Estes dias têm sido fecundos na produção dos mais diversos comentários ao facto – o discurso de Bento XVI em Ratisbona – e às reacções, sobretudo os fundamentalismos degenerados em violência. Também o nosso jornal procurou – ainda hoje mesmo – dar aos leitores os elementos que considera úteis para uma leitura crítica de todo o problema.
Aqueles que procuram equacionar as questões com razoabilidade põem em exercício o seu conhecimento das religiões, da sua génese, da sua história, do seu dinamismo, do seu conteúdo, podemos dizer. E é com esse conhecimento, mais ou menos notório, que produzem argumentos indicativos dos caminhos do diálogo e da tolerância.
O que me faz vir ao assunto é a consciência da generalizada ignorância, por parte das multidões, precisamente do cerne – genético, histórico, dinâmico, doutrinal… – das religiões; neste caso, do cristianismo e do islão. E falo das multidões de portugueses, em cuja matriz cultural se cruzaram fundamentalmente estas duas religiões, acrescidas do judaísmo.
Quando se discute – e bem – como melhorar a Educação nos próximos dez anos em Portugal, parece esquecer-se – ou pretende ignorar-se – que esta mistura se encontra no nosso ‘adn’ cultural. Mas, mais do que isso, ela é uma forte realidade do quotidiano na sociedade portuguesa, em virtude dos recentes fenómenos migratórios. Está mesmo dentro dos espaços educativos de relevo, que são as nossas escolas.
Daí que não se trate de conceder privilégios a quem quer que seja incluir nos currículos escolares o estudo das religiões – ao menos destas religiões, dado que elas são a fonte de muitas outras diversidades de menor importância. Uma abordagem cultural. Mas também a oferta dos seus valores e dinamismos, dos seus conteúdos fundamentais, sem proselitismos, naturalmente.
O verniz da neutralidade militante estalará, no momento em que possam confrontar-se divergências. Se nos conhecemos, podemos reconhecer-nos. Nessa altura, poderemos dialogar, encontrar motivo de empenhos comuns. E sempre encontraremos, mais do que tolerância passiva, atitudes de respeito e compreensão.
Atenção, portanto, senhores da Educação! É imperioso que repensem o lugar dos conteúdos, das convicções, das atitudes religiosas, nos currículos, desde os mais tenros anos de vida. Por que razão se há-de apagar a identidade pessoal, eliminando a identificação das diversidades?… É bem mais construtivo pôr em sinergia grupos distintos, que se conhecem e se respeitam.
