Querubim Silva Padre. Diretor
Querubim Silva
Padre. Diretor

A cultura do desprezo pela vida salta diariamente para a ribalta da comunicação social, com casos gritantes do foro da criminalidade.
A verdade é que a repetição dos episódios de violência constrói esta habituação, que plasma a indiferença, que endurece o coração, que entorpece a própria razão e sufoca a consciência.
Caso paradigmático foi o acontecido com o adolescente friamente assassinado pelo colega, em cena presumível de duelo, por questões sentimentais, entre gente que precisava, isso sim, de apreciar a pujança da vida e a alegria de um convívio saudável entre jovens.
Um comentador televisivo “atreveu-se” a lembrar que o problema nasce na educação, na “família”. Não sei se alguém lhe deu ouvidos. Parceiros de comentário pareceram-me muito “técnicos” e “cientistas”… A imagem que me ficou foi a de que seriam eles próprios carentes de critérios de valorização da vida, em todas as circunstâncias.
No domingo passado, o Papa Francisco canonizou Madre Teresa de Calcutá. Apraz-me registar algumas frases que nos deixou na sua homilia, precisamente para sublinhar como esta mulher, pequena e franzina, mas gigante e forte, semeou uma cultura bem contrária a esta que ameaça engolir-nos.
Diz o Papa: “Comprometeu-se na defesa da vida, proclamando incessantemente que «quem ainda não nasceu é o mais fraco, o menor, o mais miserável». Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes – diante dos crimes! – da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a luz que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento.”
Ao iniciar-se um ano de trabalho educativo, escolar e pastoral, faz-nos bem gravar no coração e no espírito, para que se torne prática habitual, o testemunho desta mulher. “Parece-me – diz Francisco – que, talvez, tenhamos um pouco de dificuldade em chamá-la Santa Teresa: a sua santidade é tão próxima de nós, tão tenra e fecunda, que espontaneamente continuaremos a chamá-la de “Madre Teresa”. Que esta incansável agente de misericórdia nos ajude a entender mais e mais que o nosso único critério de ação é o amor gratuito, livre de qualquer ideologia e de qualquer vínculo e que é derramado sobre todos sem distinção de língua, cultura, raça ou religião. Madre Teresa gostava de dizer: «Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir». Levemos no coração o seu sorriso e o ofereçamos a quem encontremos no nosso caminho, especialmente àqueles que sofrem. Assim abriremos horizontes de alegria e de esperança numa humanidade tão desesperançada e necessitada de compreensão e ternura.”