São João Baptista lança Dia Nacional do Cigano

O percursor do Senhor Jesus, o popular São João Baptista, aquele que se proclamou como não digno de desatar as correias das sandálias do Messias, vai ser assinalado como data marcante para os ciganos em Portugal. Também eles vão ter o seu Dia Nacional – 24 de Junho.

A deliberação partiu da Conferência Episcopal Portuguesa. Este Dia Nacional era celebrado no 1º Domingo de Junho.

Para esta alteração, a Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos (ONPC) ouviu diversas Associações de Ciganos, que, quase na sua totalidade, consideraram o dia 24 de Junho o mais indicado. E na oportunidade, segundo anuncia o jornal “Caravana”, D. António Vitalino Dantas, Presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, publicará uma Mensagem alusiva a esse Dia. Este ano o lema será: “Conhecer para interagir”.

É esta temática que mais tem preocupado os responsáveis por esta Pastoral, quer a nível Nacional, quer Diocesano e até à escala do Mundo, como constatei em Budapeste, no Congresso Mundial.

Por isso urge conhecer a realidade actual, para se poderem encontrar soluções sociais, humanas, cristãs, para que esta maior minoria da Europa não continue a ser enxovalhada, marginalizada, explorada.

No Dia Internacional dos Ciganos, que se comemora em 8 de Abril, foi mais uma vez lançado o alerta de constante e permanente discriminação.

Segundo um comunicado do ERRC (European Roma Rights Centre), emitido em Budapeste, é também o grupo étnico mais pobre, cujos direitos básicos são sistematicamente violados, em violências raciais, discursos de ódios constantes, discriminação no acesso ao emprego, educação, cuidados de saúde; violação de direitos de habitação.

Evidenciou-se, nestes últimos anos, uma onda de ataques em muitos países da Europa, mesmo na dita Europa institucionalmente solidária, humana e até oficialmente cristã.

A este fenómeno de oficial discriminação generalizada, não estão vazios de culpa governos ou mesmo igrejas, entrando, como não podia deixar de ser, o nosso Portugal profundamente cristão!

As notícias, quase todos os dias veiculadas pelos média, são bem a prova de que em Portugal essa etnia quase nem é vista e nem achada pelos poderes constituídos.

Dai os escândalos quotidianos, constatados não só no norte como noutras zonas do País, não apenas nas grandes metrópoles, mas em urbes de menor dimensão, continuando a não ter espaço entre sociedades humanas, democráticas e, repetimos, mesmo em comunidades cristãs. Destruir barracas sem dó nem piedade, sem primeiro se lhes encontrar soluções, não é humano e muito menos cristão.

Por isso, há que “conhecer para interagir”. Ninguém respeita ou ama o que não conhece.

Em Portugal, as estatísticas mais modestas apontam para 50 mil ciganos, mas o numero é bem superior, não contando já com esse universo de imigrantes, clandestinos ou não, de romenos ou doutras bandas, com quem nos cruzamos todos os dias em atitudes e situações clamorosas e que continuam à mercê do estender a mão e… chorar. Deixaram as suas terras e vieram à procura de qualquer “el dorado”, mas o maná não dá para todos e só vai chegando, em muitos casos, para felizardos ou oportunistas.

São estas as reflexões que nos proporcionará o Dia Nacional do Cigano, em dia do percursor João Baptista.

A Pastoral Diocesana dos Ciganos, que já há anos fez um levantamento, está agora, mais uma vez, a visitar os grandes acampamentos – Ervideiros (Esgueira), Ervosas (Ílhavo, Gafanhas), Verdemilho (Aradas), São Bernardo, Estarreja e outros, para que as comunidades locais ou diocesana se sensibilizem para esta rota com caravana ou sem caravana. Nos dez concelhos da diocese, serão uns milhares, a viverem desumanamente. Oportunamente daremos mais notícias.

Todos devem estar cientes que não se lhes pode dar a mastigar o Pão Nosso de cada dia, se antes não lhes matarmos a fome da dignidade humana.

Também, e segundo nos informa o Secretariado Nacional, vão realizar-se em Fátima, nos dias 4 e 5 de Outubro, as Jornadas Nacionais de Informação sobre o documento da Santa Sé “Orientações para uma Pastoral dos Ciganos,” este ano mais viradas para agentes desta Pastoral, nomeadamente párocos, que são, em primeira linha, os mais directos mensageiros do Evangelho do Amor junto dos que não têm voz. Parafraseando Padre Américo, cada paróquia trate dos seus pobres; e os ciganos são pobres de tudo, mas têm a sua cultura, a sua dignidade, que urge respeitar, acrisolar com eles. São filhos do mesmo Deus de que eu e tu também somos!

*Responsável pela Pastoral Diocesana dos Ciganos de Aveiro

Documento da Santa Sé

sobre os Ciganos em debate

Realizam-se nos dias 4 e 5 de Outubro de 2007, em Fátima, as jornadas nacionais de informação sobre o documento da Santa Sé “Orientações para uma pastoral dos Ciganos”. Intervêm, entre outros, D. Manuel Felício, Bispo da Guarda, abordando o tema “Evangelização e promoção humana”, e D. António Marcelino, Bispo emérito de Aveiro, sobre “Aspectos particulares da pastoral para os Ciganos”.