Sepultura do bispo eleito de Aveiro descoberta na Torre dos Clérigos

Restos mortais de D. António Ilídio (1785-1849), que não chegou a obter confirmação papal para tomar posse da Diocese de Aveiro, identificados por investigadora.

 

Foi descoberta na igreja dos Clérigos, no Porto, a sepultura de D. António de Santo Ilídio de Fonseca e Silva, que foi nomeado bispo de Aveiro pelo governo, no dia 26 de fevereiro de 1840, mas nunca obteve confirmação papal. Seria o quarto bispo de Aveiro, na primeira fase da Diocese, desde a sua criação, em 1774, até à extinção, em 1881.
A notícia da sepultura surgiu no Jornal de Notícias online, no dia 12 de junho. O jornal refere que Eugénia Cunha, investigadora do departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, identificou duas das diversas sepulturas resgatadas da cripta da igreja dos Clérigos a quando das obras de remodelação, em dezembro de 2014. Além da do bispo eleito de Aveiro, a investigadora identificou a sepultura do abade Santo Ildefonso, ficando por identificar “10 homens, seis mulheres, sete não-adultos e um bebé”.
As investigações têm como objetivo encontrar a sepultura de Nicolau Nasoni (1691-1773), o arquiteto italiano que projetou a Igreja e Torre do Clérigos, além de outros edifícios na invicta. Nasoni morreu na pobreza e foi sepultado na igreja por ele projetada.

 

Bispo em tempos instáveis
Segundo o livro “Diocese de Aveiro. Subsídios para a sua história”, páginas 171-175, de monsenhor João Gonçalves Gaspar, D. António de Santo Ilídio de Fonseca e Silva, monge, era natural do Porto (05-06-1784), tendo passado pelo convento beneditino de Tibães (1804) e pela Universidade de Coimbra, onde foi bacharel em filosofia (1813) e doutor em matemática (1816). Apoiante de D. Pedro e D. Maria II (liberais e constitucionalistas) contra D. Miguel (tradicionalistas e absolutistas), “exerceu intrusamente as funções de governador e vigário capitular da diocese do Algarve, na ausência do respetivo bispo”, entre 1834 e 1836, refere mons. João Gaspar. Após a nomeação para Aveiro, sem esperar a confirmação papal, como era exigido, começou a “agir como prelado” e assinou alguns documentos.
Considerada nula a posse do bispo eleito, a Sé Apostólica nomeou em 1842 um governador para a Diocese de Aveiro que veio a renunciar quase de imediato, o que permitiu que D. António de Santo Ilídio fosse nomeado vigário pró-capitular em 1843, “passando a exercer legítima e canonicamente a jurisdição espiritual”. O período até 1843, na diocese de Aveiro, foi um “tempo irregular”, diretamente ligado à instabilidade na política portuguesa, pelo que afirma mons. João Gaspar: “Nunca a Sé Apostólica publicou qualquer documento que declarasse os governadores intrusos como cismáticos; por isso, se chama impropriamente cisma a esta situação da Igreja em Portugal”.
D. António Ilídio, alegando falta de saúde renuncia à jurisdição pró-capitular de Aveiro, conforma atesta a provisão de 5 de maio de 1845, assinada pelo arcebispo de Braga. Faleceria na cidade do Porto no dia 28 de janeiro de 1849, com 65 anos.

 

Vida pouco edificante
Mas por que razão, afinal, D. António Ilídio não obteve a confirmação papal? Transcrevemos as instruções do núncio enviadas para Roma e citadas na referida obra de mons. João Gonçalves Gaspar (pág. 174): “Este frade tem levado uma vida péssima e foi sempre tido na opinião pública como um sectário e de costumes corruptos. Quando estudava na Universidade, sendo já monge, galanteava com uma freira de Santa Clara e, por ciúmes com outro estudante chamado Barbosa, este deu-lhe um tiro e partiu-lhe um braço. O facto, notório em Coimbra, foi levado ao Tribunal Criminal e deu muito que falar e um grande escândalo. Depois disso, o seu procedimento tem sido sempre mais de secular que de religioso. Quando D. Pedro entrou no Porto, foi dos primeiros a apresentarem-se-lhe sem hábito religioso, e escreveu vários artigos e proclamações. Após a tomada de Lisboa, foi como intruso para o Algarve, vivendo ainda o bispo daquela diocese. De lá foi nomeado para bispo de Aveiro, onde está governando intrusamente e praticando atos escandalosos, como se vê na súplica feita a Sua Santidade pelas freiras dominicanas do convento de Jesus. Seria um bispo péssimo, sem boa opinião nem fama”.
J.P.F.