Trabalhos de casa q.b.

Educar… hoje Greve aos Trabalhos de casa (tc), para o dia em que se comemora a Convenção sobre os Direitos da Criança, só é possível numa sociedade ocidental, em que as crianças vêem respeitado, às vezes, o direito de ir à Escola (Artigo 28.º). Mas não vêem respei-tado, por vezes, o seu direito de brincar (Artigo 31.º). Convém saber que, de acordo com esta Convenção, são crianças todos os que ainda não completaram 18 anos (Artigo 1.º).

Numa análise sumária, verifica-se que a sigla tpc, que teimosamente se traduz por Trabalhos Para Casa, mas que para muitos significa Tempo Perdido em Casa, entra, muito cedo, na vida dos alunos com os objectivos de criar hábitos de trabalho e de consolidar matéria. Porém, alguns pais queixam-se de que as crianças têm muitos tc, logo nos primeiros anos de escolaridade. E, mau grado o entusiasmo inicial para aprender, rapidamente se sentem cortadas no tempo das brincadeiras. Estas, um dos mais importantes modos de aprender.

Apesar de bem intencionados, os tc são, muitas ve-zes, promotores de desigualdades. Salvaguardando a ideia de que a intenção é promover a revisão da matéria ou a motivação para a aula seguinte, acontece que nem sempre o aluno percebeu a matéria, logo a sensação de frustração leva à desistência, se não tiver quem o ajude; vários tc são uma mera cópia do que se fez na aula, o que é desmotivador; poucas vezes, o aluno consegue reflectir sozinho sobre a palavra-chave que iniciará a aula seguinte, se não tiver quem o ajude. Aliás, muitos tc só são feitos com a ajuda de uma pessoa mais velha. Centros de explicações e ATL, para quem os pode pagar, ocupam a maior parte do tempo dos alunos com a realização dos traba-lhos de casa.

Outro exemplo prende-se com os trabalhos de grupo e os de investigação. É preciso ter pistas muito precisas para procurar informações sobre determinados assuntos, quer nas Enciclopédias, quer na enciclopédia nem sempre fiável em que se tornou a Internet. A quem se pede um tra-balho sobre “O Amor na Literatura Portuguesa” a “Importância do Leite”, sem qualquer pista? A alunos do 6º e do 10º ano?! Se o aluno for pesquisar na Internet, sem conhecer dois ou três endereços, perderá tempo precioso para outras actividades, fará o “copiar/colar” (“copy/paste”) habitual, mas sem qual-quer proveito.

Ora, havendo, a partir do segundo ciclo, uma área curricular não disciplinar que promove exactamente regras e métodos de estudo, bom seria que se aproveitasse esse momento. É o Estudo Acompanhado, com 90 minutos semanais, em que os alunos começam por organizar um horário, em que se inclui o tempo para fazer os tc, ver televisão, praticar desporto, brincar, ler, passear. Depois, realizam várias actividades, desde consolidação de uma ou outra matéria, a pesquisas ou outros tc.

A importância dos tc é indiscutível, porém… Quem já não comeu bolo mármore ou pudim molotov em muitas festas de anos? Mas sabe que, em casa de fulano (ou na nossa), eles são melhores. A receita pode ser a mesma, mas a confecção, à mão, é diferente. Também para os tc pode haver uma só receita. Mas para que o problema não se agudize, pois convém que o bolo ou o pudim sejam comestíveis, porque não se quer deitar fora o que tanto tempo nos tomou, seria bom que se desse a receita na aula e se ensinassem alguns truques para o sucesso do bolo e do pudim. E sempre com uma pitada de boa disposição q.b., para que as obrigações sejam cumpridas de bom humor.

Assim, diremos “Sim” aos Trabalhos de Casa e “Não” ao Tempo Perdido em Casa.

Artigo 1.º – Nos termos da presente Convenção, criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo.

Artigo 28.º – 1. Os Estados Partes reconhecem o direito da criança à educação (…)

Artigo 31.º – 1. (…) o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e artística.