Ecos do Simpósio do Clero

O PADRE, IRMÃO E PASTOR

O oitavo simpósio do clero português congregou em Fátima cerca de três centenas de padres, na semana passada. Refletiram sobre “O padre, irmão e Pastor”. Num tempo em que, quando se fala de padres, quase sempre se fala por maus motivos, seja pelo baixo número dos que aspiram ao sacerdócio, pelo abandono do ministério ou até pelas acusações de pedofilia, os padres portugueses refletiram sobre a sua identidade no que tem de mais universal, positivo, e intemporal: irmão e Pastor. Por outro lado, a reflexão sobre a identidade dos padres é algo que diz respeito a todos os cristãos, pois o dom do sacerdócio ministerial tem como destinatário o Povo de Deus. Nestas páginas, pedimos ao P.e João Alves que resumisse o simpósio através de algumas palavras-chave e recolhemos a opinião de alguns dos padres aveirenses que nele participaram. Publicamos ainda a entrevista que o jornal eletrónico da Universidade de Aveiro (UAonline) fez aos dois mais recentes ordenados da Diocese de Aveiro, antigos alunos da academia aveirense.

 

Identidade

O padre é chamado a ser pobre por opção porque só um pobre por opção pode entender o sentido da vida. O sentido profundo da identidade do padre é a sua consciência “eu não sou para mim” e aí nasce a disposição de “ser para os outros”. O padre define-se por não ter uma identidade própria porque Jesus Cristo quer ser a sua vida toda.
O padre, mesmo sendo pastor, não deixa de ser ovelha, e isso deve fazer conhecer a sua humanidade e a sua vida enquanto irmão cristão de todos.
Missão
Jesus escolheu para o seu ministério, em vez do Templo, as ruas e as praças e, muitas vezes, lugares de ausência. O ministério do padre, à imagem do Senhor, passa por assumir a cruz também dos que nos foram destinados.
Há um magistério da Palavra e de Esperança que são urgentes hoje no serviço pastoral. Esta missão hoje passa também pela configuração do ministério no diálogo com a literatura, a arte, o mundo da cultura e da ciência.
Oração
É na oração que o padre aprende a ser pastor e irmão de todos. É na oração que toma a consciência de uma ordenação sempre em ato e não apenas historicamente acontecida. No entanto, uma oração que nos converta a um ajoelhar mais o coração do que as pernas.

 

Palavra de Deus

O padre deve viver o primado da Palavra de Deus e confiar-se à sua escuta e ao seu serviço. O ministério da Palavra é uma verdadeira diaconia às comunidades e às pessoas. A catequese, a homilia, as pregações só fazem sentido se nascem de uma pregação autêntica que seja convincente e vital para o próprio padre.

 

Sinodalidade

A sinodalidade é inerente ao mistério da Igreja e é a forma da Igreja porque é a prática eclesial da comunhão. O padre é convidado a viver na sua vida e na sua ação os estilo sinodal: trabalhar em conjunto e em comunhão; a reciprocidade; a partilha da pobreza de cada um.

 

Evangelização

Não pode haver melhor evangelização e melhor entusiasmo do que aquele que nasce de dentro, do coração autêntico. O padre vive a envangelização enquanto partilha e testemunho da alegria da sua salvação e partilha da bênção de Deus, estando presente na Graça dos inícios e do fim, anunciando a presença de Deus na vida do Seu Povo.
P.e João Alves

 

Pão e pessoas

Destaco uma ideia do P.e Carlos Carneiro, jesuíta, que penso concretizar bem este tempo de convívio entre sacerdotes: “O pão bendito tem de ter o nome das pessoas que comigo o comungam”. Deste elemento liga-se claramente Eucaristia e pastoral.
P.e João Santos, da equipa do Seminário

 

Alegria

Para mim, o simpósio foi um encontro entre colegas e de alegria por estarmos juntos, vindos das várias dioceses de Portugal. Destaco a partilha de experiências vividas e refletidas entre todos: sentir-me irmão entre irmãos no mesmo ministério e serviço à Igreja e ao Povo de Deus.
P.e Jorge Fragoso, Unidade Pastoral de Águeda

 

Três virtudes

De entre todas a intervenções que ouvi, a que vi mais sublinhada e, por isso, me ficou mais gravada, foi a afirmação de que o padre, sendo um homem todo de Deus, necessita de ser um homem todo do Povo de Deus a quem serve. E registei três virtudes, para ser padre, irmão e pastor: Ser criativo – criatividade como capacidade de ver, auscultar e responder à realidade que se me apresenta, sobretudo sem deixar de contar parábolas e histórias, ao jeito de Jesus; Ser imaginativo: imaginação como capacidade para olhar em frente, sobretudo quando se vê pouco futuro, para ver para lá daquilo que se vê; Ser esperançoso – “a esperança tem que morar na casa paroquial”, na bela expressão do P.e Carlos Carneiro, ainda ressoa aqui, serenamente, nos meus ouvidos.
José António Carneiro, paróquia da Glória

 

B. dos Mártires

Além de encontro ou reencontro e convívio entre colegas, realço a qualidade de quase todas as conferências. Também me fica o interesse em conhecer melhor Bartolomeu dos Mártires, figura ímpar da nossa Igreja como exemplo a seguir no estilo de ser pastor.
P.e José Carlos Pereira, Unidade Pastoral de Águeda