Pensar diferente, viver melhor

 

A Utilidade do Inútil
Nuccio Ordine
Faktoria de Livros
204 páginas
10 euros

 

O que o dinheiro não pode comprar
Michael J. Sandel
Editorial Presença
238 páginas
15,90 euros

 

Desperdício Zero
Bea Johnson
Editorial Presença
344 páginas
18,50 euros

 

Há diversos pontos de contacto entre estes três livros, embora, na realidade, nenhum dos autores queira falar do assunto dos outros. Em “A Utilidade do Inútil” (Faktoria de Livros) o autor quer persuadir-nos de que o inútil também é útil. Mas o que entende por inútil? São aquelas coisas a que numa primeira abordagem, mais prática e a pensar nos cifrões, são desvalorizadas pelo pensar dominante: as humanidades, a poesia, a pura investigação teórica… Nuccio Ordine opõe-se ao utilitarismo, ou, como alguns preferem, à visão economicista da vida. “A utilidade dos saberes inúteis contrapõe-se radicalmente à utilidade dominante que, em nome de um interesse económico exclusivo, vai matando progressivamente a memória do passado, as disciplinas humanísticas, as línguas clássicas, a instrução, a investigação livre, a fantasia, a arte, o pensamento crítico e o horizonte cívico que deveria inspirar todas as atividades humanas” (p. 10).
Noutro ponto do livro, insurge-se contra a tendência de transformar alunos em clientes, algo típico das universidades norte-americanas, mas que também está patente, em crescendo, noutras. “Pagando muito cara a sua inscrição em Harvard – escreve na p. 88, citando um jornal –, o aluno não espera que o seu professor seja douto, competente e eficaz; espera também que ele seja submisso, uma vez que o cliente é rei”. A consequência é: “As universidades, infelizmente, vendem diplomas e licenciaturas… foram transformadas em empresas” (p. 89).
Esta mercantilização do ensino é um dos fenómenos analisados em “O que o dinheiro não pode comprar” (Ed. Presença)… mas compra. Os alunos podem não ser brilhantes para entrarem nas universidades de topo. Não há problema, desde que “os pais abastados estejam dispostos a despender quantias substanciais de dinheiro” (14). Tudo à venda. Em Dallas, as escolas básicas pagam aos miúdos por cada livro que leem – uma forma de incentivar a leitura. Há companhias de seguros que oferecem centenas de dólares para que os seus segurados obesos percam peso. Nem tudo se passa “na América”. Os vistos portugueses em troca de um grande investimento (imobiliário ou gerador de emprego) inserem-se no “Compre casa e obtenha a Carta Verde” (que possibilita a residência nos EUA). Na Nova Zelândia, uma companhia de aviação pagou por tatuagens temporárias na cabeça rapada de uma série de pessoas. Novamente nos EUA, uma senhora pôs a sua testa à venda num leilão online. Quem pagasse dez mil dólares poderia usá-la para fazer publicidade com uma tatuagem permanente. Um casino pagou. São imensos os casos de “triunfalismo do mercado”. Todo o livro é sobre isso. Sobre essa escravidão tolerada. “Um tal tratamento não valoriza devidamente os seres humanos – como pessoas merecedoras de dignidade e respeito e não como instrumentos de obtenção de lucro e objetos de uso” (p. 19). É preciso repensar os mercados e questionar “o vazio moral da política contemporânea”. O livro, do meu ponto de vista, não propõe muitas soluções, mas como diagnóstico é excelente. Outro dos casos relatados foi a venda de bilhetes para as missas de Bento XVI nos EUA. A venda – repudiada por todas as instâncias eclesiásticas – era feita por quem açambarcava os bilhetes que davam acesso aos espaços necessariamente limitados. Muitos católicos preferiram pagar algo (até 200 dólares) para estar com Bento XVI numa missa ou numa audiência, a estarem numa fila (a “ética da fila”, como lhe chama Michael J. Sandel). O mesmo tem acontecido em Roma, nas audiências com o Papa Francisco, como ele próprio há dias reconheceu e denunciou (CV, 18-01-2017, p. 7).
Francisco permite-nos saltar para o terceiro livro, “Desperdício Zero”, não só porque tem falado contra o “descarte” de pessoas e de recursos, ou porque apoiou os “cartoneros argentinos” (pessoas que recolhem resíduos urbanos para reciclagem), mas principalmente por causa da encíclica ecológica “Laudato Si”. Não sei qual a pertença religiosa da autora, Bea Johnson. Ter nascido em França (vive na Califórnia) e ter falado em várias universidades católicas sobre este livro não é suficiente para imaginar se conhece algo da encíclica da “casa comum”. Mas o espírito do livro insere-se claramente na “ecologia da vida quotidiana”, nas “linhas de orientação e ação”, na “educação e espiritualidade ecológicas” que o Papa sugere.
Bea Johnson propõe um estilo de vida com base em cinco regras: Recusar, Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Compostar. Graças a estes verbos – e todo o livro é uma demonstração de como se podem aplicar a todos os âmbitos da vida, todas as divisões da casa, todos os momentos do dia –, passou da produção de 240 litros de lixo por semana para quilo e meio por ano. O tal desperdício zero. Sim, cabe num frasco de compota. Não será para todos? Ela defende que sim. E com muita convicção. Até já lhe chamaram “sacerdotisa” e “messias da ecologia”. O livro diz como, na cozinha e nas compras, na casa de banho e nos artigos de higiene, no guarda-roupa, com as crianças e na escola, nas festas e nos presentes… “Hoje em dia – escreve no início do livro – quanto menos posses tenho, mais rica me sinto. E não tenho de levar o lixo à rua!”
Jorge Pires Ferreira