Uma encíclica incompleta?

Questões Sociais Cada nova encíclica social traz um novo contributo para a doutrina social da Igreja; nenhuma é completa, embora todas se insiram num processo que tende para isso. Olhando a esta luz para encíclica de Bento XVI, «Caritas in Veritate», talvez se possa afirmar que, além do mais, ela não se ocupa, detidamente, de quatro grandes temas actuais: a empresa; o diálogo social; a configuração do sistema económico; e o compromisso social dos católicos.

Acerca da empresa, colocam-se-nos duas questões fundamentais: Sua essência está na relação entre o empregador e os trabalhadores, ou na luta ancestral pela subsistência, pela realização pessoal e pelo bem comum? Como conciliar a sua responsabilidade social com o risco de inviabilidade económica?

O diálogo social constitui o dinamismo por excelência das relações laborais. Ele suscita hoje questões muito difíceis, como por exemplo a do posicionamento recomendável dos «parceiros»: Recomenda-se a simples co-existência? O entendimento táctico? A parceria? A cooperação?… Nos nºs. 81-85 da encíclica de Paulo VI, «Ecclesiam Suam», 1964, figuram linhas de orientação preciosas para o diálogo. Muito se lucraria se essas propostas fossem adaptadas às relações laborais; mais se lucraria ainda se fossem complementadas com as exigências específicas do diálogo social, da negociação colectiva e da concertação social.

Quanto ao sistema económico, sabe-se que a doutrina social da Igreja não se reduz, nem dá cobertura, a nenhum dos existentes, e não propõe um outro. Porém, sobretudo a partir de João XXIII, nos nºs. 59-67 da «Mater et Magistra», 1961, surgiram contributos de enorme valia para a configuração recomendável desse sistema. Hoje, nota-se a falta de um aprofundamento actualizado que esteja, para os nossos dias, como esteve a «Mater et Magistra» para o seu tempo.

Relativamente ao compromisso social dos católicos, acham-se em aberto as questões relativas a: diálogo social no interior da Igreja; apoio intra-eclesial à participação no diálogo social, dentro das «realidades terrestres»; movimentos sociais cristãos para intervenções na esfera sociopolítica, sem prejuízo do respeito pelo pluralismo…

Este vasto mundo de questões, apenas exemplificadas, deixa patente a insuficiência do pensamento social católico, sobretudo laical. Na medida em que este último se clarifique e aprofunde, ficarão esboçadas novas linhas doutrinárias, que poderão ser consagradas através de novas encíclicas sociais.