Informar não chega; é preciso levar a desejar o caminho da virtude

Fórum sobre Educação Sexual “Educar não é doutrinar.”

“Educar para a sexualidade é educar para o amor.”

“Amar é fazer o outro feliz na diferença que é o outro”.

Com estas ideias de fundo, o médico psiquiatra Freitas Gomes fez uma exposição sobre amor e sexualidade, que despertou muitos sorrisos e um enorme aplauso a cerca de centena e meia de participantes, casais na sua maioria, no Fórum “A Educação para a Sexualidade”, que decorreu no Seminário de Aveiro, no dia 6 de Maio, numa organização das Equipas de Nossa Senhora.

O médico e psiquiatra do Porto não foi dócil para a sucessão de governos nem para a sociedade em que vivemos. A Lei da Educação Sexual, aprovada em 1984, nas agendas governamentais resume-se sempre a uma “informação para o aborto” e “informação para o uso do preservativo”, diz Freitas Gomes. “Quem está a fazer a educação sexual não é a família, nem a escola; é a televisão”, acrescenta. Ora, a televisão e a cultura audiovisual em que vivemos, não ajudam a pensar, mas apenas a afirmar, com base no sentir, “gostei”/ “não gostei”, “curti”/ “não curti”. Fazem parte da cultura consumista e hedonista do “prazer aqui, agora, já”, em oposição à do passado, em que o sexo era “sujo, mau e pecado”.

Por outro lado, a sociedade não permite uma vida afectiva e sexual harmoniosa. As pessoas tendem a casar mais tarde (tendo filhos fora do tempo e poucos), porque não têm casa nem emprego estável, o que não quer dizer que não iniciem a sua vida sexual. Mas, quando casam, fazem-no dentro da cultura ambiente, pelo que não é de admirar que todo o projecto esteja destinado ao fracasso e apareçam as “novas famílias”, as “famílias reconstruídas”, as famílias dos “meus [filhos], dos teus e dos nossos”. Essas “novas famílias”, diz o médico, são “muito boas para os adultos e péssimas para as crianças”, que amam sempre o pai e a mãe, mesmo quando estes se dão mal.

Missão impossível?

Educar para a sexualidade será então uma missão impossível? Não, se se tiver em conta que nesta missão há “educar” e “sexualidade”. Educar é crescer em identidade (conhecimento de si), autonomia (responsabilidade) e autocontrolo. É “interiorizar regras, critérios, valores e atitudes e atribuir a si o que acontece na vida”, sintetiza Freitas Gomes. A isso é necessário acrescentar o conhecimento da biologia e psicologia da sexualidade do par humano. Entre outros aspectos, Freitas Gomes realçou que a relação homem/mulher começa pelo desejo – que por vezes é ignorado na educação tradicional ou valorizado negativamente –, só depois passa para a elaboração dos sentimentos, chega ao projecto e pode concluir em sacramento.

Força da virtude

Jorge Cunha, padre da diocese do Porto e teólogo da área da Moral, contra a ideia comum de que educar para a sexualidade “nem é possível, nem é necessário, nem é útil”, defendeu que “educar é seguir na direcção do reino da liberdade”. “A sexualidade é para o amor e para o afecto”; vê-la “apenas como prazer ou recreio é miopia”, disse. Reconhecendo que, durante 17 séculos, a Igreja (a partir do séc. III até quase à actualidade) contribuiu para uma educação repressiva, Jorge Cunha alertou para o efeito pendular que levou a que hoje a educação sexual, para muitos, se resuma a uma “optimização do prazer” e a um “securitismo”, que “só se preocupa com a segurança”. “Educar não é só informar como funciona, nem dizer «não te contamines»”, sublinhou o teólogo do Porto, alertando para a falha da finalidade da sexualidade e para o consequente vazio existencial.

Para Jorge Cunha, “educar a sexualidade é colocar o sujeito autónomo no caminho do bem e da felicidade; é não perder a virtude, que é a força de ser livre”.

Na segunda parte do encontro, os participantes puderam colocar perguntas por escrito aos dois convidados do dia.

Conceição Matias, membro da equipa organizadora, disse ao Correio do Vouga que “os ecos sobre o encontro foram muito positivos” e que os participantes ficaram agradados com a abertura da Igreja às questões da moral sexual revelada pelo teólogo católico. A organização considera a possibilidade de promover novas acções neste campo.