Uma pedrada por semana Andei por terras do Douro. Vi, contemplei, admirei, louvei a obra de Deus e o fruto do trabalho humano. Ouvi muitas coisas, de ontem e de hoje. Apreciei novos sonhos e projectos. Fiquei contente por saber que a vida de quem trabalha é hoje ali menos dura e melhor recompensada.
Ao lado da beleza natural, vi maravilhas de arte religiosa, nomeadamente templos. As ruínas que encontramos por ali são palácios de fidalgos que deixaram de o ser. Algumas, compradas por gente das cidades, vão-se tornando vivendas de fim-de-semana e casas de turismo rural.
Meditei, em silêncio, na linda praça de S. João da Pesqueira, no ódio destruidor. Ali está o testemunho silencioso e ensanguentado dos Távoras, que o marquês de Pombal não poupou, nem nas pessoas, nem nos bens. Resta parte do que foi, porque já então pertencia à Misericórdia e se libertou do camartelo impiedoso.
Visitei a terra de Miguel Torga, neste centenário do seu nascimento. Li e ouvi poemas e páginas suas, recheadas de bom português e de ideias que não passam, rezei junto à sua sepultura de pedra rasa no cemitério da sua aldeia. Ele que lutara com Deus, mas apreciava a amizade de alguns padres, não deve ter depreciado o gesto de fé de quem por ele rezou… Não fiz só esta romagem do Douro. Éramos onze bispos, que gostamos de Portugal.
Aí vai a pedrada: tantas corridas para longes terras, deixando belezas únicas no esquecimento de vidas longas. É urgente conhecer e apreciar a nossa terra. O Douro é um livro aberto e inesgotável, à espera de quem o leia com sofreguidão e gratidão.
Vêm aí as férias, tempo para encher os olhos e o coração. Nem só o mar tem beleza.
A. Marcelino
