“Tenho uma missão. Qual é?”

Baptismo de Jesus A Palavra deste domingo centra-nos sobre o acontecimento Jesus Cristo no início da sua acção messiânica. O baptismo do Senhor marca uma nova etapa na vida de Jesus de Nazaré. Passara cerca de 30 anos numa vida escondida, aparentemente como qualquer ser humano, à excepção da sua ida ao templo aos 12 anos (segundo a prescrição da Lei) preparando-se, assim, para a sua acção messiânica. Neste período de tempo, Jesus “cresceu em idade sabedoria e graça”, elaborando todo um processo de inculturação como homem do tempo e do espaço geográfico onde estava enraizado: cultura, religião, costumes, pedagogias, argumentações…, que mais tarde pôs à prova nas suas numerosas parábolas e discursos. Os 30 anos eram a idade ideal para um bom judeu ser considerado gente e tomado a sério na sua vida em sociedade. A missão que Jesus agora inicia implica escolhas e exige a hierarquização de valores. Deste modo, deixa atrás de si uma vida tranquila de carpinteiro, um lar acolhedor, como era o de Nazaré, uma terra e uma gente que o vira crescer, e opta por se deixar baptizar no Jordão, por João Baptista, dando assim início à sua missão, aquela que recebera de seu Pai e da qual se apercebera que chegou o momento de a inaugurar.

O baptismo do Senhor, narrado hoje por Mateus, dá-nos a perspectiva de um homem que acaba de chegar da sua província (Galileia) e, ao mergulhar nas águas do Jordão, mergulha também profundamente no povo que o Pai lhe confia, com todas as suas consequências. Para isso necessita da força plena do Espírito Santo, que viu descer dos céus e pousar sobre Ele, enquanto amorosamente escutava a voz do Pai: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Esta cena repetir-se-á mais tarde, no momento da transfiguração, antes do “segundo baptismo” de Jesus, o da sua paixão e morte de cruz.

Por esta teofania, Jesus fica, confirmado na sua vocação messiânica e todo o povo teve uma prova concludente de que este é realmente o “enviado de Deus”, o seu Filho muito querido, aquele que foi ungido como Servo do Senhor e Salvador da humanidade. Ele persistirá na edificação da justiça e com uma enorme condescendência construirá a paz. Ele “não desfalecerá nem desistirá, enquanto não estabelecer a justiça na terra, a doutrina que as ilhas longínquas esperam”, diz-nos a primeira leitura. Doravante é necessário escutá-lo e segui-lo. Como me situo eu face à promoção da justiça e da paz? Transporto-as comigo, no meu modo de ser e agir, ou semeio discórdia e rivalidade? De facto, Jesus percorreu o seu país, desde a Galileia até à Judeia, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo mal, porque Deus estava com Ele, anuncia-nos a segunda leitura. Deus não faz acepção de pessoas, porque incorpora a todos os que recebem o baptismo na sua grande família. E eu? Sou elitista? Como estou a desenvolver em mim o sentido fraterno e comunitário?

Celebrar o baptismo de Jesus implica, não só fazer o memorial deste acontecimento da nossa história de salvação, mas também revivê-lo em simultâneo com o nosso baptismo, no qual também fomos e nos sentimos ungidos pelo Espírito Santo, como filhos e filhas queridas de Deus, e vocacionados a uma missão cristã, isto é, ao seguimento de Cristo e da sua mensagem salvadora. Sei a data do meu baptismo e celebro-a? Vivo dele no meu dia a dia renunciando permanentemente ao mal e às suas seduções, que me vêm do consumismo, da publicidade, da luxúria, da ganância… e assumo o compromisso para com Deus Pai, Filho e Espírito Santo, ao serviço da comunidade? Tenho consciência de que a minha vida cristã radica na graça do meu baptismo? Costumo interrogar-me sobre o facto de haver tanta gente baptizada e serem tão desumanas as nossas relações? Empenho-me em viver uma vida cristã séria, exigente, ou fico-lhe pela mediocridade? Todos os que se deixam conduzir por uma vida de santidade segundo o modelo de Jesus Cristo usufruem e testemunham uma grande felicidade. Porque é que no nosso mundo há tanta gente oprimida pelo mal e tantos doentes física e espiritualmente?

Leituras do Baptismo do Senhor: Is 42,1-4.6-7; Sl 29 (28); Act 10,14-38; Mt 3,13-17