Respostas para novas perguntas

Não sei. “Opinião pública é a opinião que se publica” (Millôr Fernandes). A ironia tem sempre uma porta aberta nas mentes inteligentes. Mas a inteligência, na raiz etimológica, não está fácil de exercer, parece estigma e vai evoluir lentamente, pois a leitura fundamentalista cresce. Há conflito de interpretações. Porém, no ser humano uma coisa é certíssima: a sua capacidade infinita de adaptação. Ao bom, ao mau, e ao vilão. Será a disputa na harmonia dos contrários?

Num acesso de generosidade, tudo nos é praticável. Por desigual comparação, entre nós, grassam os felizes antiheróis pós-modernos. Somos capazes de saldar a alma alheia, pela libertação dos hereges. Estes são sempre mais farisaicos do que as nossas próprias mentalidades autorais. Uma frase, tipo chavão homilético, aparece na ponta da língua: “Comece fazendo o que é necessário. Depois, o que é possível e, de repente, você estará fazendo o que é impossível” (S. Francisco de Assis). O “comece”, “depois” e “de repente” quando é? Como dura a sua passagem? Devem ser os quarenta dias/noites ou anos de que fala na Bíblia.

A procura de rigor está em tudo o que queremos fazer: quando o fazemos. Mas aí coloco-me diante do espelho da alma, e pergunto-me: o que fazes é apenas ético ou é já cristão? É ético, a maioria do que faço, mas a minoria tem apenas cheiro de cristão. Embora (em+boa+hora) ou má hora estas divagações me surgem, por isso, não desço ou subo ao campo dos exemplos. A razão não está no falso brilhantismo das associações de palavras, mas no facto lógico de que ser ético é menos do que ser cristão. Não se opõem, é evidente. É evidente, também, que é impensável ser cristão, sem ser ético primeiro. Mas ser cristão é mais do que ser ético. Um suspiro por Soren Kierkegaard. Até onde podemos ir?

“Não devo identificar-me precipitadamente com o arquétipo do mártir. Isso seria masoquismo. Posso aguentar uma situação difícil somente se me sinto livre, e quando tenho consciência da intocabilidade da minha dignidade” (Anselm Grun). A rigor, inspira-me um desejo de não ser medíocre e banal. “O que quer que aconteça, entretanto, quero que saibam de que altura caí” (Michel Montaigne) ou melhor ainda: “Eu nunca aceitarei de bom grado a impotência, por útil que me possa ser” (Idem). Vamos recusar o desperdício da experiência?

Sou a favor. No início, meia dúzia de temas perseguem-me, no bom sentido, pois a centralização ajuda a apurar os dividendos. Fazer o dízimo do tempo e dos bens, fica para depois. A omissão é que é a pedra-de-toque presa ao meu pescoço (cfr. Mc 9,42). O meu tempo está imaturo. Ainda bem que somos a qualidade da nossa convivência comunitária. Os ouvidos para decifrar o silêncio da injustiça. Os olhos para reparar na beleza desprezada. As mãos e os pés que se decidem – ainda que não atravessando rios caudalosos em noites sem estrelas – gastando-se na pobreza do serviço digno, sério e profético.

Agora sim, o respeito a si mesmo. Reconheço todo o vício sob a máscara da volúpia, bem como, não desconheço toda a volúpia sob a máscara do vício. É, apenas, isso mesmo, o que muitos não suportam: respostas para novas perguntas!