Tapar o sol com a peneira!

O diário fazia do tema assunto de gravidade – e com razão -, embora o tratamento do mesmo não ultrapassasse os lugares comuns. Referia-se que, entre um significativo número de candidatos a professores inquiridos, mais de oitenta por cento manifestava receios de abordar a educação sexual em sala de aula.

Depois, vinham os motivos, que se esgotavam basicamente no sentimento de falta de preparação científica – incompreensível no que se refere à biologia – e no medo da reacção das famílias. E aqui faziam-se juízos de valor, culpando preconceitos culturais e sociais, “denunciando” a “influência penetrante da Igreja”…

O certo é que, mergulhando no teor da exposição, se percebia claramente que, ao falar de educação sexual, se tinha em vista apenas uma informação em ordem a questões de saúde – e referia-se, nos manuais, a ausência de sugestões de actividades concretas que os professores pudessem desenrolar com os alunos.

Uma mistura de confusões, resultado da miopia ou estrabismo na abordagem do problema. Não se trata de preconceitos religiosos, culturais ou sociais. Trata-se, por um lado, da consciência de que a sexualidade é uma nobre envolvente de toda a personalidade e crescimento humano – irredutível a uma questão de saúde reprodutiva; por outro lado, da teimosia de alguns que persistem em considerar a pessoa como uma qualquer máquina cujas potencialidades e rendimento têm de ser equacionadas mecanicamente.

É fundamental uma informação biológica rigorosa, ministrada gradativamente, como o é o desenvolvimento humano. Não é para dizer tudo de uma só vez! Mas cientes de que, mesmo cientificamente, há outros âmbitos da pessoa humana que são implicados directamente com a estrutura biológica do nosso corpo: a psicologia é hoje uma ciência com credenciais!

Além disso, não se esgota o conhecimento da pessoa humana naquilo que é aferível em laboratório, nem sequer em consultório psíquico. Todos nos reconhecemos como portadores de sentimentos, de convicções morais e espirituais, que envolvem o nosso desenvolvimento, que resultará harmonioso ou cria desequilíbrios. Todos nos sentimos dotados de uma vontade e afectos, que não podem viver em conflito com a razão. É a sinfonia dessas qualidades em acção que resulta num crescimento pacífico.

E esta é a questão fundamental. Não se pode transformar a educação da sexualidade em mera prevenção sanitária – para evitar gravidezes precoces ou contaminação. O problema fundamental é que o nosso sistema educativo não se preocupa em formar pessoas – a sua única razão de existir -, mas apenas em prevenir comportamentos que arrastem consequências sociais preocupantes. Até quando continuaremos a querer tapar o sol com a peneira?!…