Fornação profissional – exemplos desprezados

Questões Sociais 1. As discussões sobre a formação profissional esquecem e até desprezam uma parte significativa da realidade formativa. Precisamente a realidade vivida por quem não beneficiou de cursos e onde se observam exemplos dignos de registo.

Registam-se aqui três desses exemplos: um é tipicamente profissional; o segundo é equiparável à vida profissional, embora não seja reconhecido como tal; e o terceiro respeita apenas à vida corrente, mas relaciona-se claramente com a esfera profissional.

2. O primeiro exemplo é o de largos milhares de trabalhadores e empresários que obtiveram elevados graus de saber no próprio trabalho. Aí assimilaram conhecimentos e experiências vindos de gerações anteriores. Também souberam adaptar-se a novas tecnologias, a novas modalidades de organização e gestão, a relações comerciais de grande exigência incluindo as de âmbito internacional…

Normalmente, estes conhecimentos e experiências foram adquiridos com base na intuição pessoal, nos contributos de colegas, nos desafios de cada dia, nos ensinamentos provenientes de fornecedores, de clientes e de várias outras entidades. Todo este potencial de aquisição de saber tem sido menosprezados pela formação oficial (apesar de algum esforço de reconhecimento observado nos últimos anos). E, quanto ao futuro, subsistem ainda muitas sombras…

3. Um outro exemplo frisante de formação é o do trabalho doméstico. Ao longo dos séculos, as casas de família foram sempre escolas extraordinárias de aprendizagens tradicionais diversas, sobretudo para as mulhares. Porém, nas últimas décadas, ocorreram avanços qualitativos extraordinários, sem qualquer contributo da formação oficial.

A adaptação aos electrodomésticos, a utilização de equipamentos sofisticados, o aumento substancial da produtividade, uma sábia conciliação entre a vida familiar e a profissional, tudo isso aconteceu a partir da intuição, da experimentação, de relações e contactos diversos, num esforço permanente de auto-aprendizagem.

4. O terceiro exemplo de formação desprezada respeita à difusão e interiorização das novas tecnologias na vida corrente, inclusivamente a partir da infância. A utilização dos telemóveis e dos cartões de crédito, a realização de operações diversas nas caixas multibanco, o domínio de equipamentos de som e de vídeo, a prática de jogos electrónicos e tantas outras destrezas adquiridas quase por instinto (como se a inteligência estivesse nas pontas dos dedos e nos sentidos) revelam a enorme capacidade de aprendizagem dispersa pela generalidade das pessoas.

Trata-se de uma verdadeira criatividade aprendente, largamente difundida na população, constituindo uma base promissora de desenvolvimento.

5. Face a estas realidades, pede-se à formação formal (oficial ou particular) que saiba reconhecê-las, basear-se nelas e que — em vez de as atrofiar e desprezar — contribua para a sua racionalização, melhoria e crescimento.

A formação profissional do futuro não pode consistir na substituição da vida pela escola (ou centro de formação). É indispensável que seja a vida enriquecida pela escola, e vice-versa