“Vamos todos ganhar com a grandeza e humildade deste homem”

D. Amândio Tomás, D. Amândio Tomás, bispo auxiliar de Évora desde Janeiro de 2003, é “amigo pessoal” de Joseph Ratzinger, que conheceu quando era Reitor do Colégio Pontifício Português, em Roma. A finalizar um trabalho precisamente pedido pelo Cardeal Ratzinger, D. Amândio Tomás acedeu a responder por telefone a algumas perguntas do Correio do Vouga.

D. Amândio apareceu referido na imprensa como o “Amigo português do Papa”…

Sim, sou amigo pessoal do Cardeal Ratzinger, agora Papa Bento XVI. A amizade recebe-se e retribui-se. É uma graça e um dom que se cultiva.

Como conheceu o Cardeal Ratzinger?

Ele foi para Roma em 1981, a pedido de João Paulo II, para presidir à Congregação da Doutrina da Fé. Em 1982, fui nomeado Reitor do Colégio Português [estabelecimento onde vivem os padres portugueses que estudam em Roma] e como recebíamos alunos alemães, que manifestavam desejo de o conhecer, o Cardeal Ratzinger passou então a frequentar o Colégio Português. Posteriormente, pediu-me para colaborar no Catecismo da Igreja Católica e acompanhei-o, em 1996, na visita a Fátima e ao Convento de Coimbra, para falar com a Irmã Lúcia. Tive a felicidade de conhecer a sua irmã Maria, que entretanto faleceu, e o seu irmão Jorge, que também é padre.

Como caracteriza o Cardeal Ratzinger?

É um homem de rara humildade e de grande craveira intelectual. Tem uma cultura estupenda. É um grande teólogo. Foi o teólogo mais jovem do Concílio Vaticano II, como secretário do Cardeal Frings. O Joseph Ratzinger alia a simplicidade, que à primeira vista parece uma certa timidez, com uma grande humildade. Nunca deseja brilhar. Esconde-se. Até fisicamente é relativamente pequeno. É muito paciente. Quantas vezes aconteceu ser abordado pelas pessoas na Praça de S. Pedro, quando passeava de boina, e ficar a conversar com elas calmamente… Estive várias vezes em casa dele [em Roma] e pude ver a pobreza e desprendimento em que vivia. Recordo que, uma vez, no aeroporto de Fiumicino (Roma), ele fez questão de carregar uma das minhas malas.

É possível antever algum rumo do pontificado de Bento XVI a partir da personalidade de Joseph Ratzinger?

Vejo nele uma pessoa simples e humilde, de grande fé. Ele é o maior dom de Deus à sua Igreja. Vamos todos ganhar com a grandeza e humildade deste homem. Não foi por acaso que se apresentou, na primeira mensagem, como “simples operário da Vinha do Senhor”. Até o nome de Bento pode ser visto nessa linha, se lembrarmos um papa da Idade Média que escreveu sobre a “vinha do Senhor”.

Vai ser assombroso o contributo deste Papa para a Igreja e a Humanidade, pois ele foi um grande teólogo, que reflectiu sobre a liturgia, sobre o Povo de Deus, a partir do pensamento de Sto Agostinho, e sobre a colegialidade dos bispos.

D. Amândio está actualmente a trabalhar numa publicação a pedido do então Cardeal Ratzinger…

Sim, mas não é nada de novo. Trata-se de uma síntese do que já foi feito, um resumo do Catecismo da Igreja Católica, em perguntas e respostas, para tornar mais acessível a doutrina da Igreja.

A preocupação com a ortodoxia da fé poderá marcar o pontificado…

Essa preocupação é comum a todos os papas. Do ponto de vista da fé, a Igreja é transmissora. Faz a entrega (“paradousis”, em grego) daquilo que recebeu de Cristo e que Cristo recebeu do Pai. O anúncio da Igreja é entrega. A Igreja existe para transmitir o depósito da fé. Foi essa a grande preocupação do Cardeal Raztinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Ele foi um dos maiores amigos do Papa João Paulo II. Sei-o de fonte segura. Mas é um homem deste tempo, que dialoga com o filósofo alemão Habermas ou com o presidente do Parlamento italiano. Não foi por acaso que foi escolhido como membro da Academia Francesa, para o lugar de Sakarov [1921-1989, físico russo, prémio Nobel da Paz em 1975].

Vai haver continuidade entre João Paulo II e Bento XVI?

Bento XVI vai fazer as coisas à sua maneira. Ele não vai copiar João Paulo II. Seria uma caricatura. Vai haver fidelidade e renovamento. Tenho a certeza que será um grande Papa.