
Primeira manifestação dos católicos foi há 40 anos, em Aveiro, pela liberdade de imprensa, em apoio aos bispos, pela democracia.
“Existem cristãos em todas as diocese de Portugal. Oxalá que o exemplo de Aveiro desperte os cristãos do Minho ao Algarve e que se apresentem assim em massa, a apoiar os seus bispos. Que os cristãos, se porventura têm vivido adormecidos, acordem finalmente. Acordem! Acordem!”
Com estas palavras, a que se seguiu o Hino Nacional, D. Manuel de Almeida Trindade encerrou a manifestação dos cristãos de 13 de julho de 1975, em pleno “verão quente”. A manifestação surgiu para apoiar os bispos contra a ocupação da Rádio Renascença pelas forças revolucionárias, pela liberdade de imprensa, mas representou muito mais do que isso. Foi o início do levantamento do país contra a tentativa de usurpação dos poderes pela esquerda não democrática, no chamado PREC, Processo Revolucionário em Curso.
Na organização da manifestação esteve o P.e José Belinquete, que relatou ao Correio do Vouga que acedeu a organizá-la depois de ter sido contactado pelos padres José Henriques (atual pároco de Avanca) e Alfredo Rei (pároco da Moita, Anadia, já falecido) e de ter consultado um grupo de padres e leigos, reunidos separadamente no Seminário de Aveiro, no dia 8 de julho de 1975. Ouvidos em primeiro lugar os leigos, uma senhora de Aveiro, Judite, foi a primeira defender a manifestação em apoio dos bispos pela manutenção da Renascença como rádio católica. Perante tanto entusiasmo, os padres, falando a seguir, acabaram por concordar. Entre eles, o pároco da Vera Cruz, P.e Manuel Fernandes, que não era adepto de uma ação nas vias públicas. Isto passou-se numa terça-feira. A manifestação seria no domingo seguinte. D. Manuel de Almeida Trindade foi informado, concordou, e, tendo de ir a Roma (era então presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e tinha de acompanhar as obras do Colégio Português), decidiu antecipar o regresso, de forma a estar em Aveiro no dia 13. Para despistar possíveis opositores à manifestação, chegou a Lisboa (de Roma) no dia 12 e partiu para Coimbra na manhã da manifestação, “onde teria mais facilidade de saber o que se estava a passar”. Saiu de Coimbra depois do almoço, no “foguete”, e, meia hora depois estava em Aveiro, sendo recebido com palmas pela multidão que o esperava na estação da CP.

à sua esquerda, Mons. Aníbal Ramos e, logo atrás, José Naia
Na primeiras palavras que dirigiu à multidão, no largo da Sé – é difícil assegurar que estiveram 40 mil a 50 mil pessoas, como dizem, segundo o Correio do Vouga de 18 de julho de 1975, a “televisão alemã” e a “televisão alemã”, mas foi certamente a maior manifestação já realizada em Aveiro –, D. Manuel afirmou: “Eu sinto-me plenamente à vontade, hoje, em Aveiro. E sinto-me plenamente à vontade, em primeiro lugar, porque eu não promovi esta manifestação. (…) Estamos todos aqui por direito próprio, de cidadãos e de cristãos que sabem que têm o seu lugar nesta sociedade nova que é preciso construir de novo”.
Apesar de algumas páginas já escritas na imprensa sobre a manifestação dos cristãos de Aveiro, muito há a aprodundar, porque mesmo obras que se dedicam à Igreja católica e os inícios da vida democrática têm ignorado esta manifestação exemplar que motivou muitas outras pelo país. Como nota final, refira-se que o P.e Belinquete, como contou ao Correio do Vouga, foi contactado por um padre bracarense que queria pôr todas as igrejas da arquidiocese a tocar a rebate. O sacerdote de Aveiro convenceu o colega de Braga a não o fazer. Contudo, a manifestação bracarense não seria tão pacífica como fora a de Aveiro.
J.P.F.
