Abr 20, 2017 | Missões, Notícias, Recortes
O Santuário de Lourdes, em França, recusa a existência de “concorrência” com Fátima para atrair fiéis ou turistas, preferindo sublinhar a “complementaridade” que há entre os vários locais de culto mariano, com “tonalidades” diversas, em todo o mundo. “Apercebemo-nos que não estamos em concorrência, porque todos celebramos a Virgem Santa”, disse à Lusa o Vice-Reitor do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, acrescentando que “há uma complementaridade profunda entre todos os Santuários marianos, indo os peregrinos de um a outro”. Para Xavier d’Arodes, “cada santuário tem uma tonalidade própria” e quando se vem a Lourdes procura-se “uma cura para uma doença física ou psicológica”. Há centenas de locais de culto mariano (de Maria, “mãe” de Jesus) em todo o mundo, estando Lourdes e Fátima entre os mais importantes e os mais visitados. “Atualmente assistimos a um aumento do número de pessoas que vão aos santuários, porque as pessoas estão à procura de referências”, disse Xavier d’Arodes, recordando uma imagem antiga que compara “locais de culto” com “hospitais de campanha”. O Vice-Reitor de Lourdes acredita que, num contexto de descristianização do continente europeu, “aqueles que estão, por vezes, em dificuldade, que se interrogam sobre o sentido da sua vida”, vão a um Santuário como iriam a um hospital tratar da sua saúde. O complexo de igrejas do Santuário de Nossa Senhora da cidade dos Pirenéus franceses foi construído em finais do século XIX, na sequência de várias aparições da Virgem Maria perante uma camponesa de 14 anos, Bernadette Soubirous, a partir de 1858. Xavier d’Arodes também rejeita que Lourdes não seja mais do que tudo um local turístico, com os hotéis a invadir a cidade e a chegarem aos locais de culto. “Claro que há uma pressão de hotéis”, admite d’Arodes, mas explica que é “por razões diferentes na estrutura da peregrinação dos fiéis”. Os peregrinos que vão a Lourdes são, na sua maioria, doentes que precisam de serviços hospitalares, ficando na cidade “vários dias”, ao contrário de Fátima, onde “a experiência é muito mais curta”, segundo o Vice-Reitor. “As pessoas participam na celebração, em Fátima, por volta do dia 13 de cada mês, mas em seguida partem muito rapidamente, enquanto em Lourdes a peregrinação dura mais tempo, por isso precisamos de estruturas de acolhimento que não há em Fátima”, explica Xavier d’Arodes. O Santuário de Nossa Senhora de Lourdes é uma área com várias igrejas e outras instituições construída em torno da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, local da primeira “aparição”. A fama de Lourdes cresceu muito nos anos seguintes a 1858, quando mais de 2.000 curas sem explicações foram reconhecidas pelo posto médico instalado no local. Entretanto, a Igreja também reconheceu cerca de sete dezenas destas curas como sendo “milagrosas” e validou oficialmente as “aparições” logo em 1862. O número dois do Santuário de Lourdes realçou as “relações excelentes” com Fátima: em 1947 a estátua de Nossa Senhora de Fátima viajou até Lourdes e em 2008, aquando das comemorações dos 150 anos da primeira aparição na cidade francesa, os reitores e padres de Fátima também vieram a Lourdes. “Há relações muito fortes entre os dois Santuários”, insiste Xavier d’Arodes, assegurando que tanto ele como o Reitor de Lourdes irão a Fátima em 13 de maio próximo, para assistirem às comemorações do centenário das aparições naquele local de culto, que terá a presença do papa Francisco. Na cidade francesa, de maio a outubro de 2017, todos os dias 13 haverá uma evocação a Nossa Senhora de Fátima e todas as procissões previstas terão imagens dessa santa. Por outro lado, a cerimónia presidida em 13 de maio próximo pelo papa Francisco, em Fátima, será retransmitida num ecrã gigante instalado na Basílica Saint-Pie X, em Lourdes. “Para nós, é uma grande alegria podermos também celebrar o centenário das aparições em Fátima”, concluiu Xavier d’Arodes.
Clara Teixeira
In luso Jornal, 19 de abril de 2017
Abr 20, 2017 | Centenário das Aparições, Missões, Notícias, Recortes
Foi no âmbito do Centenário das Aparições que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima foi acolhida por uma dezena de Comunidades portuguesas da diocese de Versailles (78), durante 10 dias. Os momentos mais fortes foram marcados pela celebração inicial na Catedral Saint Louis de Versailles, para terminar na Paróquia de Mantes-la-Jolie, no domingo 2 de abril. Foi juntamente com a Capelania nacional portuguesa e a Pastoral de migrantes da Diocese de Versailles, que o Padre Carlos Caetano trouxe a imagem peregrina até à região parisiense. “Reuni-me com o Conselho das Comunidades Portugueses da Diocese de Versailles onde está representada uma forte Comunidade, convidámos várias Paróquias e depois tentámos privilegiar as Comunidades portuguesas mais estruturadas para levar a Santa”. Há mais de um ano que o Padre Caetano estava a trabalhar neste projeto. “Penso que há uns anos atrás a imagem ficou no Santuário de Fátima em Paris, mas não me recordo bem. Acho que mais nenhuma Diocese organizou algo semelhante”, adiantou ao Luso Jornal. Foi o próprio padre que se encarregou de ir buscar a imagem ao Santuário de Fátima em Portugal e que a trouxe no avião. Segundo o reitor há 13 imagens peregrinas que viajam em permanência. “Nunca param! Já viajaram pelos 5 continentes a convite das várias Dioceses, apenas param uns dias em Portugal quando necessitam uma pequena restauração”. A imagem seguiu de Saint Germain-en-Laye para Noisy-le-Roi, Chevreuse, Poissy,Bois d’Arcy, Versailles, Houilles, Carrières-sur-Seine e finalmente Mantes-la-Jolie. A alegria dos presentes foi imensa e todos se congratularam com a iniciativa. “Tivemos muitos comentários positivos que demonstravam claramente a felicidade dos fiéis por terem a imagem peregrina connosco aqui em França. Os ecos foram mesmo muito encorajantes e de ver que toda a energia investida resulta numa alegria e gratidão tão grandes, é de facto muito gratificante”. De acordo com o Padre português, o evento não era apenas dirigido aos Portugueses, mas também à Diocese, “criando laços com os fiéis franceses, para colaborar, dialogar e partilhar a mensagem de Nossa Senhora de Fátima”. Muitos Franceses presenciaram assim à devoção e ao carinho dos Portugueses pela Santa e perceberam melhor o seu significado. “Acredito que também alguns Portugueses redescobriram a mensagem de Nossa Senhora de Fátima”, sublinhou. Quando Nossa Senhora de Fátima apareceu em 1917 aos três Pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, acredita-se que deixou uma importante mensagem, que deveria ser repassada pelas crianças a todos. Na época, o nazismo e o comunismo ameaçavam o mundo, e o significado da mensagem era relacionada ao que acontecia, entretanto, ainda nos dias de hoje as suas previsões não perderam a importância. A carta que ficou conhecida como o terceiro segredo de Fátima revela a importância da penitência, não só de todos, mas também das três crianças, que seguiram exatamente o que Nossa Senhora havia pedido. Nossa Senhora pediu insistentemente que os três Pastorinhos rezassem o Santo Rosário pela salvação das almas da condenação eterna no Inferno. Deviam ainda rezar o Terço mariano pelos próprios pecados. Em resumo, a mensagem de Nossa Senhora de Fátima teve grande importância. Cem anos depois, as penitências e sacrifícios são vistos como soluções contra a busca pelo dinheiro, pelo poder e ganância. A mensagem da Virgem Maria consiste ainda na transformação dos corações para vencer o mal.
Clara Teixeira
In luso Jornal, 19 de abril de 2017
Abr 17, 2017 | Informações, Recortes
Cristo ressuscitou!
Jesus Cristo, o Filho Deus encarnado, que veio até nós e foi morto na cruz pelos pecados da humanidade, ressuscitou dos mortos! Esta é a boa notícia da nossa fé que gostaríamos de partilhar com o mundo inteiro. A celebração cristã da Páscoa significa que, através de Jesus Cristo, a vida triunfa sobre a morte, a esperança sobre o desespero e a paz sobre o conflito. A ressurreição do Cordeiro de Deus dos mortos mudou a história; nada é como era antes da ressurreição de Cristo.
A crucificação é uma realidade que continua: a vida humana ainda é violada e a criação é explorada. Através da guerra, da ganância e da injustiça, a vida está sob ameaça e é tantas vezes destruída. Para muitos, o mundo é frequentemente marcado pela violência e pelo medo, mas Jesus Cristo é mais forte do que as nossas portas fechadas e do que as paredes que existem nos nossos corações. Ele entra e diz-nos: “a Paz esteja convosco” (Jo 20, 21).
Temos especialmente unidos a nós, através das nossas orações, aqueles cristãos perseguidos e impedidos de celebrar a ressurreição de Jesus em liberdade e paz. Eles são o corpo sofredor de Cristo. Temos também muito presentes nas nossas orações os nossos muitos irmãos e irmãs em Cristo que morreram por professarem a sua fé e todos aqueles que continuam a testemunhar e a trabalhar para que seja possível o respeito mútuo e o diálogo em situações perigosas. Eles são um exemplo para nós. Eles são um apelo a que os cristãos na Europa também sejam corajosos na sua fé e testemunhem com alegria e convicção o amor infinito de Deus. Eles apelam aos cristãos na Europa a permanecerem junto dos mais necessitados, independentemente da nacionalidade ou da religião: os pobres, as mães sozinhas com os seus filhos, os doentes e os idosos, os presos, os refugiados, e todos os excluídos da nossa sociedade.
As actuais divisões entre cristãos ferem o corpo de Cristo, mas hoje, quando as Igrejas do Oriente e do Ocidente celebram ao mesmo tempo a cruz e a ressurreição, proclamamos a nossa comum fé em Jesus Cristo, o Redentor que se levantou e ressuscitou do meio dos mortos. Renovamos o nosso compromisso em percorrer o caminho da unidade e convidamos as nossas comunidades cristãs a serem um sinal de alegria na fé e de amor desinteressado e a serem uma presença de esperança num mundo chamado a reconciliar-se consigo mesmo e com Deus.
Juntos, partilhamos a alegria e a consciência da importância decisiva da ressurreição de Cristo, que está no meio de nós e nos dá confiança ao dizer-nos: “Eu estarei com vocês até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Documentos, Espiritualidade, Noticias

Abr 12, 2017 | Diálogo Inter-religioso, Notícias, Recortes
Não se pode falar de Cidadania excluindo a Religião!
A conferência/debate O papel e a responsabilidade da mulher em contexto religioso encheu no passado dia 3 de abril, o auditório municipal de Torres Vedras.
Participaram representantes de vários contextos religiosos e da academia (Ciência das Religiões).
Frei José Nunes, padre católico, lembrou o apóstolo Paulo para defender que “aos cristãos não interessa a diferença de género ou qualquer outra diferença social”. O frade dominicano lamenta que, apesar de ter havido mulheres com responsabilidades de liderança nas primeiras comunidades cristãs, esta parece ser “uma questão inultrapassável” no catolicismo, pois “as mulheres não têm acesso ao sacerdócio”. O Papa Francisco, recorde-se, já admitiu que esta porta foi fechada por João Paulo II.
Isaura Feiteira, católica ligada à ação social e membro do Graal, movimento de mulheres cristãs, entende que “o importante é haver bons discipulos e boas discípulas”. Feiteira citou o pensamento de Maria de Lurdes Pintasilgo para defender que mais importante que a ordenação “é a possibilidade de as mulheres católicas participarem, em igualdade, nas tomadas de decisão”.
Já Brissos-Lino, pastor protestante e professor de Psicologia da Religião, defende a existência de “diferenças na especificidade” entre homens e mulheres, mas também que “não há impedimentos teológicos para que as mulheres não desempenhem qualquer papel na Igreja”. Persiste “uma hermenêutica à martelada” que subalterniza a mulher em Igreja, acusou Brissos-Lino.
O debate foi mais aceso quando o imã da Mesquita Central de Lisboa foi interpelado sobre o papel das mulheres na cultura muçulmana. O Xeque David Munir esclareceu que o Islão define responsabilidades consoante o género, “mas isso não quer dizer que o homem seja mais do que a mulher”. Na ausência do imã, exemplificou Munir, “uma mulher pode orientar a oração na Mesquita, pelo que adquirir conhecimento é obrigatório para homens e mulheres”. O problema não é o Alcorão, acrescentou, mas “o cruzamento da cultura patriarcal com o Islão”.
Filomena Barros, professora de História do Islão, advogou que o papel das mulheres, sobretudo no Islão, é o de “desconstruir a história”. Há no Alcorão passagens que “podem dar a ideia de subjugação da mulher em relação ao homem, como o contrário”, advertiu a historiadora, que recorda a intervenção de muitas mulheres muçulmanas na emancipação.
“Nada pior do que fossilizar uma ideia [religiosa] e impor uma leitura estagnada”, atitude que tem levado a uma “escravocracia da mulher”, acrescentou António Faria. O professor de filosofias orientais sugeriu, por isso, que se invertesse o tema do debate para “o papel e a responsabilidade dos contextos religiosos no feminino”.
Cabe à Ciência das Religiões “construir conhecimento e reflexão sobre o género em contexto religioso”, lembrou Mariana Vital. A investigadora de Ciência das Religiões recordou que há novas religiosidades que “desenham mais equidade entre géneros”.
Questionado sobre a possibilidade de concelebrar com uma mulher, o padre José Nunes lembrou a sua participação na ordenação de uma amiga pastora protestante, onde se sentiu “mais à vontade em oração, do que em muitas igrejas católicas”. Nunes é “a favor da ordenação de mulheres”, mas defende uma mudança mais profunda, pois “mudar a lei, pode apenas desencadear uma luta pelo poder”, de caracter sexista, pelo que a “igualdade deve ser construída na escola para que quem tenha capacidades para um serviço as assuma e a sociedade reconheça” sem quaisquer preconceitos de género.
Na opinião da secretária de estado para a Cidadania e Igualdade, o problema é mesmo o do poder, que “deve ser exercido por quem quer fazer esse percurso e tem condições para lá chegar, em pé de igualdade”. Catarina Marcelino questionou: “Porque é que as mulheres não podem exercer o poder da Palavra e da liderança na Igreja?”
A católica Isaura Feiteira, embora pertencendo a um movimento feminista, esclareceu que não se sente “incomodada por não poder ser ordenada, mas sim pelo facto de as mulheres não terem acesso às tomadas de decisão mais importantes na Igreja”.
No final do debate, a governante confessou que “foi dos debates mais interessantes” a que assistiu nos últimos anos, concluindo que, “quando se fala de Cidadania tem de se falar de Religião”.
Joaquim Franco moderou o debate e revelou, no final, que o tema – O papel e a responsabilidade da mulher em contexto religioso – era uma provocação. O coordenador do OLR, explicou que a definição de um papel pode ser vista como “segregação”, como a ideia de responsabilidade pode ser interpretada como uma “limitação”, pelo que a opção foi propositada para provocar o debate. “É no debate e pelo debate que a ferramenta do diálogo – também entre diferentes contextos religiosos, espirituais ou de consciência – é colocada à prova, para alargar as possibilidades de encontro e promover o conhecimento mútuo”, disse.
Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, salientou nas conclusões a importância de levar estes assuntos à escola e aos meios de educação não-formal, como “instrumento fundamental para uma Cidadania ativa e construtiva”. Esta tem sido, lembrou, “uma das prioridades” da área de Ciência das Religiões da ULHT.
Foi o segundo debate do Roteiro para o Diálogo Inter-religioso e Cultural, organizado pela área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, com o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR), promovido pela Karingana wa Karingana, num projecto apoiado pelo gabinete da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. A iniciativa tem percorrido o país em paralelo com o Roteiro Cidadania em Portugal, organizado pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, em parceria com o gabinete da SECI.
O próximo debate realiza-se este sábado, dia 8, em Fafe, com o tema “Criança – Religião – Espiritualidade”, no âmbito do evento Terra Justa – Encontro Internacional de Causas e Valores da Humanidade.
(4 Abril 2017)
Abr 12, 2017 | Diálogo Inter-religioso, Notícias, Recortes
“É preciso voltar a subir às árvores”
Criança – Religião – Espiritualidade foi o tema da conferência que lançou o debate no dia 8, em Fafe, sobre a formação de crianças e jovens em contexto religioso, formal e não-formal.
A iniciativa do Roteiro para o Diálogo Inter-religioso e Cultural inseriu-se também no Terra Justa – Encontro de Causas e Valores da Humaniade, que se realizou pela terceira vez naquela cidade.
Participaram na conferência representantes de vários contextos religiosos, escolares e formativos.
Rachid Ismael, diretor do Colégio Islâmico de Palmela, disse que “a criança nasce pura”, segundo o Islão, mas os contextos culturais determinam a sua formação e crescimento. O imã citou o pedadogo muçulmano Haji Imdadulah, para definir quatro fases da vida e da espiritualidade: a imitação, o dever, o hábito e o princípio. Percurso que compara às quatro fases do sistema de ensino – Pré-escolar, 1º ao 3º ciclos, secundário e superior ou “formação para a vida” – que promove no colégio, onde, garante, a “religião complementa a espiritualidade e vice-versa”. Recorde-se que o Colégio Islâmico de Palmela tem também a função de madrassa, ou seja, de formação religiosa.
Noutra experiência educativa, a diretora do colégio católico de Sta Teresa de Jesus, em Santo Tirso, defendeu que a “espiritualidade é inerente à existência humana”. A criança é um “ser espiritual” e mais tarde “pode passar a um ser religioso”, como resultado “de uma adesão consciente ou de tradição, mas de uma adesão”, entende Esmeralda Lima. Numa pedagogia pensada a partir da espiritualidade profunda de Santa Teresa de Jesus, ou Santa Teresa de Ávila, os alunos mais novos deste colégio começam o dia com “¼ de hora de oração”. A ideia, diz a diretora, “é levar a criança a pensar sobre o sentido do que vai fazer durante o dia”. Para os alunos mais velhos, proporciona-se “uma paragem diária para reflexão sobre o que fizeram”.
Para o historiador e escritor Alexandre Honrado, a “criança precisa de rituais de iniciação para «ser», abrindo o campo de interpretação e de leitura do mundo”, pelo que a missão educativa “é imprescindível” e “começa em casa”.
Como escritor dedicado aos públicos infantil e juvenil, também sobre temas religiosos e diversidade, “os livros são etapas de um desafio, de um jogo com os mais novos”.
A aprendizagem no espaço escolar “deve habilitar a criança para a política, ou seja, formar para a cidadania”, propõe Alexandre Honrado.
O pároco local falou da experiência de formação infantil e juvenil em contexto paroquial. “Sem espiritualidade não há religião”, advertiu o padre Pedro Marques, mas “há um eclipse do fenómeno espiritual no espaço público”. A prioridade de uma paróquia deve ser “educar para a espiritualiade e só depois para a religião”, permitir às pessoas uma “descoberta a partir de si”, embora reconhecendo que a catequese é uma “iniciação cristã e visa fazer cristãos, o que não é fácil”. Em jeito de apelo, o pároco de Fafe diz que a Igreja “precisa de formar educadores religiosos”, pois, no terreno da fé, as catequeses “atuam na crise da dúvida, ou até da negação”. Se “a relação com Deus é cada vez mais aberta, Igreja precisa de bons educadores”, conclui. E se cresce o subjectivismo e o individualismo, a crise das identidades religiosas herdadas, há também a “moda de acreditar sem pertencer, desenhando-se um mínimo ético”. Nisto, adverte, “as tecnologias são péssimas instituições educativas” e ocupam “cada vez mais esse espaço”.
A especialista em mindfulness e diretora do Centro Budista do Porto faz a mesma reflexão. No dia-a-dia “não estamos presentes nas nossas próprias experiências, e o mesmo se passa com as crianças” que “têm uma vida agitada, de correria, à semelhança de pais e educadores”. Há que “parar para estar presente”, sugere Margarida Cardoso, dando o mindfulness (método que vai buscar ferramentas ao budismo e promove a atenção plena) como proposta para criar ferramentas que permitam a cada um “estar mais presente” no meio. Já usado na área da saúde, e como “inibidor do stress”, o mindfulness tem entrado na educação como forma de promover a concentração permitindo “mais atenção à experiência do agora, do presente, com gentileza e curiosidade”, explicou Margarida Cardoso.
“O que é a espiritualidade?”, questiona Rui Lomelino de Freitas. O historiador das ideias fez outra pergunta: “Olhamos para a criança como espaço onde pomos algo dentro ou ela tem já uma maravilha que deve ser acalentada?”.
Professor da Área de Ciência da ULHT, onde se desenvolve o projeto Religiões do Mundo (que leva à escola, em educação não-formal, uma abordagem científica sobre a religião e a espiritualidade), Rui Lomelino de Freitas vê a necessidade de se recriar no espaço educativo e formativo um “tempo para a liberdade, o afecto e a imaginação”, em contraponto “à oferta de grandes cargas horárias e muita ocupação”.
A irmã Carmen Bandeo, de nacionalidade argentina, entrou no debate também com uma pergunta: “Quantos adultos têm consciência de que já foram crianças?”
Lembrando que “a experiência fundante” da sua vida é a de que já foi “amada”, a religiosa católica, em representação da rede Talitha Kum de combate ao tráfico de pessoas, acrescentou que “no respeito e no amor pelo outro, joga-se e abre-se espaço para o encontro, o mistério de me conhecer a mim, ao diferente e ao Absoluto”. Em cenário de guerra, de tráfico, as irmãs da Rede Talitha Kum tentam também “ir ao encontro da outra pessoa, no caso, da criança, e que essa experiência toque, não deixando ambos indiferentes” fazendo a mudança.
No final, o coordenador da Área de Ciência das Religiões da ULHT salientou que “encontrar tempo e espaço para se ser criança, foi o apelo transversal deste debate”. Para Paulo Mendes Pinto, é evidente a necessidade de “descobrir a criança que há em cada um, de voltar a subir às árvores”.
Numa era marcada “pela rapidez e pelo deslumbramento da tecnologia, é urgente redescobrir um tempo para a criança olhar para dentro, fazer perguntas e pensar para lá do óbvio tecnológico e imediato”, acrescentou Joaquim Franco, coordenador do Observatório para a Liberdade Religiosa e moderador do debate. E aqui podem também ser importantes os educadores e formadores em contexto religioso/espiritual.
A sessão terminou com a homenagem do Terra Justa à rede Talitha Kum, tendo o presidente da Câmara Municipal de Fafe, Raúl Cunha, salientado o duplo esforço das religiosas consagradas no combate ao tráfico de pessoas: a abordagem direta, muitas vezes com risco de vida, e a estratégia de funcionamento em rede.
Foi o terceiro debate do Roteiro para o Diálogo Inter-religioso e Cultural, organizado pela área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, com o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR), promovido pela Karingana wa Karingana, num projecto apoiado pelo gabinete da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. A iniciativa tem percorrido o país em paralelo com o Roteiro Cidadania em Portugal, organizado pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, em parceria com o gabinete da SECI.
Os próximos debates estão previstos para a segunda quinzena de maio, em Beja (18 de maio) e em Tomar (23 de maio), este com o tema Peregrinos e Turistas – pela Cidadania, para o diálogo entre religiões e culturas.
Nos dias 7, 8 e 9 de abril, durante a tarde e ainda no âmbito do Terra Justa 2017, o Roteiro para o Diálogo Inter-religioso e Cultural encontrou-se com crianças e jovens de Fafe, bem como dezenas de catequistas, escuteiros e líderes de grupos juvenis da paróquia de Fafe. Estes encontros tiveram lugar no Auditório Municipal e juntaram cerca de 150 pessoas.
Roteiro para o Diálogo Inter-religioso
Ciências das Religiões – Lusófona
(10.04.2017)
Jul 29, 2016 | Recortes
Oswiecim, Polónia, 29 jul 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco visitou hoje os antigos campos de concentração nazis de Auschwitz e Bikernau, na Polónia, numa homenagem silenciosa que durou cerca de hora e meia.
As únicas palavras foram deixadas em espanhol, por escrito, no livro do Museu de Auschwitz: “Senhor, tem piedade do teu povo. Senhor, perdão por tanta crueldade”.
Francisco atravessou sozinho o portão de Auschwitz, com a inscrição “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) colocada pelos nazis durante a II Guerra Mundial (1939-1945).
O Papa optou por sentar-se em silêncio, durante largos minutos, antes de beijar um dos postes de madeira onde os prisioneiros eram executados.
O percurso seguiu para junto ao chamado “muro da morte”, no Bloco 11, no qual Francisco cumprimentou sobreviventes do Holocausto, acompanhado pelo primeiro-ministro polaco, Beata Szydlo.
Um dos sobreviventes ofereceu ao Papa uma vela, que a colocou junto ao muro, onde se inclinou, apoiado numa mão, e deixou como presente pessoal uma lamparina de bronze.
Francisco dirigiu-se em seguida, de forma privada, ao ‘bunker da fome’, dentro cela de São Maximiliano Kolbe – o religioso que ofereceu a sua vida em troca pela de outro prisioneiro, precisamente 75 anos depois da sua condenação à morte.
O pontífice argentino rezou durante vários minutos, em silêncio, na escuridão da cela de São Maximiliano Kolbe.
João Paulo II e Bento XVI visitaram Auschwitz em 1979 e 2006, respetivamente.
Francisco optou por sair de Auschwitz, a pé, passando de novo sozinho pelo portão antes se seguir em carro para Bikernau, campo em que percorreu a pé, com a mão direita sobre o peito, o monumento internacional às vítimas do campo, 23 lápides comemorativas nas línguas dos que foram assassinados.
O pontífice voltou a rezar em silêncio e a depositar um candeeiro junto às lápides, tendo ouvido o Rabino-Chefe da Polónia, Michael Schudrich. proclamar o salmo 130 em hebraico, o qual foi repetido em polaco pelo padre Stanislaw Ruszala.
O sacerdote católico é pároco da localidade natal de uma família católica – em processo de beatificação – que foi “exterminada” por ter ajudado judeus: Józef e Wiktoria Ulma e os seus sete filhos.
O Papa encontrou-se ainda com um grupo ‘justos entre as nações’ – pessoas que ajudaram judeus a fugir do regime nazi.
O antigo campo de concentração nazi de Auschwitz tem sido destino de milhares de jovens católicos que se deslocaram à Polónia para participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2016, em Cracóvia.
O campo começou a funcionar em 1940 e terminou em 1945, com a chegada das tropas soviéticas, estimando-se que tenham morrido 1,3 milhões de pessoas, sobretudo judeus, ciganos, russos, presos políticos e polacos.
Uma das salas conserva ainda duas toneladas de cabelos humanos; foi também neste campo que foram usadas pela primeira vez as câmaras de gás.
OC
Notícia atualizada às 10h07