Paradoxos

1. Alguma comunicação social, sobretudo a de maior impacto mediático, tem um indiscutível poder cultural, gerando uma onda de mentalidades esperançadas no efémero, a qual, sem dar por isso, se torna extremamente frágil e incapaz de sonhar projectos e construir realidades consistentes.

Todas as vidas são de inestimável valor. Mas nem todas são igualmente construtoras de futuro e esperança. Precisamente porque umas incarnam ideais e sonhos efémeros, enquanto outras cimentam e desenvolvem ideais persistentes, “produtivos”, semeadores de esperanças e realizadores de caminhos visíveis de futuro.

Dói ver partir um jovem. Mas a exploração emocional mediática que se fez deixou muitos jovens na penumbra do desencanto, de braços caídos ante o “fatídico”. Fixados no efémero do ídolo, nem sequer alcançam a profundidade da perda, porque depressa tudo o vento levará.

Deixaram-nos, entretanto, duas gigantescas figuras: um industrial, com a instrução mínima, que subiu a pulso, gerando e levando a cabo um projecto de produção de trabalho e riqueza; e uma mulher que viveu a política por vocação, entregue apaixonadamente às causas mais nobres da vida, da família, do país. E quase se não deu por ela, uma vez que os minutos de antena não tiveram comparação com os dedicados ao primeiro caso.

Afinal: que valores e projectos quer propor aos jovens alguma comunicação social?

2. Todos ouvimos que o futuro só é possível com uma mudança de mentalidade: de consumidores sem controlo, temos de passar a organizar uma vida sóbria, que produza mais e consuma menos. Mas nem todos percebemos que isso é um desafio para todos os portugueses.

Vejamos. Faz-se um piquenique contra a precariedade e falta de emprego; mas gastam-se dezenas e centenas de euros para se vir de longe, para encher estádios de futebol, para estar presente em concertos…

O mais grave de tudo isto é que esses milhares e milhares de euros, que achamos que não devem ser investidos em produção, vão alimentar fortunas da artistas, de desportistas, essencialmente para fora do país. Quem e donde são as bandas que vêm ganhar milhares? Quantos atletas estrangeiros ganham o dinheiro dos nossos clubes?

Nunca os orçamentos desportivos fizeram tal afronta à pobreza do País, que, depois, não tem para promover o desporto escolar como vertente educativa. Nunca se organizaram tantos e tão volumosos festivais de verão, para depois não haver dinheiro para se fomentarem as artes.

Algo vai mal na cabeça de muita gente, quando se prefere o circo ao pão, quando se estima o espectáculo mais do que o trabalho!…