Família

A propósito da Semana da Vida (15 a 22 de Maio), os bispos portugueses vão lançar o documento “Respeita o outro, diz não à violência”, cujo primeiro ponto fala da “violência dentro da família”. Em que consiste esta violência?

O documento que foi divulgado pela Comissão Episcopal da Família e Secretariado Nacional da Família resume-se a uma carta circular, justificando a escolha do tema, e a elencar algumas das diversas formas de violência que hoje atingem a família. O documento não deixa de frisar que certas formas de violência surgem no seio da própria família, outras vêm de fora. Nas primeiras, a Igreja refere a violência conjugal, a violência exercida pelos pais ou outros familiares mais idosos sobre os filhos e as crianças (infelizmente, os últimos meses têm sido férteis em notícias deste género que devemos repudiar a todos os títulos, pois nada a justifica), a violência entre irmãos, a violência do aborto e a mentalidade de eutanásia, que se está a pretender espalhar como algo normal numa sociedade evoluída, a violência do abandono das crianças e dos idosos, etc. Naturalmente, importa referir que esta violência se exerce, quer física quer psicologicamente, não pou-cas vezes roçando níveis absolutamente intoleráveis e, portanto, a denunciar.

E como são as violências que vêm de fora?

Têm a ver, concretamente, com os domínios exercidos pela legislação, economia, fiscalidade. Basta recordar, neste último caso, o regime fiscal que pende sobre os casais unidos em matrimónio e aqueles que vivem em união sem vínculo matrimonial. Também nestes aspectos bem concretos a lei manifesta a sua iniquidade. A violência no âmbito laboral, a desigualdade de horários e de vencimentos para trabalho igual. A violência veiculada pelos Meios de Comunicação Social em nome de uma “liberdade” de informar, como se não existissem critérios éticos e uma deontologia profissional a respeitar. A violência na convivência social, violando-se frequentemente os direitos cívicos dos outros cidadãos. A violência no âmbito escolar, nos dois sentidos da escala hierárquica dentro da comunidade escolar e ao nível horizontal dos colegas uns com os outros. Por isso, é importante respeitar o outro e dizer não à violência de modo activo e comprometido, para gerar uma comunidade humana mais fraterna e mais acolhedora.

Por vezes, ouve-se que, por motivos religiosos (indissolubilidade do matrimónio, “perdão ao agressor”…), as mulheres tendem a calar a violência doméstica. Não haverá qualquer coisa de errado nisto?

Admito que possa haver um erro de interpretação por parte das pessoas sobre o significado de indissolubilidade matrimonial e de “perdão ao agressor”. No entanto, nenhuma forma de violência pode ser admitida, nem a Igreja a admite no seu ensino e na sua prática. Pode acontecer que alguma inibição das pessoas se queixarem da violência sofrida esteja mais relacionada com a vergonha que sentem de serem vítimas que pelos motivos aduzidos na sua pergunta. Estes motivos a serem usados são, essencialmente, uma máscara para justificar a vergonha e mágoa sentidas. Seja como for, hoje em dia, há mais abertura na sociedade para a compreensão e apoio às vítimas e, neste caso concreto, a Igreja, através das suas instituições, também tem sabido ser pioneira, abrindo algumas casas de acolhimento para as vítimas da violência familiar, como é o caso da nossa cidade de Aveiro.

A que casa se refere?

Refiro-me concretamente à Veravida, na paróquia da Vera Cruz, que neste momento já está lotada de pessoas que foram vítimas de violência doméstica. A casa tem por finalidade proteger, promover a autoconfiança e incentivar ao reordenamento da vida profissional e familiar das vítimas.

Mas o princípio do perdão pode levar a vítima a desculpar o agressor…

Há que saber fazer a distinção entre perdoar e exigir relações justas na convivência familiar ou social. Todo o cristão deve perdoar, mas o perdão não dispensa a justiça a que cada pessoa tem direito. Há que lutar contra a violência. Toda a violência. Não apenas a violência entre os Estados com a força da opinião pública. Mas também contra a violência doméstica e familiar. E aqui, também tem que funcionar a força da opinião pública. Eis a razão do tema desta Semana da Vida que a Igreja portuguesa promove todos os anos na terceira semana de Maio.

Ao nível diocesano, como está a pastoral familiar?

A Pastoral Familiar na Diocese de Aveiro é um vasto campo de acção. Os nossos bispos não se têm cansado de afirmar que este campo de acção é uma prioridade da pastoral. Infelizmente, na prática, isto não está assumido pelos diferentes sectores da vida eclesial, desde padres, diáconos, leigos e famílias. Da pastoral familiar tem-se uma visão redutora; quase se limita à preparação, mais ou menos próxima, dos noivos para o matrimónio, seja através de encontros organizados pela própria paróquia ou grupos de paróquias ou através do movimento dos Centros de Preparação para o Matrimónio (CPM). Depois, a pastoral familiar quase se esgota. Excepção feita à existência de uma estrutura diocesana de preparação remota para o casamento que tem feito os possíveis por criar estruturas mais localizadas em cada concelho ou arciprestado. Algumas paróquias têm também a funcionar uma preparação para o sacramento do Baptismo, cujas equipas são constituídas por casais. No entanto, são muito poucas. Na generalidade, estes encontros são dirigidos pelos sacerdotes! Contudo, a pastoral familiar não se esgota nestes aspectos muito importantes da vida das famílias.

Que outros campos existem?

A Igreja tem o dever de estar atenta a inúmeras situações, tais como: ajudar os casais a desenvolver, apreciar e fazer crescer a sua espiritualidade conjugal e familiar. Se bem que existem movimentos de espiritualidade na diocese, estes não atingem a totalidade dos casais; por isso, as estruturas da Igreja, diocese e paróquia, têm a obrigação de oferecer aos casais os apoios necessários para eles poderem crescer na sua espiritualidade. E aqui, há lacunas graves.

E quando o casamento não é bem sucedido?

Infelizmente, há muitos casais que, depois de mais ou menos anos de convivência conjugal, chegam à ruptura. Nestas situações tão dolorosas para os cônjuges separados e para os filhos, se os houver, a Igreja tem o dever de lhes estender a sua mão materna. E novamente se verifica uma outra carência de estruturas de apoio. A diocese investiu na preparação de uma equipa diocesana para atender a estas situações, mas está “desempregada”.

“Desempregada”… como?

A equipa, ao longo de alguns anos, andou a estudar documentos e a preparar-se para apoiar situações difíceis, casais em vias de ruptura ou com a ruptura já consumada, mas não tem sido solicitada para desenvolver o seu trabalho específico.

Nas paróquias há, portanto, muito por fazer…

Geralmente, as paróquias têm uma preocupação em dotar-se de estruturas que assegurem alguns serviços imprescindíveis e importantes, como a catequese, a liturgia, a acção social e caritativa. Contudo, a pastoral familiar é a parente pobre destas preocupações. Pouco se investe na formação dos casais e na criação de uma equipa paroquial de pastoral familiar. E estas falhas devem-se não só aos sacerdotes como também aos próprios casais, que não se sentem motivados para se empenharem nesta pastoral familiar. Daí que Semanas da Vida bem poderiam ajudar a criar a mentalidade para a sua necessidade e urgência. Talvez seja um momento oportuno para os Conselhos Paroquias de Pastoral despertarem e proporem a criação destas estruturas locais. Para que surjam, não são necessários casais ideais, mas aqueles casais que se disponham, por bem da sua família e das outras famílias, a querer crescer e ajudar outros a crescer.

Não é fácil começar sem alguém que dê um impulso…

O Secretariado Diocesano está disposto a ajudar nesta tarefa.