Escolaridade ou educação

Querubim Silva Padre. Diretor
Querubim Silva
Padre. Diretor

O novo ano de trabalho educativo está a começar. E insisto em dizer “trabalho educativo”, para contrariar a tendência institucional de empregar o termo escolar, em vez de educativo, e alguma apetência dos pais ou encarregados de educação pela excelência de aquisição de conhecimentos, em detrimento, muitas vezes, da formação da personalidade. E depois, algumas vezes, os crânios dão monstros, com atos tragicamente surpreendente.
Todos sabemos, mas não se perde por insistir que os alunos passam hoje a maior parte do tempo na escola, que se perpetua essa presença por um lapso bem alargado de anos. E é nesse espaço físico e humano que se desenvolve a socialização e se plasma a matriz cultural e de valores que há de marcar predominantemente a sua rota de vida.
Portanto, a escola tem de se assumir como lugar de educação, como comunidade educativa e não apenas como comunidade de conhecimento. A teia de relações interpessoais, a transversalidade de valores de trabalho, honestidade, cooperação, respeito, acolhimento…, reclamam dos protagonistas da comunidade educativa um empenho muito para além da transmissão e aquisição de conhecimentos.
É por essa escola que trabalhamos, é essa escola que defendemos e afirmamos como necessária para a formação de cidadãos equilibrados e ativos. E essa não é uma tarefa da facilidade. Por esta razão, queremos deixar aos leitores algumas palavras do Papa Francisco, na recente entrevista concedida à Rádio Renascença. Aí estão elas!
“O que é que pode tocar a liberdade de alguém que “faz o que quer” e que foi educado desde pequeno com um conceito de felicidade para quem “a felicidade é não ter problemas”? Em geral, educam-se as crianças com este desejo de que a felicidade é “não ter problemas e fazer o que se quer”.
Uma vida sem problemas é aborrecida. É um tédio. O homem tem, dentro de si, a necessidade de enfrentar e de resolver conflitos e problemas. Evidentemente, uma educação para não ter problemas, é uma educação asséptica. Faça a experiência: beba um copo de água mineral, de água comum, da torneira; depois pegue num copo de água destilada. Enjoa!…mas a água destilada não tem problemas… É como educar as crianças no laboratório, não é? Por favor!
Arriscar é importante?
Correr o risco, propor sempre metas! Para educar, faz falta usar os pés. Para educar bem, há que ter um pé bem apoiado no chão e o outro pé levantado mais à frente; e ver onde o posso apoiar. Quando tenho apoiado o outro, levanto este e… Isso é educar: apoiar-se sobre algo seguro, mas tentar dar um passo em frente até que o tenha firme. Depois, dar outro passo. Dá mais trabalho educar assim…
É arriscar! Porquê? Porque posso pisar mal e cair… Pois bem: levanta-te e segue em frente!
Na onda individualista em que vivemos – falou nisso em Estrasburgo – parece um capricho exigir direitos, sempre mais direitos separados da busca da verdade. Crê que isto é também um problema na maneira de viver a fé?
Pode ser… Sempre com mais exigências, sem a generosidade de dar. Ou seja, é exigir só os meus direitos e não os meus deveres perante a sociedade, não é? Eu creio que direitos e deveres caminham juntos. Senão, isso cria a educação do espelho; porque a educação do espelho é o narcisismo; e hoje estamos numa civilização narcisista.
E como é que ela se vence, como se combate?
Com a educação, por exemplo, com direitos e deveres, com a educação dos riscos razoáveis, procurando metas, avançando e não ficando quieto ou a olhar ao espelho… Não vá acontecer-nos como aconteceu ao Narciso que, de tanto se olhar espelhado na água e se achar tão lindo, tão lindo, “blup”, afogou-se.”
Vencer dificuldades, ter problemas, arriscar, não é escolaridade, mas é educação!