A Comissão Diocesana Justiça e Paz (CDJP) de Aveiro, em estreita colaboração com a Escola dos Cursos de Cristandade, preparou um Curso sobre Doutrina Social da Igreja, que tem decorrido em serões outonais dos meses de Outubro e Novembro. As sessões – oito –, estiveram imbuídas do espírito dos Cursilhos de Cristandade: breve oração e meditação, apresentação do tema, reflexão por grupos de uma ou mais questões e plenário de comunicação e aprofundamento. Os participantes, cerca de 90, mantiveram uma grande assiduidade e demonstraram um notável interesse.
Igreja e questões sociais
As duas primeiras sessões versaram a missão da Igreja e a legitimidade da sua intervenção relativamente às questões sociais. Fez-se a apresentação dos principais documentos do Magistério Social Pontifício e da Assembleia dos Bispos Portugueses. Foi particularmente vivo o plenário em que se abordaram assuntos que estão hoje na “praça pública”.
Para nós poderá ser clara a legitimidade da Igreja em se pronunciar relativamente às questões sociais. Mas não o é para muitos. É até fonte de grande contestação. No entanto, se meditarmos um pouco, rapidamente nos apercebemos que a Igreja não só tem o direito, mas o dever de se pronunciar. É um seu dever, não só de pronúncia, mas de intervenção. E, desde sempre, tem intervindo, muitas vezes de forma forte, inovadora e até controversa para a época. Relembremos a primeira Encíclica Social, Rerum Novarum, em 1891, em que Leão XIII afirma que os graves problemas sociais “só podiam ser resolvidos pela colaboração entre todas as forças intervenientes”, acrescentando ainda: “Quanto à Igreja, que a sua acção jamais falte por qualquer modo e em qualquer tempo”. Ou, mais recentemente, em 1971, recordemos a clarividência de Paulo VI, na Octogesima Adveniens, ao identificar os complexos problemas da sociedade pós-industrial, nomeadamente: a urbanização, a condição juvenil, a condição da mulher, o desemprego, as discriminações, a emigração, o crescimento demográfico, o influxo dos meios de comunicação social, o ambiente natural.
Não há salvação
fora da sociedade
A transposição desta reflexão para a nossa actualidade leva-nos a pensar que, como Igreja, nos limitamos muitas vezes àquilo que acreditamos ser a grande competência da Igreja – “salvação das almas”- e nos alheamos do nosso papel social, esquecendo que, como cristãos, é nossa missão “evangelizar o social, ou seja, fazer ressoar a palavra libertadora do Evangelho no complexo mundo da produção, do trabalho, do empresariado, das finanças, do comércio, do direito, da cultura, das comunicações sociais, em que vive o homem” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Principia, 2005) e dessa missão depende também a salvação do homem. Estaremos a cumprir?
Após estas sessões fundamentais analisaram-se os princípios da Doutrina Social da Igreja, nomeadamente: o bem comum e o destino universal dos bens; a subsidiariedade e a solidariedade; e a participação.
Bem comum
O Bem Comum e Destino Universal dos Bens são dois princípios que a Doutrina Social da Igreja destaca como um imperativo categórico para que todos possamos viver com dignidade. Com efeito, esta dignidade exige que o Homem tenha o conjunto de meios que satisfaçam as suas necessidades e as da sua família e por isso todos estamos implicados na construção do Bem Comum, definido pela Gaudium et Spes como o “Conjunto de condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, atingir a sua própria perfeição de um modo total e mais fácil”.
Bens de todos
Ao reflectirmos em conjunto estes ensinamentos, percebemos que só através do nosso empenhamento e esforço colectivos conseguiremos construir uma sociedade onde o Bem Comum e o Destino dos Bens possam estar ao serviço do homem. Só quando o homem tiver acesso à escola, ao trabalho à justiça, à saúde,… à sua realização plena, então estes princípios serão uma realidade. Estamos todos implicados nesta construção, que não é tarefa fácil, e nós cristãos temos por obrigação ser os primeiros a assumir um papel activo. Deus destinou a terra ao Homem, para que ele a domine e, a partir dela, sustente os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém. Somos assim convidados a usufruir do Bem Comum, administrando, sem permitir que alguns abusem sem responsabilidade do colectivo. Os bens não são de cada um, mas de todos, sendo, por isso, todos chamados a contribuir (por exemplo pagando os impostos justos) e cooperar lealmente.
Imagine-se, pois…
Imagine-se um mundo em que a cada um fosse reconhecido o direito de dar, à sua medida, um contributo para a melhoria de vida dos seus coetâneos e que a isso se chamasse participação.
Imagine-se um país em que a educação fosse uma responsabilidade primeira e reconhecida das famílias, a quem se reconheceria o direito e a legitimidade de escolherem o modelo educativo mais ajustado aos seus filhos; imagine-se um mundo em que os Estados reconhe-cessem às sociedades mais próximas dos cidadãos (as associações, instituições particulares de solidariedade social, etc.) o legítimo direito de serem veículo de promoção, apoio e acompanhamento das pessoas, não sendo nunca indevidamente substituídas pelo Estado ou sociedades superiores, antes sendo por estes apoiadas e subsidiadas; imagine-se um mundo em que o direito a ter iniciativa não ficasse no mundo de uns poucos que tudo gerem a seu bel-prazer, estabelecendo os preços que mais lhes convêm porque o monopólio assim lhes permite, mas fosse assegurado a todos com igual condição de oportunidade, e que a tudo isto se chamasse subsidiariedade.
Imagine-se, ainda, um mundo e um tempo em que todos sentissem como seus os problemas de todos, em que as questões do bem-estar do mundo, do bem-estar das espécies, do bem-estar e direito a viver dos mais frágeis fosse problema de todos e nunca de apenas alguns, e que a isso se chamasse solidariedade…
Imagine-se tudo isto… Imagine-se e deseje-se e concretize-se este mundo e estaremos a tornar real o mundo a que se aspira na Doutrina Social da Igreja, a já longa e profunda reflexão que a Igreja Católica vem fazendo sobre as condições de humanização do mundo à luz do sentido transcendente que confere carácter único e interpela cada ser humano a tornar-se progressivamente mais dignificado.
Imagine-se, pois….
Que caridade é a nossa?
E a via da Caridade é o caminho para esse mundo. A Caridade, após a sessão sobre esta virtude teologal, deixou de ter a conotação de “caridadezinha”, que se sente frequentemente “no ar”, para passar a ser objectivo de vida plena. A Caridade consiste em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, por amor de Deus. Nela se condensa toda a mensagem do Evangelho. Se conseguirmos a Caridade, conseguimos sentir como próprias as carências e as exigências alheias, sendo mais intensas a comunhão dos valores espirituais e a solicitude pelas necessidades materiais, e o Amor flui naturalmente, fazendo-nos felizes. Atentemos, no entanto, que a caridade não deve ser vivida unicamente numa perspectiva individual, ela é também caridade social e política. “Sob tan-tos aspectos, o próximo a ser amado apresenta-se em sociedade, de sorte que amá-lo realmente, prover às suas necessidades ou à sua indigência pode significar algo diferente do bem que se lhe pode querer no plano puramente inter-individual” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Principia, 2005). Que Caridade é a nossa? Será aquela que nos tranquiliza por uns instantes num acto, por vezes isolado, que não provém verdadeiramente do amor ao próximo? Será que a nossa Caridade é aquela que nos completa e nos dá a plenitude, enquanto seres feitos à imagem e semelhança de Deus, que é o Amor?
Vida digna
A última sessão do Curso versou sobre os valores fundamentais da vida social, que são pedras basilares na construção de uma sociedade nova. A sociedade que Jesus Cristo nos anunciou e que nós homens e cristãos, frequentemente, ignoramos. Viver em verdade, liberdade, justiça e amor é de uma exigência imensa, que obriga a uma conduta de pesada responsabilidade nos nossos testemunhos de vida diária. A necessidade de transparência e honestidade não coincide com os nossos interesses pessoais, e a nossa conduta no agir pessoal e também colectivo fica irremediavelmente comprometida.
Os Valores fundamentais da vida social só serão autenticamente respeitados quando o homem compreender que todos temos direito a uma vida digna. Podemos viver em verdadeira liberdade, quando existirem laços verdadeiros e justos a unir as pessoas, transpondo para o âmbito social a totalidade das suas dimensões.
Verdade, implica,
amor e liberdade
A convivência humana é ordenada, fecunda de bens e condizente com a dignidade do Homem, quando se funda na Verdade, se realiza pela Justiça, se organiza com Liberdade, e a responsabilidade do próprio agir é assumida e vivificada pelo AMOR. Os valores como a verdade, a justiça, o amor e a liberdade são a essência da Doutrina Cristã, indispensáveis para a vivência em sociedade onde o primado do Homem é preocupação fundamental.
Estão ainda previstas mais duas sessões especiais, a 4 e a 18 de Dezembro, sendo a primeira em género de ultreia jubilosa para partilhar as vivências mais significativas da caminhada feita e a segunda em jeito de recolecção e convívio de Natal, para que seja Jesus Cristo a dar sentido mais pleno à nossa vida e a levar-nos ao compromisso social.
A Comissão Diocesana Justiça e Paz, ao preparar e realizar o Curso aprofundou conceitos e adquiriu conhecimentos da Doutrina Social, que em muito enriqueceram os seus próprios membros. Por outro lado, o contacto com os participantes da Escola dos Cursilhos de Cristandade e a vivência do curso constituíram a prova viva de que é possível crescer num espírito de verdadeira Caridade e cooperar, de forma interactiva, nos serviços da Igreja.
A Comissão
