foi esta procura de uma felicidade que não me abandona. Mas, olhando ao lado formal, creio que só depois de fazer o juramento de fidelidade é que percebi que aquele passo era um passo para algo maior. Mas são muitos sinais, pessoas e vozes que nos ajudam a reconhecer que não é uma vontade própria apenas, mas antes de mais de Deus e da Igreja, que me ajudou a ver também, que esta caminhada tem sentido, faz sentido, é rica de sentido para mim, porque encontrei uma pessoa – Jesus – que me ama incondicionalmente e se serve de mim para amar a todos. Isso é deveras extraordinário.
JS – A certa altura, reparando no que era a minha vida, o gosto que existia pelo serviço, pelo carinho que desenvolvia em colaborar na igreja, comecei a interrogar-me se Deus não estaria a chamar para um estilo de vida diferente. O anseio profundo de querer entregar a minha vida totalmente à maneira de Jesus Cristo tornou-se para mim uma questão demasiado relevante para não a enfrentar. Foi aí que entrei no seminário. Em caminhada do seminário, em comunhão com a Igreja discerni o meu caminho e fui clarificando a minha entrega no sacerdócio.
Em que medida a experiência e formação que receberam na UA pode ser posta em prática na vossa vida sacerdotal?
PB – A formação que recebi na Universidade de Aveiro é, de facto, uma formação fundamental para os dias de hoje no que diz respeito à modernização e gestão de processos, de estratégias de comunicação, de formas de se tornar presente junto das pessoas, especialmente, através dos meios de comunicação e redes sociais. A Igreja torna-se mais próxima e menos distante, quando acolhe no seu seio os desafios da modernidade e da tecnologia, sem deixar de perder a sua essência.
JS – No meu caso concreto penso que a formação em Engenharia me marca de duas maneiras. Por um lado, noto que a minha forma de expor e de comunicar está profundamente marcada pelo pensamento técnico. Dizia-me um amigo ao ler um trabalho meu de teologia: “Parece que estou a ler teologia com linguagem técnica!”.
Por outro lado, a vida pastoral está marcado pelo diálogo com as pessoas sobre as realidades que são comuns a todos e penso que a formação de engenharia me ajuda a entender a urgência da preocupação ecológica, assim como das questões mais ambientais que nos afetam a todos.
E, pelo contrário, em que medida a vossa vida religiosa pode ser posta em prática enquanto homens também da Ciência?
PB – Somos um todo como pessoa. Creio que a riqueza maior que se pode encontrar entre a Fé e a Ciência, é o facto de elas caminharem juntas e num constante diálogo. Dizia-nos Santo Anselmo que “Creio para que possa entender” (Credo ut intelligam), e que “a fé procura compreender” (fides quaerens intellectum). Estas sentenças vão mais longe na nossa vida, quando vemos que o anseio de cada um de nós é a felicidade; e que para a encontrar, é preciso colocar-se diante da fé e da ciência, para que se procure verdadeiramente o sentido profundo da nossa existência.
JS – Quer a religião, quer a ciência têm como meta procurar a verdade e colaborar no bem-comum. Têm métodos diferentes e abordagens diferentes e por isso visões e compreensões distintas da realidade, as quais não se excluem necessariamente. Tomemos apenas o exemplo, entre muitos, de Gregor Mendel, monge agostiniano e cujos trabalhos estão na base da genética atual. Na vida de cada dia, algumas das ferramentas que aprendi a usar no tempo do curso de engenharia ajudam a minha entrega mais completa às pessoas a quem sirvo.
Querem deixar uma mensagem à comunidade académica?
PB – Creio que o grande desafio é não abandonar a procura de si mesmo; não fechar-se às surpresas e inquietações da vida e na vida; não deixar de enriquecer-se para ser mais “consigo”, “com-Deus”, “com-o-Mundo”, “com-o-Próximo”. Tudo isto é possível nascer, crescer e amadurecer em ambiente académico quando nos dedicamos de coração à verdade.
JS – Não tenham medo de arriscar perante o desconhecido. Gostava de deixar aqui o texto de Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que vamos. (…) Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos. Basta a fé no que temos.(…) Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia”.
