Rezar para não partir os dentes ao outro

D. António Couto realçou que os salmos contêm lamentos "muito humanos"
D. António Couto realçou que os salmos contêm lamentos “muito humanos”

D. António Couto explicou como os sentimentos humanos estão presentes nos salmos, mesmo os maus. E como isso pode ter aspetos positivos.
Na noite de 25 de novembro, o CUFC (Centro Universitário Fé e Cultura) propôs e organizou uma atividade, quer para a comunidade académica quer para a comunidade de Aveiro, sobre a linguagem dos salmos, tendo como principal objetivo perceber como é que um Deus de amor pode incorporar ódio (sim, porque há salmos que falam sobre a revolta que muitas vezes preenchem o nosso dia). Para a explicação desta linguagem, esteve presente o senhor bispo de Lamego, D. António Couto. O auditório do CUFC esteve praticamente cheio. Uma das muitas pessoas que estavam presentes era o nosso bispo, D. António Moiteiro.
Mas afinal, o que é um salmo? É uma oração cantada, que deve ser acompanhada com música. Nos tempos bíblicos, os salmos eram acompanhados por saltérios (instrumentos de cordas). Um salmo é também um texto lírico que invoca sentimentos humanos (que nos habitam) e sentimentos inumanos, que nos podem levar a matar.
Com a exposição de alguns salmos, fomos observando que os mesmos servem para expormos a Deus a brutalidade de que estamos cercados e assim, dizendo a Deus o que nos revolta, já não teremos coragem de cometer/fazer nenhuma loucura que nos possa prejudicar a nós ou ao próximo. Os salmos e a Bíblia em geral referem coisas boas, mas também referem coisas más, como por exemplo que Caim matou Abel ou então uma prece a Deus para partir os dentes da boca a quem nos magoou, como refere um salmo. Aqui, podemos observar que a Bíblia acolhe os nossos gritos de raiva e os apelos constantes de vingança. Estes sentimentos não são indignos nem ao Homem nem a Deus. Estes sentimentos apontam o caminho da palavra dita a Deus: a oração. Assim, a Bíblia ensina-nos o que devemos dizer a Deus: tudo o que nos alegra, preocupa ou revolta. Não nos manda fazer o mal aos outros, mas dizer a Deus com toda a nossa energia o mal que queremos fazer ao próximo. Se Caim tivesse dito que ia matar seu irmão Abel a Deus, talvez não o tivesse feito. Assim, quando na minha raiva digo a Deus: “Ó Deus, quebra-lhes os dentes na sua boca” (Sl 58), é certo que já não vou ter coragem de “partir” os dentes de quem por algum motivo sinto/senti raiva.
D. António Couto transmitiu-nos assim a importância que os salmos têm em ser rezados/expostos diante de Deus. Transmitiu-nos também que ao “derramarmos” diante de Deus os nossos lamentos e angústias estamos a limpar a nossa casa, o nosso interior. Assim, uma forma de nos “limparmos” é através da oração, do ato de rezar. Rezar, realçou D. António Couto, dá força, energia, alegria e leva-nos a entregar a nossa vida a Deus. O próprio Jesus sabia os salmos de cor e rezava-os como qualquer outro judeu. Jesus na cruz rezou um salmo que diz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Sl 22). E terminou o mesmo com: “Esta é a obra do Senhor”, a cruz.
Concluímos assim que, muitas vezes, desejar o mal ao próximo é comum a qualquer ser Humano, só que antes de passarmos à ação devemos de expor o nosso “querer os dentes do outro partidos” a Deus. Devemos dizer -lhe o que queremos fazer antes de agirmos. Porém, com a exposição da nossa revolta, Deus pode não nos vir socorrer na hora em que queremos, mas ajuda-nos a ultrapassar a revolta e a serenar. Em vez de recalcarmos as angústias, libertamo-nos delas. Por isso, devemos acreditar e rezar com toda a energia, amor e intensidade, pois Deus está sempre connosco e não desiste de nós.

Natália Faria