As férias trazem sempre consigo um abrandamento da actividade pastoral de fundo, mesmo que se multipliquem festejos ditos religiosos e aumentem as sacramentos com aparato social, especialmente casamentos e baptismos. Também por força de muitos emigrantes, que desejam vir celebrar estes acontecimentos nas suas terras de origem.
Todavia, o próximo ano está aí. E este afigura-se sobremaneira exigente, uma vez que a Diocese decidiu empreender uma tarefa tão urgente como ciclópica: dar corpo a uma verdadeira pastoral da caridade. Sem dúvida, o bem da pessoa humana é a glória de Deus. E há muitos défices, muitas feridas, muitos absurdos, nesse bem da pessoa humana concreta, que integra as nossas comunidades, que faz parte do nosso tecido social.
Proponho-me, por isso, retomar algumas frases, algumas reflexões e decisões do II Sínodo Diocesano de Aveiro, como simples contributo a uma preparação do novo ano apostólico.
“A pastoral da caridade está no mesmo pé de igualdade da pastoral profética e da pastoral litúrgica, pois a Igreja exprime-se harmoniosamente na tríplice acção eclesial, que se inspira em Jesus Cristo Profeta, Sacerdote e Rei”. Esta é uma das referências teológicas da reflexão sinodal.
Significa que a Igreja, para ser sacramento de Jesus Cristo, não pode zelar apenas o anúncio da Mensagem e a celebração do Mistério. Acolhendo as palavras do Mestre “Sempre que o fizeste (ou não fizeste) ao mais pequenino dos meus irmãos, a Mim o fizeste (ou não fizeste)” e também a sentença de S. João “Quem diz que ama a Deus, a Quem não vê, e não ama os irmãos, a quem vê, é mentiroso”, a Igreja só cumpre a sua missão empenhando-se verdadeiramente numa acção junto dos pobres e com os pobres, assumindo-os como sua riqueza e caminho de seu testemunho credível, razão de ser primordial própria da sua existência.
Que passos vamos dar para “Entender e apreciar o serviço sócio-caritativo em cada paróquia como expressão integrante da vida pastoral e verdadeira acção eclesial”, se é tão grande a dificuldade de fazer que os nossos cristãos percebam que há pobres, múltiplas formas de pobreza, urgência em ser comunidade eucarística que transborde para esta realidade humana degradada com a força da regeneração?
Quais os caminhos de discernimento de vocações para este serviço na Paróquia, tomado como expressão por excelência do amor de Deus mediado por nós no seio das famílias, junto das pessoas?
Não deveríamos deixar por metade – ou menos! – o entusiasmo que nos espevita para esta missão eclesial. Se ela é de sempre, este é um tempo oportuno, em meio de um feroz individualismo, de um culto egoísta do consumo.
Q.S.
