Valha-nos o Fair-Play

Desporto “Procurar agulha em palheiro” sempre foi uma tarefa árdua para quem quer que seja que o diga o povo quando teve de criar uma santa especialmente dedicada aos casos impossíveis e, mesmo assim, nem sempre com o proveito desejado.

Pois é esse estado de espírito que me invade sem saber, muito bem, a quem recorrer, hoje, que tenho de ditar algumas linhas para o papel sobre o tema que é: 2004, o Ano Europeu de Educação pelo Desporto.

Pretendia-se um ano em que a comunidade educativa e a comunidade desportiva se passeassem de mãos dadas pelas ruas das nossa praças, aproveitando as virtualidades de uma e da outra sem esquecer o “fair play” que é uma coisa de que tanta gente fala, mas que normalmente se recomenda para os outros, ou então mais dedicado a crianças. Todo este cortejo de Comissões e Embaixadores, Delegados e sub-Delegados, criados para o efeito, teriam como meta espalhar no país a célebre máxima “mens sana in corpore sano” que deu, na língua de Camões ( do novo dicionário) num “mexe o teu corpo e abre o teu espírito”.

Foi nesta procura que há dias indaguei de umas senho-ras e de uns cavalheiros que, como eu, se dedicavam a uma marcha por um dos paraísos – ainda existentes — na nossa terra, se sabiam o que era o Ano Europeu da Educação pelo Desporto. A resposta veio pronta, embora num certo arfar da caminhada, mas foi unânime. “…. por acaso não, é por causa do colesterol e do coração. Faz-nos muito bem!” E lá foram sorridentes, mesmo sem saber o que era o tal Ano Europeu, mas com “fair play”. Aliás, “fair play” não nos falta, é, até, um dos nossos valores mais apontados por muito turista que vem ter connosco e temos exemplos de sobra. O último parece-me o do senhor Major, depois de ter passado três dias fora de casa, aparece, sorridente, em roupão, a receber os órgãos da Comunicação Social. Que mais se poderia esperar? Saberá o que é o Ano Europeu de Educação pelo Desporto, não deu para ver, mas saberá com certeza…

Aliás penso que é aqui que reside o nosso problema: conjugar educação e desporto, já que o negócio comanda as duas realidades. Daí, tanto jogo rasteiro, tanto compadrio, as ramificações tão diversas que, como diz o povo: cada cavadela, cada minhoca. Bastava o cenário montado pelo “apito dourado….” em que o senhor presidente pediu ao senhor secretário que falasse com o árbitro x e foi o senhor y que…; aliás, foi este que pediu, o outro que contratou e aquele que recebeu…. tudo neste país pequeno, de brandos costumes, virado para o mar que é a nossa janela e também a nossa salvação…. com “fair play”.

Não é, por acaso, que os nossos Bispos, em documento já citado outras vezes, alertam para esta realidade “…. que obriga os dirigentes, os atletas e os clubes a viverem sob pressão de obterem sucesso a todo o custo, mesmo utilizando métodos poucos claros e que, frequente-mente, são deseducativos e desumanizantes.” E apontam o espectáculo deplorável dos discursos agressivos dirigidos aos adversários, as ‘guerras psicológicas’ destinadas a decidir o jogo fora do campo, as pressões sobre os árbitros, as tentativas de manipulação da opinião pública, os cortes de relações entre os clubes, das tentativas de condicionar as instâncias onde se decidem as questões controversas, para concluirem: ‘… O futebol deixa de ser um veículo de valores que unem as pessoas e que geram comunidade, para se tornar um factor de divisão, de ódio, de ruptura, de fractura social e de violência” (in: O desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos).

É certo que se prometem piscinas e parques desportivos, as Câmaras apetrecham-se com novos equipamentos, a gente nova pratica mais desporto, há seminários e jornadas sobre o tema, mas estaremos mais educados?

Valha-nos o fair-play!