Reconciliação nacional

O País está em sobressalto. Muitos portugueses interrogam-se, seriamente e com razão, como será possível não apenas reencontrar a esperança mas reencontrar estilos de vida, embora novos, mas que permitam a todos uma vida com dignidade.

É facto que não vale a pena perguntar para onde foi o dinheiro. Se é certo que a subtil rede financeira subjacente às decisões, estratégias e programas políticos, os neutralizou, os enredou em compromissos e caminhos de corrupção, também é verdade que uma grande parte do povo imaginou e construiu castelos nas nuvens, sonhou e quis viver consumismos faustosos.

É importante não confundirmos indignação – legítima, por causa do ludíbrio dos “artistas” da finança e das políticas – com insulto, anarquia, com uma ideia platónica de democracia popular, impossível de construir, com insurreição estéril. A participação cívica e social tem de ser uma preocupação de quem tem obrigação de promover a democracia. Mas sabemos bem quantos oportunismos se escondem também por detrás de uma aparente defesa dos interesses do povo.

No horizonte cristão da pessoa e sociedade segundo o plano de Deus, a denúncia da injustiça tem pleno lugar. A responsabilização do crime económico, político, social, físico, moral… é um imperativo. E não só a responsabilização como a reparação da falta. Mas tem de ser acompanhada de propostas positivas. E, sobretudo, na luz da máxima evangélica: “a verdade na caridade”.

E aqui a originalidade do cristianismo reveste-se de proximidade, de acolhimento, de reconciliação, de perdão. A responsabilização e mesmo o castigo justo não podem executar-se com sentimentos de vingança, de rancor. É com amor que se faz a transformação das pessoas e dos grupos. Com excesso de amor, como diz o P.e Tolentino Mendonça, no seu livro Pai-Nosso que estais na Terra:

“Perante as marcas de desamor em nós, os arranhões da ofensa, as ruturas do sofrimento, só um excesso de amor (e o perdão é isso, um excesso de amor) pode restabelecer a unidade da imagem e semelhança de Deus em nós. Só o excesso de Amor permite compreender o perdão. Este perdão imprevisível, este perdão sem condições nem medida, este perdão capaz de nos fazer levantar”.

Estará na hora de promover uma reconciliação nacional. Só nela poderá residir a força que nos faça levantar de novo, como nobre povo, nação valente! Com a abertura a todas as culturas e povos, que nos caracterizou. Mas com a firmeza de uma identidade própria, que não ignore as suas raízes mais profundas, que bebem no projecto de Deus o projecto do Homem!