“O bispo é aquele que ajuda a abrir as portas da Igreja para sairmos ao encontro dos outros”

No dia 14 de setembro, a Diocese de Aveiro acolhe o seu novo bispo, na Sé de Aveiro. A celebração da Eucaristia, presidida por D. António Manuel Moiteiro Ramos, será às 16h. Preparando este acontecimento decisivo na vida de uma diocese e dos seus cristãos, o Correio do Vouga colocou por correio eletrónico algumas questões ao novo pastor. A segunda parte da entrevista será publicada na próxima semana.

 

Correio do Vouga – O Sr. Bispo foi nomeado para Aveiro no dia 4 de julho e entrará na Diocese, solenemente, no dia 14 de setembro. Nestes dois meses, esteve algumas vezes em Aveiro. Que visão tem agora da nossa diocese?
D. António Moiteiro – O meu primeiro contacto com a Diocese foi na semana seguinte à nomeação, no dia 10 de julho, presidindo à Eucaristia durante o retiro dos sacerdotes. O encontro seguinte foi com o Colégio de Consultores, no dia 4 de agosto, para acertar os pormenores do início do ministério na diocese de Aveiro. Tive ainda alguns encontros com sacerdotes para falarmos de temas que lhes diziam respeito.
Posso afirmar que estes primeiros encontros têm sido com aqueles que serão os colaboradores mais próximos do bispo e isso deixou-me muito satisfeito.

Após estes dois meses, que realidades o preocupam mais?
Ainda não tenho o conhecimento suficiente da Diocese para responder à sua pergunta. O conhecimento da realidade diocesana não passa apenas pelos sacerdotes, nem por dois ou três encontros. Temos de ter a paciência do tempo que nos irá ajudar a ver os melhores caminhos a percorrer.

 

Que surpresas, positivas ou negativas, encontrou?
Este tempo é como que uma lua-de-mel e os problemas, se existem, virão a seu tempo.

 

Que problemas da comunidade humana o preocupam? Como pode a Igreja pode ajudar a enfrentá-los?
Como já afirmei, não conheço a realidade da Diocese, mas suponho que para além dos problemas específicos de Aveiro, há alguns que são comuns à vida de todos os portugueses: a crise económica trouxe consigo o drama do desemprego; a emigração dos mais jovens para o estrangeiro, sobretudo das famílias; a falta de esperança num futuro que se torna difícil prever segundo o estilo de sociedade em que vivemos. A Igreja, a partir do Concílio Vaticano II e da sua Doutrina Social não se cansa de afirmar que não temos soluções técnicas para os problemas, mas que o Evangelho tem em si uma força renovadora que pode inspirar a vida da sociedade, mesmo no campo da economia e da política. A última Exortação Apostólica do Papa Francisco, “A Alegria do Evangelho”, é um exemplo do que acabo de afirmar.

 

Disse em entrevista que há dois dinamismos que gostaria de continuar: o da Missão Jubilar e o da exortação do Papa Francisco, “A Alegria do Evangelho”. Quanto à Missão Jubilar, algumas pessoas temem que se tenha perdido a capacidade de mobilização dos cristãos, desde a nomeação, para todos inesperada, de D. António Francisco para o Porto (21 de fevereiro). Como pensa potenciar a herança da Missão Jubilar?
A vida de uma diocese ou das comunidades cristãs passa por traçar objetivos e metas que orientem a pastoral. A Missão Jubilar foi um destes momentos que aconteceu para celebrar os 75 anos da restauração da diocese de Aveiro. Houve um trabalho intenso e ele deve continuar: o ardor missionário, a paixão pelos mais frágeis da nossa sociedade, as famílias em dificuldade e o empenho em sermos discípulos missionários que saem das Igrejas para ir ao encontro das pessoas… São desafios que devem estar presentes continuamente na nossa ação pastoral.

 

Um dos frutos da Missão, a renovação das estruturas, dos serviços pastorais para melhor servir as pessoas, está por levar à prática. Pensa que o seu primeiro ano permitirá concluir esta renovação?
As estruturas são apenas auxiliares da ação pastoral. Sei que a vida de uma pessoa e da sociedade, se não for bem estruturada, não vai a lado nenhum. Mas também devemos ter em conta que as estruturas não podem «afogar» os dinamismos do Espírito de Deus. É esta tensão entre instituição e carisma que devemos ter em conta na renovação das estruturas e dos serviços pastorais para que cumpram melhor a sua missão. Vamos continuar o caminho encetado pela Missão Jubilar e entre todos descobrir os caminhos que Deus quer para a nossa Igreja diocesana.

 

Em relação à exortação apostólica, disse: “Se é programa para o pontificado do Papa Francisco, terá se der também programa da diocese para a qual fui nomeado bispo”. Prevê alguma iniciativa em concreto neste campo?
A Diocese tinha previsto no primeiro trimestre deste ano pastoral realizar assembleias arciprestais sobre a “A Alegria do Evangelho”, tendo em conta as conclusões da Missão Jubilar. É isso que vamos concretizar nos vários arciprestados e com os respetivos agentes da pastoral. A partir destes encontros veremos como começar a delinear algum programa de ação pastoral.

 

O Papa diz na exortação que um bispo deve “pôr-se-á à frente para indicar a estrada e sustentar a esperança do povo, outras vezes manter-se-á simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá caminhar atrás do povo, para ajudar aqueles que se atrasaram e sobretudo porque o próprio rebanho possui o olfato para encontrar novas estradas” (n.º 31). Julgo que poderíamos resumir este múnus em três verbos: inovar, acompanhar, conservar. Vê já algumas áreas da pastoral que correspondam a este seu múnus?
O pensamento do Papa podemos traduzi-lo de uma forma mais adequada nos verbos evangelizar, acompanhar e compreender. O bispo é aquele que ajuda a abrir as portas da Igreja para sairmos ao encontro dos outros e ajudarmos os que têm mais dificuldades a não ficarem para trás, a respeitarmos os que têm ritmos diferentes, mas ajudá-los a crescer.

 

O Papa Francisco diz ainda que cada igreja particular, isto é, diocese, é chamada à conversão missionária. O que tem de fazer a Igreja de Aveiro para que seja mais missionária?
Realizar o que diz Jesus no final do Evangelho de S. Mateus: «Ide, fazei discípulos em todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (28, 19-20). A pedagogia de Jesus é sair, ir ao encontro e fazer discípulos. Não podemos pensar mais em termos de cristandade, que venham ter connosco, mas somos nós que temos de ir ao encontro e fazer discípulos. É isto que faz de uma paróquia, de um movimento apostólico ou de uma diocese que seja mais ou menos missionária.

 

Sendo esta a primeira entrevista exclusiva do semanário da Diocese de Aveiro ao seu novo bispo, quer deixar alguma mensagem para os nossos leitores?
A credibilidade da Igreja passa pela capacidade que tivermos em criar espaços de fraternidade, onde todos juntos procuremos o rosto de Deus. Buscar o rosto de Deus é a missão do cristão e se puder ajudar neste caminho cumprirei a missão à qual o Senhor me chama nas terras de Aveiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A visita pastoral é uma das principais obrigações do bispo diocesano”

 

Os bispos de Aveiro têm feito visitas pastorais às paróquias, demoradas e intensivas. Tenciona continuar esta prática?
A visita pastoral é uma das principais obrigações, se não a primeira, do bispo diocesano. Sei que as visitas pastorais foram interrompidas durante o ano da Missão jubilar. Depois de falar com os sacerdotes dos arciprestados que ainda não tiveram a visita pastoral iremos recomeçar esse trabalho apostólico.

 

Os bispos gostam de se referir aos Seminários como “coração da diocese” e assumem sempre como preocupação a promoção das vocações. O Sr. Bispo não se referiu particularmente às vocações sacerdotais na sua saudação, mas já dedicou um dia para estar com os seminaristas maiores. Como vê o seminário? Pensa que deve haver um esforço direcionado para as vocações sacerdotais ou antes uma pastoral vocacional e ministerial mais alargada?
O seminário é, de facto, o coração de uma diocese. Sem um coração que irrigue as veias – as paróquias e as outras comunidades – não podemos pensar numa Igreja que seja verdadeiramente corpo de Cristo. Outra coisa é ajudar as paróquias a pensarem que os sacerdotes não caem do céu, mas nascem das comunidades. Paróquias que desejam ter pároco próprio mas que não se empenham no despertar de novas vocações é sinal de uma mentalidade que olha apenas para os seus interesses e não para a construção do Reino de Deus. Isto exige uma Igreja toda ela ministerial e onde as várias vocações caminhem rumo à santidade.

 

Fala-se muito da falta de sacerdotes. Não será esta época de escassez de padres, uma oportunidade para um novo entendimento pastoral e ministerial? Não haverá ainda muitos trabalhos que são desempenhados pelos padres que podem ser feitos pelos leigos?
A falta de sacerdotes tem sido uma oportunidade para olharmos a Igreja no conjunto dos vários ministérios ou serviços prestados à comunidade e não nos centrarmos apenas no ministério ordenado. Se é verdade que após o Concílio de Trento se organizou a formação dos sacerdotes através da criação dos seminários, também é verdade que com a eclesiologia do Concílio Vaticano II os leigos ocuparam o lugar que lhes pertence na Igreja. Os sacramentos que estão na base da pastoral são os sacramentos da iniciação cristã e não o sacramento da ordem. A formação dos leigos é uma exigência da receção do Vaticano II e neste período de ignorância religiosa muito temos a fazer.

 

Tendo os leigos uma identidade e missão próprias e perante algum novo clericalismo, um pouco por toda a Igreja, não será necessário centrar esforços na revitalização do papel dos leigos?
Gostaria de referir que há dois perigos que devemos evitar na nossa pastoral: secularizar os sacerdotes e clericalizar os leigos. Esta é uma tentação sempre presente na vida da Igreja. Os leigos têm um papel insubstituível ao levarem o Evangelho aos vários âmbitos da sociedade. A presença do Evangelho na família, no mundo do trabalho, da política, do desporto… passa pelo lugar que os leigos ocupem nesses espaços da sociedade. A vocação própria do leigo é animar cristãmente as realidades temporais.