«Que fizeste do teu irmão?»

M. Oliveira de Sousa Professor
M. Oliveira de Sousa
Professor

Fazemos repercussão, com extratos, da nota da Comissão Nacional Justiça e Paz.
Somos hoje confrontados com o mais grave êxodo de refugiados na Europa desde os tempos da 2.ª Guerra Mundial. De um modo geral, estas pessoas são vítimas da guerra, da opressão ou da miséria extrema. O desespero e a vontade de salvar as suas vidas e de assegurar um futuro para as suas famílias levou-as a efetuar viagens em condições desumanas, muitas vezes à mercê de associações criminosas. Não são potenciais terroristas; pelo contrário, muitas delas fogem da violência gerada pelo fundamentalismo.
Quando estas pessoas nos batem à porta, não podemos reagir com indiferença. São nossos irmãos e irmãs, membros da única família humana, que reclamam a nossa ajuda.
A defesa da identidade europeia não pode servir de pretexto para distinguir entre refugiados cristãos perseguidos por causa da sua fé (como são, na verdade, alguns deles) e outros refugiados. A novidade do cristianismo reside no amor universal, que não faz aceção de pessoas, que não se limita aos círculos da família, do clã, dos amigos ou da nação.
Mas as situações de onde fogem estes refugiados, que os fazem assumir os riscos que assumem, são, de um modo geral, muito mais graves do que aquelas com que nos deparamos em Portugal.
Não pode, por isso, contrapor-se a solidariedade para com estes refugiados à solidariedade que continua a ser devida aos portugueses que sofrem: uma não exclui a outra.
No mundo globalizado de hoje, o que acontece no Médio Oriente em África ou noutras zonas do globo tem sempre repercussão na Europa, e este êxodo de refugiados comprova-o.
Por isso, o imperativo do acolhimento destes refugiados responde a uma situação de emergência, que não pode levar-nos a esquecer a importância de atacar na raiz os problemas que estão na origem deste êxodo; guerras, violações de direitos humanos, miséria extrema.
De modo especial e de imediato, há que buscar incessantemente o fim das guerras de onde fogem estes refugiados: na Síria, no Iraque, na Líbia ou no Sudão. Para tal, há que, antes de tudo, mobilizar todos os esforços diplomáticos da comunidade internacional e pôr termo ao fornecimento de armas que alimenta tais guerras.
Este drama dos refugiados tem suscitado em muitos países europeus um movimento espontâneo de solidariedade que envolve pessoas de diferentes convicções. Está a vir ao de cima uma generosidade que parecia escondida nas nossas sociedades marcadas pelo egoísmo e onde se temem os perigos do recrudescer do racismo e da xenofobia.