José Dias da Silva, orador do Congresso Eucarístico, perito em Doutrina Social da Igreja Com a aproximação do Congresso Diocesano Eucarístico de 10 e 11 de Junho, o Correio do Vouga inicia uma série de entrevistas com os principais oradores. José Dias da Silva, leigo de Coimbra, abordará o tema “Eucaristia e compromisso social”.
CORREIO DO VOUGA – Para muitas pessoas, a Eucaristia não representa qualquer compromisso social. Porquê?
JOSÉ DIAS DA SILVA – A Eucaristia é valorizada em si mesma como algo fechado, sem consequências práticas. O padre diz “Ide em paz” e eu vou em paz, como se tudo tivesse terminado ali… Mas este “Ide em Paz” quer dizer antes “Ide e produzi frutos”, como diz o Evangelho. E Eucaristia não é só um ir buscar, mas é um projecto: Novo céu na Terra. Não é muito frequente este tipo de catequese na homilia. Implica uma tomada de consciência sobre o que é Eucaristia.
Para si, o que é então a Eucaristia?
É o centro da vida. Sou um “cavaleiro andante” da Doutrina social da Igreja e tenho andado por aí a dizer que Jesus Cristo é o centro, ponto final parágrafo. Ora, a Eucaristia é onde celebro e conheço cada vez melhor Jesus Cristo. Implica quem a celebra. Se vou para me alimentar, é para conhecer a sua proposta. Não é o Monte Tabor, onde se monta a tenda e se fica. Às vezes dizemos que vamos lá “para recarregar as baterias”, porque se trata de dar frutos na vida; o importante é transpor para a vida. Jesus Cristo deu a vida pelos homens. A Eucaristia é seguir Jesus Cristo na sua proposta.
É a Eucaristia que leva ao compromisso social ou o com-promisso social à Eucaristia?
O compromisso social não é só para os cristãos. Há compromisso social sem Eucaristia. Mas, para os cristãos, o compromisso tem de ser consequência da fé. A Eucaristia que não leva ao compromisso social não é séria. Penso que foi o vosso bispo, D. António Marcelino, que disse que “onde falta a caridade, sobram eucaristias”. Diz bem da relação entre eucaristia e compromisso social.
Mas a Eucaristia também pode ser “ponto de chegada” para os cristãos…
Sim. Por outro lado, o compromisso social pode levar à celebração eucarística, porque, para os cristãos, não faz sentido um compromisso social separado do fundamento último, Jesus Cristo. Por isso dizemos que oferecemos o “fruto da terra e do trabalho do Homem”. Sem Jesus Cristo, o empenhamento social é mera filantropia. Nesse sentido, Ele, na Eucaristia, é o ponto de chegada e de partida do compromisso.
Como é que uma comunidade, uma paróquia, pode despertar o empenhamento social dos seus fiéis?
Cada paróquia tem o seu contexto. Manifestamente, é um desafio complicado, mas urgente, porque tivemos uma catequese com muitos séculos de história com grandes défices. Fomos catequizados para os sacramentos e os mandamentos (moral pessoal). Fomos educados muito para rezar e pouco para a relação estimulante entre Igreja e compromisso social.
O que sugere para superar esse défice?
De alguma forma, em primeiro lugar, proponho uma abordagem conjunta das áreas catequese, liturgia, serviço fraterno. As nossas eucaristias estão pouco ligadas à nossa vida. Para a maior parte dos cristãos, é indiferente ir à missa de uma ou de outra comunidade. Porquê? Porque têm pouco a ver com a “minha vida”. Ora, é necessário fazer eucaristias onde palpite a vida da comunidade, articular profundamente a missa e o serviço fraterno. Lembro a frase de S. João Crisóstomo: “Aquele que disse «Isto é o meu corpo» é o mesmo que disse «Tive fome e destes-me de comer» ou «tive fome e não me destes de co-mer». É o mesmo que está ali. Mas só ligamos à primeira parte da frase.
O segundo aspecto a valorizar é a espiritualidade de comunhão. Para muitas pessoas, fala-se em comunhão e pensa-se na da missa. Ora, uma espiritualidade de comunhão assenta nessa, mas vai muito para além. É sentir que o outro faz parte de mim. Ver o outro como vindo de Deus para mim. Saber criar espaços para o outro, levando os fardos do outro. Sobre a espiritualidade de comunhão é muito interessante ler o nº 43 da encíclica de João Paulo II, “Às portas do Novo Milénio”.
Um terceiro aspecto, inspirado na Carta de João Paulo II sobre a Eucaristia, é mais prático: a Eucaristia é fundamentalmente projecto de vida. Posso concretizar em três ideias: viver em solidariedade com toda a humanidade, porque somos verdadeiramente responsáveis por todos; construir uma sociedade mais fraterna, em que em vez da globalização da miséria e do confronto Norte/Sul haja uma globalização da solidariedade, dos bens culturais; e ir ao encontro dos mais pobres.
As propostas que faz não provocam, por si mesmas, mudanças na forma como a Eucaristia é celebrada? Não vão contra uma visão mais fixista da missa nos seus ritmos, espaços e momentos?
A missa absolutamente fixista não está de acordo com o Vaticano II. O ritual da missa permite adaptações. Não precisamos de alterar o estatuto da eucaristia.
Pode dar-nos alguns exemplos?
Por que é que um problema da comunidade não é inserido no momento de pedir perdão? Por que não se pede perdão pela morte de um sem-abrigo? Talvez ajudasse a ver que ninguém tem direito a comungar sem pensar nos que morrem à fome.
Quanto às homilias, tenho ouvido algumas belíssimas e outras muito pobres. Por que não há uma equipa que prepare a homilia? O presidente da celebração perceberia por aí o que sensibiliza ou não as pessoas. O Abraço da Paz e o Pai Nosso, com as suas petições, permitem catequeses fortíssimas.
Sem pôr em causa o estatuto básico, dentro do legítimo e permitido, podemos valorizar muitos aspectos da eucaristia. É um grande exercício. Exige esforço. Mas é fundamental ligar a Eucaristia à vida.
Perfil
José Dias da Silva
José Dias da Silva, casado, com dois filhos, licenciou-se em Físico-Químicas e foi professor da Universidade de Coimbra durante alguns anos, até que decidiu reformar-se para se dedicar às responsabilidades familiares e a tarefas eclesiais e sociais.
Auto-intitula-se “cavaleiro andante” da Doutrina Social da Igreja (pensamento da Igreja so-bre as questões sociais, como o Trabalho, o Desenvolvimento, a Economia, a Ecologia, etc.), porque tem feito intervenções a esse nível por todo o país (e porque – interpretamos – assume, mas com realismo, o projecto de uma sociedade segundo os mo-dos e as práticas de Jesus Cristo).
É autor de “Viver o Evangelho servindo a pessoa e a sociedade. Introdução à Doutrina Social da Igreja” (Gráfica de Coimbra). Foi um dos principais rostos do Congresso dos Leigos de Coimbra e pertenceu durante nove anos à Comissão Nacional Justiça e Paz. Actualmente, é membro da Comissão Coordenadora Nacional das Semanas Sociais e do Conselho Pastoral da Diocese de Coimbra. Colabora em vários órgão de imprensa, como o “Correio de Coimbra” e as revistas “Além-Mar” e “Mensageiro de Santo António”.
