
É apresentado hoje à noite, pelas 21h00, no Centro Universitário Fé e Cultura, o livro “Igreja Sinodal. A alegria da missão na sociedade secularizada”, da autoria do P.e Georgino Rocha. Mais do que um livro sobre o Sínodo de Aveiro (1990-1995), que é diretamente abordado em quatro dos seus onze capítulos, este livro defende que o estilo sinodal é o mais adequado para a Igreja na sociedade secularizada, a que exige “uma reinterpretação do cristianismo”, uma “recomposição da instituição cristã”. “Igreja Sinodal” é, pois, um livro para a “Igreja em saída”, a “Igreja missionária”, como tem insistido o Papa Francisco.
CORREIO DO VOUGA – Afirma no seu novo livro que o sínodo é “um estilo típico de ser e agir da Igreja”. Em que consiste este estilo sinodal de ser e agir?
GEORGINO ROCHA – O Sínodo, pela orgânica de comunhão e pelo dinamismo de participação, o mais alargada possível, denota um estilo marcado pela confiança nas pessoas e nas suas capacidades, pela prática do diálogo, pela valorização da experiência, das emoções e dos sentimentos, pela convicção da importância dos pequenos passos progressivos, dados em comum rumo a objetivos atraentes e mobilizadores, pela aceitação da diversidade de ritmos e da sempre necessária paciência e tolerância, pela procura de formas de intervenção face aos desafios da missão que exigem resposta adequada.
Pode ilustrar esta experiência envolvente o exemplo do Papa Francisco e o recente Sínodo sobre a família e suas fases progressivas de realização. É um embrião deste jeito de ser Igreja emerge já nos Atos dos Apóstolos, aquando da problemática das pobres viúvas discriminadas na comunidade cristã, em Jerusalém.
É um estilo em que se pressente uma outra dimensão – a da presença e ação de Deus que nos convida a pormos em prática a sua pedagogia de salvação, a seguirmos os caminhos abertos por Jesus Cristo à Igreja, a acolhermos a novidade do Espírito que, tantas vezes, passa pelo contributo positivo das ciências da ação.
A essa luz, compreende-se melhor o valor do Sínodo como experiência modelar da Igreja, como acontecimento marcante da vida pastoral, como realização profética que rasga caminhos novos à ação eclesial e denuncia atitudes incorretas, como escola de aprendizagem daquilo que é fundamental a vida cristã.
Sem a aprendizagem deste estilo, a prática da Igreja diocesana perde o melhor de si mesma – o ser comunhão que se expande em missão por meio da experiência cristã de pessoas concretas, e as atitudes dos agentes pastorais ficam desfocadas daquilo que pretende verdadeiramente a ação eclesial – favorecer o desenvolvimento das capacidades de todos os batizados até à maturidade e intervir na sociedade como força ética de humanização. Vivendo o estilo sinodal, a Igreja é mais fiel ao Evangelho de Jesus e vive, de modo mais efetivo, a solidariedade com o mundo em todos os âmbitos da sociedade e sua complexa organização.
O estilo sinodal está presente apenas durante a realização de um sínodo ou na maior parte das ações da Igreja?
O Sínodo acaba como estrutura organizada e conjunto de iniciativas. Mantém-se vivo e impulsiona os órgãos de participação e de missão no seu funcionamento normal: o conselho presbiteral e o diaconal, os conselhos pastorais e económicos, as equipas, reuniões, assembleias e celebrações.
Por isso, o espírito sinodal tem de permanecer sempre atuante, de crescer em todas as dimensões e de se enraizar mais progressivamente nas consciências e atitudes das pessoas até impregnar a Igreja inteira. Tem de fazer nascer ou renovar as estruturas orgânicas e dinâmicas de participação corresponsável, onde não existem, e de dar novo impulso às que funcionam deficientemente. É necessário cultivar a vontade positiva de criar as condições humanas para garantir a eficácia do pós-Sínodo e manter abertas todas as ‘janelas’ do espírito.
Enquanto Igreja particular, isto é, Diocese de Aveiro, somos realmente uma igreja sinodal?
A resposta tem de ser matizada. Dizer sim ou não falsearia a verdade. Parece-me ser realista afirmar que parte significativa da Igreja diocesana vive a substância do Sínodo que procura aplicar o espírito de reforma eclesial preconizado pelo Vaticano II. Esta substância coincide com algumas decisões oficiais. Com altos e baixos, como é próprio do ser humano, sobretudo dos seus conjuntos. Com apoios oportunos de suporte e revigoramento que revelam capacidade criativa e mobilizadora; apoios que continuam a ser indispensáveis para que a renovação prossiga na verdade do Evangelho.
Outra parte, não menos expressiva, entrou numa certa rotina, faz a pastoral normativa exigida pelas circunstâncias e sente-se “sacudida” pelo exemplo maravilhoso do Papa Francisco, pelo esforço do nosso Bispo e pelos responsáveis pastorais, seus colaboradores. Todos reconhecem que “novos caminhos se abrem/ são os caminhos da esperança/ é esta a hora de Deus/ o mundo espera por nós”.
O Sínodo de Aveiro terminou há 20 anos. O P.e Georgino esteve muito empenhado na sua realização. O sínodo mudou mesmo o nosso modo de ser igreja? Ou sobre ele pousou um manto de esquecimento?
A experiência sinodal contribuiu fortemente para dar um novo impulso à renovação conciliar que estava em curso, embora um pouco adormecida. O “manto” referido é mais de manutenção térmica do calor concentrado do que arrefecimento progressivo com horizontes de saudoso esquecimento. Quando a beleza da mensagem passa a diretiva de ação encontra quase sempre filtros de retenção que tardam a assimilação e a coerência prática.
Apesar disso, as Decisões Sinodais são fontes de inspiração para o agir da Igreja diocesana, agora em novas modalidades: a revisão de normas pastorais, designadamente para a iniciação cristã; a relação jubilosa com a Eucaristia e respetivo culto, sobretudo dominical; a caminhada sinodal com os Jovens; o plano quinquenal que nos conduz a Missão Jubilar; e, ultimamente, o plano trienal que tem por lema: “Igreja de Aveiro, vive a alegria da misericórdia”.
Este plano surge após a apresentação de “A Alegria do Evangelho” em todos os arciprestados por D. António Moiteiro, nosso bispo, que recolhe as sugestões de centenas de leigos sobre a renovação cristã a implementar proximamente. Visa assim dar apoio a quem se mantém firme no espírito sinodal e pretende despertar e animar os que sentem o cansaço e tendem a deixar correr, procura alargar as zonas de influência dos cristãos na sociedade.
Cita logo no início o Papa Francisco e o seu sonho (“Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação”). A Igreja universal, com Francisco, é mais sinodal?
O Papa Francisco faz brilhar o que gostaria que a Igreja fosse realmente na prática testemunhada. E dá o exemplo: estilo de vida, magistério, mudanças significativas em centros vitais da organização eclesial. E faz apelos corajosos e insistentes. Um estilo sinodal está em crescimento, sobretudo nas dioceses e nas comunidades mais sensíveis à mudança de época cultural que vivemos e à urgência de a Igreja realizar a sua missão de forma iluminadora, assertiva e estimulante.
As resistências são grandes e protagonizadas, sobretudo, por pessoas altamente colocadas na escala hierárquica e por forças bem organizadas e influentes. Acresce a lentidão que normalmente acompanha a transformação das mentalidades dos conjuntos ancorados nas tradições, fruto de um tempo, mas assumidas como definitivas.
A renovação de estilo sinodal vai fazendo o seu caminho. O exemplo recente que versou sobre a situação da família e as experiências de tantas dioceses no mundo constituem marcos históricos impulsionadores deste processo em que a Igreja vive a comunhão de forma operativa na participação de todos na missão de serviço à verdade que liberta e humaniza.
