Pensar a paróquia O serviço dos pobres faz parte indiscutível da missão da Igreja. Este serviço reveste, conforme as circunstâncias e necessidades, uma variedade de formas que a história, quase sempre, regista com verdade. Jesus é claro nas suas opções e nos seus ensinamentos. As comunidades primitivas criam um estilo de vida interpelante para o meio em que se situam, causando admiração e simpatia: vede como se amam; põem tudo em comum; não há necessitados.
Estas expressões, ainda que representem mais um ideal do que uma realidade generalizada, manifestam a relação entranhável que existe entre a prática da caridade, a partilha de bens e a luta contra a pobreza. São três elementos indissociáveis. A reflexão doutrinal – de que a Patrística é porta-voz qualificada – chega a afirmar que os pobres são “vigários de Cristo”, “sacramentos” da sua presença e acção, seu rosto para ser reconhecido e sua voz para ser ouvida. Quem despreza o pobre insulta a Deus.
O vigor teológico da relação profunda entre a autenticidade da fé e a prática da caridade nem sempre brilha com igual intensidade. Longos períodos da história atestam não o seu ocaso, mas o seu encobrimento por “nuvens” de cumplicidade com as forças dominantes, quer no campo do poder político, quer no da compreensão religiosa. Apesar disso – que hoje se avalia de forma muito negativa –, há sempre alguém que ergue a voz e suscita a resposta possível. E quem tiver olhos “sem traves nem argueiros” pode ver nos séculos passados uma linda história de amor, feita de pequenos gestos e de grandes acontecimentos, protagonizados por pessoas anónimas ou por gente ilustre. A seiva fertilizante desta história é a caridade que – qual arco-íris – reveste as cores das necessidades humanas e sociais.
O protagonismo da Igreja no serviço dos pobres é afectado pela progressiva tomada de consciência do poder político organizado em Estado. Os últimos séculos, sobretudo o 19 e o 20 – mostram de forma clara esta evolução. Os poderes públicos chamam a si as tarefas assistenciais, ainda que tenham de “cilindrar” instituições de bem-fazer credenciadas. As correntes liberais, republicanas, colectivistas e tantas outras que advêm, forçam os factos e criam situações adversas a estas instituições, limitando-as ou banindo-as. A Igreja, por meio das paróquias, misericórdias, ordens religiosas e outros grupos beneméritos, é profundamente abalada e muitas das suas obras são espoliadas e transitam para a administração do Estado.
Esta passagem “forçada” deixa a claro, com frequência, que as organizações da Igreja ficam livres de ocupações, mas impelidas pela força da caridade começam a prestar atenção às novas necessidades surgidas. E a “questão social” vem aumentar e agravar o número dos pobres com a classe dos proletários. Aquela passagem deixa igualmente a claro que o Estado não tem alma e reduz quase tudo a medidas legais, alguns subsídios rigidamente atribuídos e fiscalizados, esquecendo que a necessidade não tem hora e todo o pobre é pessoa. Deixa ainda a claro que a eficácia dos serviços está condicionada não só pela competência técnica dos funcionários – sempre indispensável – mas pela relação de ajuda, de proximidade e de compreensão. A ninguém pode ser retirado o direito de ser pessoa, com tudo o que esta verdade comporta e exige.
A evolução do Estado moderno chega a configurar-se no Estado de bem-estar social, que pretende cuidar dos cidadãos “do berço à sepultura”. Em poucos países se consegue realizar tal objectivo. Nem admira. O Estado não constitui uma entidade proprietária das pessoas, nem uma organização à margem da sociedade e superior a ela. Não é função sua forjar o cidadão, assenhoreando-se da educação, usurpando a escola ou manipulando os grandes meios de comunicação. Não lhe pertence invadir o santuário da consciência ou da família, nem fazer das minorias aguerridas a voz da Nação.
Mas, na feliz expressão de Pio XII, na mensagem de Natal de 1944, durante a II Grande Guerra, “deve ser a unidade orgânica e organizadora dum verdadeiro povo”, um serviço à sociedade civil a fim desta se organizar e fazer convergir todos os seus esforços, potencialidades, projectos e instituições para o bem comum, ou seja, de todas as pessoas e da pessoa toda.
A melhor prova da sua legitimidade consiste na prática universal dos direitos humanos fundamentais. A haver discriminação – que seja positiva – a favor dos que se encontram em situação de exclusão social, de desemprego crónico ou de longa duração, de pobreza extrema ou miséria histórica. O teste da autenticidade das suas políticas sociais coincide com a ajuda efectiva aos pobres para que se libertem da pobreza.
É missão da Igreja ser consciência crítica da dignidade da pessoa humana e, nela, de tudo o que a favorece, menospreza ou degrada. Manifesta esta consciência pela intervenção dos cristãos – cidadãos como quaisquer outros – em todos os espaços sociais, políticos, económicos, religiosos. Está em causa a “construção” de uma sociedade digna da condição humana que, por sua vez, é “espelho” do ser original do nosso Deus.
A paróquia surge como um dos espaços religiosos privilegiados: congrega assembleias significativas, faz celebrações em que reconhece os limites (pecados) e as capacidades dos seres humanos, proclama uma palavra divina de fraternidade universal, sela esta palavra com gestos de comunhão e de paz, proclama e oferece continuamente o exemplo de Jesus Cristo que se fez pobre para nos enriquecer, organiza serviços de atendimento pessoal no domicílio ou noutros locais, desperta energias de humanidade e encaminha-as para formas de voluntariado social e missionário, apela continuamente à renovação dos seus membros, para saberem estar presentes e serem solidários numa sociedade em que as desigualdades se agravam progressivamente, apesar dos esforços contrários de muitos cidadãos.
A paróquia, enquanto Igreja de “portas abertas”, interage com o meio em que se situa. Recebe e dá. Faz a permuta de dons. “Os pobres são a sua cruz e alegria”. Por eles, todos os seus membros se devem interessar. Com eles, muitos devem estar. Como eles, alguns devem ficar e trabalhar para, juntamente, avançarem nos caminhos da sua promoção libertadora.
