Direitos Humanos Escrevo esta pequena reflexão após outro acontecimento que o mundo inteiro não mais esquecerá – o atentado terrorista em Madrid. Mas faço-o pois considero necessário juntar a nossa voz à indignação de tantos milhões de espanhóis que neste momento enchem as ruas da grande maioria das cidades do país vizinho. Impressionou-me ver as imagens de tantos rostos de indignação e de sofrimento, muitos até num misto de incredulidade e de questionamento, como que a revelar as perguntas que lhes assaltam o espírito – “Como? Porquê?” – ou a actualizar a pergunta do Criador no Génesis “Homem, onde estás?”
No momento em que coloco estas ideias no papel ainda não se sabe de quem é a autoria do atentado (e é imperativo que se saiba!). Porém, tudo indica que nele está implicado o fundamentalismo islâmico da Al-Qaeda, por represália pelo apoio das autoridades espanholas aos Estados Unidos. As vítimas, essas, já nada as trará de volta!
Seja a Al-Qaeda ou outro grupo terrorista, a verdade é que não há razão nenhuma no mundo (por mais justa que seja a causa pela qual se luta) que legitime uma acção assim, tão violenta como cobarde.
Não foram alvos militares que foram atingidos, não foram forças militarizadas que se vitimaram. Foram seres humanos! Trabalhadores, gente simples do povo que saiu de casa para enfrentar mais um dia de actividade e que não mais voltará.
Mas a simbologia do dia 11, o facto de se passar um ano preciso sobre a invasão do Iraque e o carácter indis-criminado da “barbárie” levam-me a suspeitar que o fundamentalismo religioso estará por trás do sucedido. Se assim for, infelizmente confirmo as suspeitas de que a famosa prática da “guerra preventiva” – defendida por Bush e seus pares, com vista à “eli-minação” do terrorismo – no Iraque, não só não teve os resultados esperados como acirrou ainda mais o clima de intolerância que já se descortinava.
O Papa João Paulo II, sabiamente, alertava para o perigo de uma situação semelhante, quando na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, em Janeiro deste ano, partilhava connosco as suas preocupações, ao sublinhar que “os Governos democráticos bem sabem que o uso da força contra os terroristas não pode justificar a renúncia aos princípios dum Estado de direito. Seriam inaceitáveis opções políticas que buscassem o sucesso sem ter em conta os direitos fundamentais do homem: o fim não justifica os meios!”. Desafortunadamente, foi assim que aconteceu e por isso temo que a teimosia dos aliados na invasão do Iraque, contra todos os pedidos feitos pela ONU, esteja agora a ver os seus frutos. Porque a violência, obviamente, gera mais violência.
Provavelmente, o dia 11 de Março de 2004 será recordado, doravante, como mais uma data sangrenta com a marca da intolerância e do fanatismo (seja ele de que tipo for). Porém, para todos os que sonhamos e lutamos por um mundo mais justo e mais fraterno, o registo da efeméride não pode ser desesperante. Pelo contrário, cabe-nos olhar para este dia como mais um passo, um desafio, difícil (doloroso, até!) na longa caminhada rumo à concretização da Paz e da Concórdia, até que elas se tornem verdadeiramente possíveis.
