Sete livros para o diálogo da fé com a cultura e a política

Poderiam ser mais. Poderiam ser outros. Mas estes estão acessíveis. São livros que fazem pensar, que motivam diálogos, que ajudam responder a qualquer pessoa que nos questione sobre as razões da nossa esperança, como pedia S. Pedro (1 Pe 3,15). Textos de Luís Silva, presidente da Comissão Diocesana da Cultura.

 

Deus não existe: como o mais célebre filósofo ateu mudou
de convicção
Antony Flew
Alêtheia
187 páginas

A relevância deste livro só se capta se, em primeiro lugar, se tiver em conta quem é o seu autor. Antony Flew foi, durante cinquenta anos, um dos mais relevantes defensores do ateísmo, no contexto britânico. Ateísmo que se sustentava na presunção de que a ciência tinha a última palavra sobre a verdade e o conhecimento, reduzindo a inverdade todas as outras linguagens, e especialmente o discurso religioso. A tarefa científica – defendia Flew – parecia exigir a inexistência de Deus.
Até que Flew se dá conta de que esse pressuposto é, não só impossível de provar, como está, na realidade, errado. Fazer ciência é, afinal, pressupor – conclui Antony Flew a partir de 2004, e repercute isso neste livro – que Deus tenha de existir.
A tese que ele defende é simples e clara.
Fazer ciência é pressupor existência de inteligibilidade no universo. Aliás, pressupor o contrário era impossibilitar a realização da tarefa do cientista que é, afinal, identificar regularidades e formular hipóteses de leis que as experiências se encarregarão de falsificabilizar até que nova teoria supere a vigente. De qualquer modo, a base é sempre a mesma: há possibilidade de compreender o universo, de o ler com inteligência, porque nele há inteligibilidade.
Ora, esta inteligibilidade só pode dever-se a duas ordens de motivos. Ou se chegou à inteligibilidade por via de biliões de acasos ou teremos de pressupor que, por causa da sua origem se encontrar em Algo ou Alguém Inteligente que confere potência de inteligibilidade à sua obra, a mesma obra criada revela as marcas dessa origem.
Face a estas duas possibilidades, Flew defende que deve aplicar-se o critério epistemológico designado como «navalha de Ockham», segundo o qual quando se tem uma explicação mais simples para uma hipótese, então essa deve ser a escolhida. Diz Flew que pressupor biliões de acasos, todos eles concatenados como se fossem portadores de sentido é uma tese altamente complexa e improvável, sendo, assim, de se escolher a outra, que pressupõe que a inteligência que o Universo apresenta é, afinal, um pálido reflexo da sua origem.
A esta luz, pressupor a existência de Deus é, para Flew, muito mais do que um ato de fé: é uma espécie de axioma necessário para admitir que se possa fazer ciência.
De 2004 até à sua morte, em 2010, Flew dedicou a sua obra à revisão dos pressupostos de tudo o que dissera até então, para concluir que «é simplesmente inconcebível que uma matriz material possa gerar agentes que pensam e agem» (p. 155).
Esta é uma obra de que deveriam resultar debates capazes de refazer pontes que o tempo foi abalando. O pensamento de Flew deveria suscitar maior humildade, quer entre os crentes que pretendem defender que a conciliação entre ciência e fé se faz na base de um concordismo em que se procura que cada afirmação científica confirma afirmações retiradas dos livros sagrados (desrespeitando a natureza dos próprios textos sagrados), quer entre os que ainda, à maneira do positivismo do século XIX, pretendem esgotar a verdade do conhecimento no princípio da verificação, como se só a verdade das ciências exatas e experimentais pudesse ser credível. O que há de mais importante para o humano é insuscetível de verificações dessa ordem. A essa humildade obriga este livro de Antony Flew.

 

O cubo e a catedral: a Europa
e a América e a política sem Deus
George WEIGEL
Alêtheia
151 páginas

O título do livro explica o seu conteúdo e desvela a sua tese. George Weigel, um reconhecido autor norte-americano, parte de um evento histórico conhecido. Na década de 80, quando se avizinhavam as comemorações dos 200 anos da revolução francesa, o então presidente Mitterrand sustentou que era inaceitável que a capital da França, símbolo da laicidade, muitas vezes matizada com traços de laicismo, pudesse ter como mais alto edifício a grande Catedral de Notre Dame. Para fazer face a tal «incoerência, propôs a construção de um grande Cubo, na zona de La Défense, capaz de ultrapassar a dimensão e grandiosidade da catedral. A este facto se deve o título da obra que aqui se apresenta. A tese, por seu turno, repercute o pensamento de Alexis Tocqueville que, já no século XIX, se dava conta de que a forma de viver a laicidade era distinta dos dois lados do Atlântico. Os franceses, muito marcados pela visão jacobina que exerceu forte influência na definição do rumo da revolução francesa, sempre tenderam a entender a laicidade como uma atitude de indiferença e, em alguns casos, oposição do Estado em relação à religião e à Igreja. Nunca foi esse o entendimento do outro lado do Atlântico. É bom, aliás, perceber que não poderia ser de outro modo, dado que a América se fez por força da determinação dos homens que, no século XVII, partiram da Irlanda e com eles levaram toda a sua cultura e visão religiosa da vida. A laicidade americana, como bem já vira o autor francês de «Da democracia na América», consistia na defesa da independência entre a religião e o Estado, não no registo de indiferença, mas de são convívio e mesmo interação. A laicidade americana é a que defende a liberdade religiosa que se manifesta na diversidade e no respeito por essa mesma diversidade. Uma laicidade que não anula as opções religiosas dos cidadãos mas que as integra na própria gestão da coisa pública. De tal modo que o não silenciamento das opções religiosas permitiu, como analisa G. Weigel, neste livro, que a atitude perante a vida e perante a fecundidade da vida não se perdesse, o que veio a acontecer no contexto europeu. Weigel atribui ao silenciamento de Deus, no contexto europeu, uma das mais decisivas causas para a diminuição da natalidade, pois a vida e a vida gerada deixou de ser entendida como dom e bem para passar a ser percebida num registo de liberdade pressuposta como autodeterminação absoluta.
Este é um livro que vai aos alicerces da modernidade e que interpela a perceber de que liberdade deverá falar-se quando se defende que a modernidade é a afirmação da autonomia humana. De que autonomia importa falar? De uma autonomia que redundará no suicídio da humanidade? Ou de uma autonomia que pressupõe que o homem não existe sem os outros e sem o Outro? Que laicidade deverá defender-se: a que silencia a voz da espiritualidade humana ou a que a integra no âmbito da coisa pública como catalisador da ação humana, individual e coletiva?

 

O que a civilização ocidental
deve à Igreja Católica
Thomas E. Woods JR.
Alêtheia
273 páginas

Há tempos, ao apresentar este livro a um grupo de amigos, ocorreu-me que não seria de estranhar se algum livreiro o inserisse na secção de finanças, ainda que ele nada tenha a ver com economia ou matérias fiscais. Na verdade, do que aqui se trata é de uma dívida. Uma dívida de gratidão para com a Igreja Católica. Uma dívida nunca saldada e que a Igreja nunca reivindicou, mas que lhe é devida. Na realidade, este livro o que faz é desvendar, de forma descritiva e de modo factual, os inúmeros contributos da Igreja Católica para a construção da civilização ocidental. O título português é «o que a civilização ocidental deve à Igreja Católica» perdendo a força do original que é «como a Igreja Católica fez a civilização ocidental». Com efeito, o contributo católico para a construção da nossa civilização não se esgota num conjunto de factos que poderemos enumerar, pois atinge o código genético da nossa cultura, entendida aqui como todo o quadro mental que condiciona cada pequeno rumo artístico, o modo de pensar o mundo, o modo, aliás, de ser mundo. Não se pense, contudo, que este é um livro de apologia como tantos outros, edificado sobre lamentos e desejos inconfessados de restauração da influência cristã na sociedade. Antes, é um livro de justiça. O que faz é evidenciar que, sem a Igreja Católica, a civilização ocidental simplesmente não era. Muitos pensarão que tal se deverá ao seu contributo nas áreas sempre referidas, habitualmente: a arte, as catedrais, os museus, a literatura e as humanidades, em geral, como se tal já não fosse bastante. Contudo, o autor demonstra que o contributo do cristianismo para a criação das condições de liberdade no espaço académico (como o vivido nas universidades que nasceram sob a égide da Igreja), para a edificação do direito internacional, para a criação da ciência que, afinal, surge no Ocidente, e tantos outros âmbitos nevrálgicos daquilo que definimos como a modernidade têm o seu código genético nas condições que o Cristianismo permitiu assegurar para que eles emergissem. Esta enunciação das condições fundantes da civilização ocidental é feita em permanente articulação com uma escrita enxuta, que vai ilustrando o que vai sendo dito com factos que permitem confirmar a verdade do referido. É assim que somos levados a reconhecer que 35 crateras da Luz têm nomes de cientistas e matemáticos jesuítas, ou que a primeira pessoa a medir o ritmo de aceleração de um corpo em queda livre foi um sacerdote, o P.e Giambattista Riccioli, ou, ainda, que o pai da egiptologia foi o padre Athanasius Kircher, ou que o pai de Geologia é o padre Nicholas Steno, o pai do direito internacional é Francisco Vitória, sacerdote espanhol do século XVI, defensor dos nativos do Novo Mundo, face à colonização castelhana.Um livro que, como ocorreu na diocese de Aveiro, por ocasião da primeira semana da cultura e identidade cristãs, promovida pelo ISCRA, deveria ser ocasião para redescobrir as efetivas raízes cristãs da cultura ocidental e para repor a devida justiça, reconhecendo o lugar ímpar do Cristianismo na construção de uma civilização que, não só superou os riscos que os movimentos bárbaros tinham colocado, mas que também transcendeu as já significativas conquistas que as civilizações grega e romana tinham protagonizado, conferindo a esta a humanidade que lhes faltava. A quem se deverá, aliás, reconhecer ter-se cunhado a ideia de dignidade humana aplicável a todos sem distinção senão ao Cristianismo?

 


Cristianismo e evolucionismo:
em 101 perguntas e respostas
John Haught
Gradiva
239 páginas

Muitos continuam a acreditar na tese de que o Cristianismo, em geral, e a Igreja Católica, em particular, estão ou estiveram de costas voltadas para a ciência. A força de uma história recontada até à exaustão, reinvocando o terrível episódio de Galileu ou a suposta discussão com Darwin (tal só ocorreu no contexto anglicano), favoreceu o mito de um antagonismo que nunca existiu. Este livro serve a causa da reconciliação necessária após um suposto conflito que nunca deveria ter sido defendido nem nunca deveria ter-se invocado, em nome da religião. Na verdade, de um modo claro, simples, escorreito, Haught, um teólogo reconhecido pela sua mestria na capacidade de evidenciar que, afinal, como afirma João Paulo II, na encíclica «Fé e Razão», ciência e fé são as duas asas sem as quais não se pode voar, consegue tornar simples o que para muitos continua difícil. E a sua tese é clara. Por um lado, recupera o pressuposto de que o ser humano tem mais interrogações do que aquelas a que a ciência tem capacidade de responder: a ciência respondem às que respeitam ao âmbito dos processos, ao âmbito do «como é que as coisas ocorrem», mas escapam-lhe as que são do âmbito do sentido da existência e das coisas; por outro, vislumbra na força do pensamento de Teilhard de Chardin a capacidade de demonstrar que o que teologia sempre dissera – que tudo se haveria de consumar em Jesus Cristo como Omega da Criação – se pode compaginar com uma leitura evolucionista da existência, pois a força que se vislumbra na natureza denuncia uma potencialidade de ‘menos para mais’ que permite encontrar ecos no que a linguagem teológica tantas vezes refere: a tensão entre o já e o ainda não. Tal não lhe retira, porém, a legitimidade para criticar uma certa leitura da evolução que pretende tudo reduzir à matéria, esquecendo que a matéria, por si, não conseguiria fazer emergir o pensamento. E, também, para reconhecer que muito do suposto conflito entre ciência e fé cristã, em matérias que dizem respeito às origens, se criou a partir de uma errada hermenêutica do texto bíblico, que Haught recupera, de forma clara.
Este é um livro necessário para que, nestes tempos de escombros, em que muitos parecem querer explorar uma suposta virtualidade artística daqueles, se recomecem a edificar as boas relações entre ciência e fé que episódios como o de Galileu não podem nem devem apagar ou ofuscar. Como reconhecia A. Einstein, a «ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega».
Haught, com uma linguagem simples, objetiva e pedagógica, assegura as condições para um encontro que sempre teve no cristianismo, como religião protetora da razão e da racionalidade, o seu arauto e defensor.

 

 

A crucificação e a democracia
Gustavo Zagrebelsky
Tenacitas
142 páginas

Se a James Watson e a Francis Crick se deve o mérito da descoberta da dupla hélice do ADN da vida, poderíamos reconhecer a este livro o mérito de explicitar como deveremos interpretar o ADN das democracias.
Para tal explicitação, Zagrebelsky faz a sua análise partindo da interpretação do que ocorreu no processo de crucificação de Jesus Cristo para concluir que as democracias se tipificam em torno de três perfis: as democracias dogmáticas, que acreditam possuir a verdade toda e indiscutível; as democracias céticas, para quem tudo é suscetível de dúvida e discussão e, por fim, as democracias críticas, que se sabem portadoras de limite e, por isso, consideram que nem tudo se pode discutir e que o poder não pode absolutizar-se, nem sequer o da maioria. Para estas últimas, há limites que não devem ser transpostos. As duas primeiras tipologias, por oposição, favorecem circunstâncias em que elas mesmas, enquanto democracias, são postas em causa, gerando ruturas nos seus próprios alicerces. De algum modo, é o que verificamos, hoje, face a processos de absolutização da democracia, entendida como expressão da vontade da maioria a quem se reconhece o poder de tudo determinar, inclusive o de estabelecer uma ditadura, num paradoxo próximo do absurdo.
Este é um livro em que os méritos vão da qualidade do seu conteúdo, – de que se fez, acima, uma breve síntese, mas a que poderíamos, ainda, acrescentar a pertinência de propostas como a da construção de uma ética das decisões reversíveis, em que todas as determinações recaem sobre atos que podem ser revertidos, por oposição às éticas que defendem a legitimidade de atos como o aborto, a eutanásia, o suicídio, que são, por definição, atos irreversíveis – à qualidade e reconhecimento do seu autor, que foi Presidente do Tribunal Constitucional de Itália, até à elevada estatura do prefaciador, António Barbosa de Melo que foi, entre 1991 e 1995, presidente da Assembleia da República Portuguesa (falecido a 7 de setembro de 2016).
Trata-se de um livro que vai à raiz, ao ADN da ação política, antecipando os riscos que se vão constatando nesta Europa à deriva, em que a absolutização de democracias que, ora céticas, ora dogmáticas, vão encaminhando as nações para becos sem saída. Até chegar a hora em que o povo, sob a batuta de novos Caifás e Sinédrio, preconizadores de democracias dogmáticas, e credor de agentes políticos, para quem tudo é igual, enquanto defensores de democracias céticas, aclamará os salteadores e crucificará, de novo, já não só o justo, mas a própria justiça.

 

Jerusalém: a biografia
Simon Sebag Montefiore
Alêtheia
657 páginas

É possível fazer a biografia de uma cidade?
Sim, se essa cidade for um organismo vivo. E essa cidade é Jerusalém. Cidade amada, desejada. Tão amada e tão desejada quanto espoliada e devassada.
Este poderia ser o prefácio deste livro. Um livro magnífico. Tão longo nas suas páginas – mais de 650 – como sedutor no desenrolar do fio da narrativa. Quem o lê sente-se a percorrer as ruas da história que as ruas de pedra desvelam. Montefiore, também ele membro de uma família de que fala, quando chega ao século XIX, revela-se, neste livro, um ubíquo, alguém para quem não há limites de espaço, nem de tempo. Fala de cada era como se lá tivesse estado. Assim se entende que recorde pormenores como o que acompanhou o encontro entre Saladino e o cruzado Guy de Lusignan, em 1187. Sabemos, porque Montefiore no-lo conta, que Saladino estendeu ao rei Guy «uma taça de sorvete, gelado com a neve do Monte Hermon». Do mesmo modo, muitos séculos volvidos, descobrimos que a conferência de Ialta, que dividiu os despojos de Guerra entre os vencedores da II Guerra Mundial esteve programada para ser em Jerusalém. Hoje, a foto em que aparecem Estaline, Roosevelt e Churchill teria, como pano de fundo, a cidade sagrada. Estes e outros pormenores são descritos ao correr da pena que se revela sábia e sedutora nesta obra que me prendeu a alma ao longo de pouco mais de dez dias de um verão. A capacidade de prender quem o lê faz de Montefiore um autor ímpar, capaz de levar pela mão o anónimo leitor que se sente privilegiado por se convencer de que a história lhe é contada ao ouvido, de tão pormenorizada ser. Um livro imprescindível para compreender como a cidade que tem a «Paz» no seu nome continua, hoje, como, afinal, sempre parece ter sido, a edificar-se sobre os escombros de si mesma.

 


Uma Europa sem Deus?
A União Europeia e o diálogo com religiões, Igrejas e comunidades confessionais
Michael Weninger
Edições 70
510 páginas

Quando li este livro, em agosto de 2009, fui tomado por um enorme sentimento de dever de partilha do que tinha descoberto. Acabava de ler um livro que me permitia compreender um assunto que preenchia, na altura, as manchetes de muita imprensa religiosa, mas que teimava em ser silenciado na grande imprensa: o problema da inclusão da referência a Deus na Constituição Europeia que se esboçava, às mãos de um ex-presidente da República Francesa, Giscard d’Estaing.
Weninger coligia, de forma clara, os passos dados e recuados de uma decisão sobre aceitar ou recusar referir na Constituição da União Europeia a matriz cristã e religiosa como uma das que tinham permitido forjar a identidade continental. Sabemos que nem o documento veio a ter o estatuto de constituição, nem a referência veio a ser feita, no documento que veio a suceder-lhe. E os motivos são descritos com clareza neste livro. Pressões de organismos ditos humanistas, mas que preconizavam uma laicidade negativa (também designada como laicismo), conduziram ao silenciamento e à recusa de possíveis soluções que permitissem compaginar as diversas sensibilidades em jogo. Um dos grandes méritos desta obra está em, não só descrever os dados em discussão e as consequências de se ter optado por fazer de conta que a Europa não tem uma história cristã, mas também em apresentar possíveis cenários de resposta. E entre estes recolho, como ilustração do mérito desta obra, a solução que foi encontrada para a Constituição da Polónia que diz que «também aqueles que acreditam em Deus como fonte da verdade, da justiça, do bem e do belo, como os que não partilham essa crença, mas que respeitam os valores universais, assim como de outras fontes […]».
O livro é, para além de uma exaustiva descrição do processo que tem conduzido à tentativa de silenciamento do contributo ímpar das religiões para a definição da identidade europeia, um precioso documento para a problematização do entendimento europeu sobre a laicidade, tão devedora de uma leitura restritiva que se estruturou no contexto da revolução francesa e que tem conduzido à construção de uma recente história da união europeia ao arrepio do sentir dos povos que dela fazem parte. Uma tal decisão acabará por comportar, com o tempo, ou a perda definitiva da identidade ou a emergência de movimentos restauracionistas que acenderão conflitos que se julgava extintos. O desafio é o de respeitar a identidade, em nome do princípio da subsidiariedade, tantas vezes invocado neste livro. Princípio que impede a imposição artificial de soluções que podem ser preconizadas e encontradas nas próprias comunidades. Um repto que, quanto mais tarde for atendido, maiores custos comportará. Os sinais estão aí!