PRESIDIR À EUCARISTIA EM NOME DE CRISTO (3)

Notas Litúrgias 3. A doutrima de S. Tomás de Aquino

Ao longo dos tempos, a teologia tem conservado esta expressão in persona Christi que, infelizmente, alguns tradutores de documentos conciliares, não se dando conta de se tratar de uma fórmula técnica, consagrada pela tradição teológica, passaram-lhes por cima, ignorando a sua significação exacta, como é o caso, por exemplo, de uma edição francesa dos textos do Concílio publicados em Paris (Ed. Centurion, 1967, p. 397), onde a expressão foi traduzida deste modo «em nome de Cristo Cabeça em pessoa». A própria frequência com que o Concílio usou a expressão, mostra a importância que lhe atribuía, em função de uma compreensão própria do sacerdócio ministerial. Daí, que não será inútil recordar a sua origem e aprofundar o seu significado.

Foi, sobretudo, S. Tomás quem tornou clássica esta fórmula que se encontra frequentemente nos seus escritos.

Várias vezes a refere a um texto da segunda Carta aos Coríntios, que ele cita segundo a Vulgata: «Nam et ego, quod donavi, si quid donavi, propter vos, in persona Christi» (“porque o que eu perdoei, se nalguma coisa o fiz, foi por amor de vós que o fiz, na pessoa de Cristo” – II Cor, 2, 10). É um contra-sentido evidente: o grego diz enprosopo Christou, que quer dizer «em presença de Cristo» ou «sob o olhar de Cristo». De qualquer maneira, apesar da predilecção que S. Tomás manifesta por esta citação, ainda pode acrescentar outra, tirada da mesma Carta: «Pro Christo, legatione fungimur, tanquam Deo exhortante per nos» (“Somos, portanto, embaixadores ao serviço de Cristo, como se Deus os exortasse por meio de nós” ­– II Cor 5, 20). Desta vez, não se trata de um contra-sentido, nem muito menos de uma acomodação: o Apóstolo ao exortar os Coríntios a «deixarem-se reconciliar com Deus», afirmava com força: «Cristo confiou-nos o ministério da reconciliação…; Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo… e pôs nas nossas mãos a palavra reconciliação». Portanto, é no sentido mais forte que se deve tomar a conclusão: «Somos embaixadores de Cristo… como se Deus os exortasse por meio de nós». A palavra do Apóstolo exprime a própria palavra de Deus, ou melhor, Deus pronuncia a palavra de reconciliação pela boca do Apóstolo.

A fórmula in persona Christi, esclarecida assim por esta perspectiva paulina, significa antes de mais que os bispos, sucessores dos Apóstolos, e os sacerdotes, seus cooperadores, são embaixadores de Cristo e falam em seu nome. Neste sentido, S. Tomás diz também ex persona Christi, uma expressão que encontrava na vulgata a propósito dos mensageiros de Jefté ao rei de Amon (cf. Jdt 11, 12).

Pelo que, a missão dos ministros de Cristo não se limita à palavra que, além do mais, é eficaz; actuam no nome do Senhor, cumprem a sua missão, tomam o seu lugar; e isso, não só quando exercem o ministério propriamente sacramental, mas, é claro, em toda a sua actividade eclesial: «Prælatus, diz S. Tomás, in Ecclesia gerit vicem Dei…, in persona Dei determinat quid sit acceptum» (O prelado na Igreja faz as vezes de Deus; em seu nome determina o que deve ser aceite – Summa Theol., IIa IIae, quaest. 88 art. 12 corp.).. «Christus este caput Ecclesiæ propria virtute et autoritate: alii vero dicuntur capita in quantum vicem gerunt Christi» (Cristo por virtude e autoridade própria, é cabeça da Igreja: aos outros, se lhes diz cabeça enquanto fazem as vezes de Cristo). Actuar in persona Christi, equivale, pois a fazer as vezes de Cristo, fórmula que voltaremos a encontrar no Decreto Presbyterorum Ordinis do Vaticano II.

SDPL